
O Preço da Indiferença
Capítulo 3
Cheguei a casa e o silêncio era ensurdecedor.
A casa que tínhamos preparado para o nosso bebé, com o quarto pintado de azul claro e o berço montado, parecia agora um mausoléu.
Cada objeto era uma recordação dolorosa do que tínhamos perdido.
Sentei-me no sofá e esperei.
Horas mais tarde, o Leo chegou. Ele não parecia triste ou preocupado. Parecia apenas cansado.
Ele atirou as chaves para a mesa.
"Encontrámos o Biscoito. Estava debaixo da varanda do vizinho. A Sofia finalmente acalmou-se."
Ele falou como se estivesse a relatar a maior vitória do dia.
Ele olhou para mim, finalmente, e o seu rosto endureceu.
"Que cara é essa? Já te disse que não era para fazeres drama."
"Onde estiveste, Leo?" perguntei, a minha voz vazia.
"Eu já te disse! A ajudar a minha irmã! Família em primeiro lugar, Helena, quantas vezes tenho de te dizer isto?"
"E nós? Nós não éramos uma família? O nosso filho, Leo, o nosso filho..."
Ele interrompeu-me, impaciente.
"Aconteceu. É triste, mas aconteceu. Não podemos fazer nada. A vida continua. Agora, a Sofia precisava de mim. Ela é frágil."
Frágil.
Eu tinha acabado de perder um filho, o corpo ainda a doer, a alma em pedaços, e eu é que tinha de ser forte?
"Eu quero o divórcio, Leo."
As palavras saíram com uma calma que me surpreendeu.
Ele riu. Uma risada curta e amarga.
"Divórcio? Estás a falar a sério? Por causa disto? Porque eu fui ajudar a minha própria irmã? Deixa de ser tão dramática e egoísta."
"Egoísta?" repeti, a palavra a saber a veneno. "Eu estava sozinha no hospital, Leo. Sozinha a receber a notícia de que o nosso filho estava morto. E tu estavas a procurar um gato."
"Não fales assim do Biscoito!" ele gritou, de repente furioso. "Tu não entendes o que ele significa para a Sofia! E eu não sabia que a situação era tão grave!"
"Eu disse-te que o nosso filho morreu. O que poderia ser mais grave do que isso?"
"Pensei que estavas a exagerar! Tu fazes sempre isso! Fazes uma tempestade num copo de água por tudo!"
A sua raiva era a única emoção que ele conseguia mostrar. Nenhuma tristeza pelo filho perdido. Apenas irritação por eu o estar a incomodar.
"Acabou, Leo."
"Não, não acabou," ele disse, aproximando-se, o seu tom a mudar para uma ameaça velada. "Tu não vais a lado nenhum. Nós somos casados. Vais superar isto, como uma boa esposa faria."
"Eu não sou a tua boa esposa. Não mais."
Virei-me e fui para o nosso quarto. Comecei a tirar as minhas roupas do armário e a metê-las numa mala.
Ele ficou a observar-me da porta, os braços cruzados, uma expressão de desprezo no rosto.
Ele não ia ajudar. Ele não ia impedir-me. Ele estava apenas à espera que o meu "drama" terminasse.
Mas não era drama.
Era o fim.
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