
O Preço da Crueldade Dele
Capítulo 3
A razão pela qual eu chamo Gabriel de "tio" é puramente por uma questão de formalidade familiar.
Meus pais morreram em um acidente de carro quando eu era muito jovem, e fui criada pelos meus avós. A família Mendes era amiga de longa data dos meus avós. Gabriel era o filho mais novo da família Mendes, alguns anos mais velho que eu.
Por causa da proximidade das famílias, meus avós me pediram para chamá-lo de "tio Gabriel" como sinal de respeito.
Ele sempre foi uma figura distante e impressionante. Mesmo quando eu era adolescente, ele já era um jovem empresário de sucesso no ramo da saúde, frio, calculista e incrivelmente bonito.
Eu o observava de longe, minha admiração juvenil se transformando secretamente em algo mais profundo, algo que eu mal ousava admitir para mim mesma.
Escrevi tudo no meu diário. Meus sentimentos, minhas esperanças, minhas fantasias sobre um futuro que nunca poderia acontecer.
Era meu único confidente.
Até o dia do meu aniversário de 22 anos.
Eu não sei como ele encontrou meu diário. Talvez uma empregada o tenha achado e entregado a ele. Talvez ele mesmo o tenha encontrado.
A lembrança daquele dia ainda era nítida.
Ele me confrontou em seu escritório, o diário aberto sobre a mesa de mogno. Seu rosto, normalmente impassível, estava contorcido em uma máscara de nojo e fúria.
"O que é isso, Lívia?"
Ele jogou o diário na minha direção. As páginas se espalharam pelo chão, expondo minhas palavras mais íntimas.
"Você tem noção da doença que é isso? Eu sou seu tio!"
"Você não é meu tio de verdade!", gritei de volta, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Não temos laços de sangue!"
"Isso não faz a menor diferença!", ele rugiu, sua voz ecoando pela sala. "É nojento. Inaceitável."
Ele pegou uma página do chão e a rasgou na minha frente. Depois outra. E mais outra.
Eu assisti, paralisada de horror e humilhação, enquanto ele destruía meu coração, pedaço por pedaço.
Naquela mesma semana, fui colocada em um avião. Ele cuidou de tudo. Passaporte, visto, uma matrícula em uma universidade qualquer no exterior. Meus avós, idosos e influenciados pelo poder dele, concordaram que era o melhor para mim, para "esquecer essas ideias absurdas".
Fui exilada. Minhas contas foram congeladas, exceto por uma mesada controlada por ele. Minhas ligações eram monitoradas. Eu estava em uma prisão dourada, a milhares de quilômetros de casa.
Um mês depois, vi a notícia em um site de fofocas brasileiro que um amigo me enviou.
"Dr. Gabriel Mendes, o magnata da saúde, anuncia casamento com a socialite Beatriz Castro."
A foto mostrava os dois sorrindo, ele com seu ar sério de sempre, ela se agarrando ao braço dele, radiante. A legenda falava de um amor de infância que finalmente se concretizava.
Naquele momento, eu entendi tudo.
O nojo, a fúria... não era apenas pela minha paixão "indevida". Era para me afastar, para limpar o caminho para o casamento dele com a mulher que ele realmente queria.
Eu era apenas um inconveniente, uma mancha em sua vida perfeita que precisava ser apagada.
A dor foi tão avassaladora que me partiu.
O carro parou em frente a um hotel luxuoso, um dos mais caros da cidade. O motorista abriu a porta para mim.
"Chegamos, Senhorita Silva. O Dr. Mendes reservou a suíte presidencial para a senhorita e... a criança."
Peguei Isabel no colo, que tinha adormecido novamente, e saí do carro.
No lobby, um grande banner chamava a atenção: "Feliz 5º Aniversário de Casamento, Gabriel & Beatriz".
Meu sangue gelou.
Ele não me trouxe aqui para me hospedar.
Ele me trouxe aqui para me forçar a testemunhar a felicidade dele. Para me lembrar, mais uma vez, do meu lugar.
Para me mostrar o que eu nunca poderia ter.
A crueldade dele não tinha limites. Respirei fundo, endireitei as costas e caminhei em direção ao balcão de check-in, meu rosto uma máscara de indiferença.
Ele queria um show?
Eu daria a ele um show. Mas não o que ele esperava.
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