
O Preço da Indiferença
Capítulo 2
Saí do hospital com a certidão de óbito do meu filho na mão, um pedaço de papel que parecia pesar uma tonelada.
Lá fora, o sol brilhava forte, um contraste cruel com a escuridão que eu sentia por dentro.
As pessoas passavam, rindo, conversando, vivendo as suas vidas normais.
O meu mundo tinha parado.
Peguei no telemóvel para ligar ao meu marido, Leo. Precisava de lhe contar que o nosso filho, que esperámos por três anos, já não existia.
A chamada tocou uma, duas, três vezes.
Quando ele finalmente atendeu, o barulho de fundo era de festa, música alta e risos.
A voz dele soou irritada.
"Helena? O que foi? Estou ocupado."
A sua voz estava distante, desinteressada.
"Leo, o nosso bebé..."
A minha voz falhou, um nó formou-se na minha garganta.
"O que tem o bebé? Nasceu? Não me digas que estás no hospital, não posso ir agora. A Sofia está a ter um ataque de pânico, o gato dela fugiu. Estou a tentar acalmá-la."
Sofia. A minha cunhada. A irmã dele.
"Leo, o nosso filho morreu."
Disse as palavras de forma seca, sem emoção. As lágrimas tinham secado.
Houve um silêncio do outro lado da linha, mas não o silêncio de choque ou dor. Foi um silêncio de incómodo.
"Helena, que brincadeira de mau gosto é essa? Sabes que a Sofia é sensível, ela está a passar por um momento difícil."
"Não é brincadeira, Leo. Eu estou no hospital. Tive um aborto espontâneo. O nosso filho morreu."
"Merda," ele murmurou. "Olha, não posso falar agora. A Sofia precisa de mim. Depois falamos."
E desligou.
Assim, sem mais nada.
O meu marido escolheu consolar a irmã porque o gato dela fugiu, em vez de estar ao meu lado depois de perdermos o nosso filho.
Olhei para a certidão de óbito. O nome que tínhamos escolhido, Lucas, nunca seria usado.
A dor era física, uma pressão no peito que me impedia de respirar.
Sentei-me num banco ali perto, o sol a queimar-me a pele, mas eu não sentia nada.
O meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem da minha sogra, a mãe do Leo, a Clara.
"Helena, o Leo disse-me que estás a fazer drama outra vez. Pára de ser egoísta. A Sofia está muito abalada com o desaparecimento do Biscoito. Ela tem o coração fraco, sabes disso. Em vez de apoiares a família, estás a criar problemas. Sê uma boa esposa e compreende as prioridades."
Prioridades.
O gato da irmã dele era a prioridade.
A minha dor, a perda do nosso filho, era um drama.
Levantei-me. A decisão formou-se na minha mente, clara e fria como o gelo.
Não havia mais nada para salvar.
O nosso casamento, tal como o nosso filho, estava morto.
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