
O Preço da Cura Fatal
Capítulo 2
Meu nome é Sofia Almeida, e nasci com um coração que não deveria me permitir amar tão intensamente. Os médicos chamam de uma condição cardíaca rara, uma falha genética. Minha família, mais antiga e com outros conhecimentos, a chama de uma linhagem de sangue com um poder perigoso. Nosso sangue tem a capacidade de curar, de regenerar, mas cada gota doada para outro é uma gota a menos da nossa própria vida, um passo mais perto do fim.
Por isso, meu casamento com Lucas Pereira foi um contrato, antes de ser uma história de amor. Ele, o herdeiro de um império empresarial, estava preso a uma cadeira de rodas por uma doença degenerativa que consumia seus nervos. Eu, a designer de moda com um coração frágil, tinha a única cura possível correndo em minhas veias. O acordo era claro: eu o curaria, e a família Pereira usaria sua vasta fortuna para garantir que eu tivesse o melhor tratamento médico do mundo pelo resto da minha vida.
Mas eu me apaixonei. Apaixonei-me pelo homem vulnerável na cadeira de rodas, por suas promessas de um futuro juntos, por seus olhos que me viam como uma salvadora. E por amor, eu me entreguei a uma terapia experimental brutal. Não era uma simples transfusão. Era um processo exaustivo que me conectava a ele, drenando minha energia vital, meu sangue precioso, para reconstruir seus nervos danificados.
Durante meses, passei noites em claro, conectada a máquinas, sentindo meu corpo enfraquecer enquanto o dele se fortalecia. O único jeito de suportar a dor e o esgotamento era criar. Em meio à exaustão, eu desenhava. Cada protótipo da minha nova coleção de moda nasceu nessas sessões de sacrifício. Cada costura, cada tecido, cada linha era um registro da minha dor, da minha esperança e da cura de Lucas. Eles não eram apenas roupas, eram meus filhos, nascidos do meu sofrimento e do meu amor.
E o milagre aconteceu. Lucas voltou a andar. A primeira vez que ele se levantou da cadeira de rodas e caminhou em minha direção, chorei de alívio e felicidade. Ele estava curado. Nosso futuro, nosso amor, parecia garantido. Mas com a saúde, veio uma mudança fria em seus olhos. O homem vulnerável que eu amava desapareceu, substituído por um empresário arrogante e distante. Ele passava cada vez mais tempo com sua irmã adotiva, Mariana.
Mariana sempre me olhou com uma inveja que ela mal disfarçava. Ela via como Lucas me idolatrava durante sua doença e odiava. Agora que ele estava curado, ela viu sua chance.
O conflito explodiu por uma ninharia. Certo dia, entrei no meu ateliê e encontrei Mariana mexendo nos meus protótipos com descaso, um copo de vinho na mão, prestes a derramar sobre um vestido que me custou noites de febre para terminar.
"Mariana, por favor, tenha cuidado," eu pedi, minha voz tensa. "Essas peças são muito importantes para mim."
Ela riu.
"São só uns panos, Sofia. Relaxe."
Naquele momento, Lucas entrou. Ele viu a cena, viu a preocupação no meu rosto e o desdém no de Mariana. Eu esperava que ele a repreendesse, que defendesse o fruto do meu sacrifício.
Em vez disso, ele se virou para mim, o rosto uma máscara de fúria.
"Qual é o seu problema, Sofia? Você não pode simplesmente deixar as pessoas em paz? Essa sua possessividade é doentia. Você sempre teve ciúmes da minha relação com a minha irmã!"
Fiquei sem palavras. O chão pareceu sumir sob meus pés.
"Lucas... eu só..."
"Eu não quero mais ouvir," ele me cortou, sua voz gelada. "Estou farto do seu drama. Acabou. Pegue suas coisas e saia da minha casa."
Um mês depois, um convite chegou. Um envelope caro, com o brasão da família Pereira. Uma festa de gala para celebrar a "milagrosa recuperação" de Lucas. Meu primeiro instinto foi rasgá-lo, mas uma parte de mim, uma parte tola e esperançosa, acreditava que aquilo poderia ser um pedido de desculpas, uma chance de consertar as coisas. Eu estava errada. Fui atraída para o centro do inferno, onde a obra da minha vida, o símbolo do meu amor e sacrifício, seria usada como a arma para a minha humilhação pública.
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