
O Preço da Cura Fatal
Capítulo 3
O salão de festas da mansão Pereira estava deslumbrante, todo em ouro e cristal. Mas o ar era pesado, carregado de olhares maliciosos e sussurros. Assim que entrei, todas as conversas pararam. Lucas estava no centro do salão, de pé, forte e saudável. Mariana estava pendurada em seu braço, sorrindo como uma gata que acabara de engolir um pássaro.
Lucas ergueu uma taça de champanhe, seu olhar encontrando o meu com uma crueldade deliberada.
"Amigos, família," ele começou, sua voz ressoando pelo silêncio. "Obrigado por virem celebrar a minha recuperação. Uma recuperação que, segundo alguns, eu devo à minha... ex-esposa, Sofia."
Ele cuspiu meu nome como se fosse veneno.
"Sofia, a grande designer, a mártir. Ela afirma que sua última coleção é a prova viva do seu sacrifício. Mas eu me pergunto, será que ela realmente se lembra do seu próprio trabalho? Ou será que tudo não passa de uma grande encenação?"
Meu coração começou a bater descontroladamente no peito. O que ele estava fazendo?
Então, as luzes diminuíram e um holofote se acendeu em uma passarela improvisada. Lucas sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos frios e mortos.
"Hoje à noite, vamos jogar um jogo. Um jogo para testar a memória e o talento da nossa querida Sofia. Minha irmã, Mariana, selecionou cem protótipos de designers genéricos, e entre eles, misturamos os dez protótipos originais de Sofia. A tarefa dela é simples: identificar os seus 'filhos'."
A palavra "filhos" saiu de sua boca com um sarcasmo cortante. O ar saiu dos meus pulmões. Não. Ele não podia estar fazendo isso.
"Para cada erro que Sofia cometer," Lucas continuou, o sorriso se alargando, "um de seus preciosos protótipos originais será publicamente destruído. E como um prêmio de consolação para mim, por ter que aturar tanto drama, Mariana ganhará um novo item de luxo. Uma bolsa, um par de sapatos, uma joia... algo para alegrar a noite dela."
Mariana riu, um som agudo e vitorioso. O público murmurou, alguns chocados, outros excitados pela crueldade do espetáculo.
Senti uma dor aguda no peito, a familiar pontada da minha condição cardíaca, exacerbada pelo choque e pela humilhação. Levei a mão ao coração, tentando respirar fundo. As memórias das noites de agonia voltaram com força total: o zumbido das máquinas, a sensação de fraqueza, a febre, e a única coisa que me mantinha sã – desenhar, criar aquelas peças. Cada uma delas continha meu suor, minhas lágrimas, meu sangue.
Tentei buscar ajuda. Vi um dos seguranças da família perto da porta e dei um passo em sua direção, meu celular na mão para ligar para meu pai, que era médico.
"Por favor, eu preciso..."
Antes que eu pudesse terminar, dois homens enormes, os seguranças pessoais de Lucas, se puseram na minha frente, bloqueando meu caminho. Um deles pegou meu celular da minha mão com uma delicadeza assustadora.
"A senhora não vai a lugar nenhum," disse ele, a voz baixa e sem emoção.
Eu estava presa. Uma prisioneira em minha própria festa de humilhação. O pânico começou a subir pela minha garganta.
Lucas se aproximou, seu rosto a centímetros do meu.
"Não seja estraga-prazeres, Sofia," ele sussurrou, o hálito de champanhe quente no meu rosto. "É a sua única chance de salvar alguma coisa do seu trabalho. Jogue o jogo. Mostre a todos o seu grande talento. A menos que você prefira que eu destrua todos eles agora mesmo, sem nem te dar uma chance."
Era uma chantagem cruel, disfarçada de escolha. Olhei para a plateia, para os rostos curiosos e sedentos por drama. Olhei para Mariana, cujo rosto brilhava de prazer sádico. Olhei para os meus protótipos, enfileirados em um canto, esperando seu destino. Eu não tinha escolha. Tinha que jogar.
"Tudo bem," murmurei, a voz um fio. "Eu jogo."
"Excelente!" Lucas exclamou, voltando-se para a multidão. "Que comece o jogo! Tragam a primeira modelo!"
A música começou a tocar, alta e pulsante. Uma modelo alta e magra entrou na passarela, usando um vestido simples, de corte reto.
"Dez segundos, Sofia," Lucas anunciou. "É seu ou não?"
O relógio começou a contar na minha cabeça. Dez. Nove. Olhei para o vestido. O corte era básico, o tecido parecia barato. Mas e se fosse um truque? E se fosse uma das minhas primeiras ideias, um rascunho inicial? Oito. Sete. A pressão era imensa. Minha visão ficou turva. Seis. Cinco. Lembrei-me de um esboço parecido, que rabisquei em uma noite de febre. Quatro. Três.
"É meu," eu disse, a voz trêmula.
Lucas sorriu.
"Errado."
Ele estalou os dedos. Um segurança trouxe um dos meus vestidos, uma peça de seda azul que eu havia bordado à mão por mais de cinquenta horas. Ele entregou uma tesoura grande e afiada a Mariana.
Com um sorriso triunfante, Mariana se aproximou do vestido. O som do metal cortando a seda delicada foi o som mais alto que eu já ouvi. Ela rasgou o tecido de cima a baixo, destruindo o bordado, transformando minha criação em trapos.
Um grito mudo ficou preso na minha garganta. Meu primeiro filho estava morto.
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