Capa do romance Minha Senhora

Minha Senhora

7.9 / 10.0
Traído no passado, Heitor Jiang abandonou a fé no amor. Sua vida muda quando uma misteriosa mulher salva seu filho, Demian, perdendo a memória no processo. Agora, ele deve proteger essa desconhecida dotada de habilidades letais, que desperta no pequeno órfão um afeto inédito. Entre conspirações e combates, o viúvo amargurado precisa decidir se desvenda o passado dela ou se entrega a esse novo sentimento que surge em meio ao perigo constante.

Minha Senhora Capítulo 1

O carro parou lentamente, um homem saiu com passos firmes e expressão carrancuda, ele usava roupas casuais e segurava um celular em uma das mãos. Entrou numa espécie de galpão abandonado, parecia longe de tudo. Um outro homem o acompanhou.

Do porta-malas do carro, uma mulher os observava, calma e silenciosamente; ela deixou o veículo e se aproximou do galpão. Agachada na parte detrás do recinto, pela fresta das tábuas, contemplou do lado de dentro um grupo de homens conversando, havia vários malotes escuros no meio e aqueles homens pareciam discordar sobre algo.

Quando direcionou os olhos um pouco mais para o lado, a mulher viu no chão o que parecia ser uma criança, deitada, com seus pés e mãos amarrados e um tecido envolta da sua boca.

"Pobre criança! Quem ousa fazer isso com um garotinho?", pensou a mulher com tristeza interna.

Então um segundo carro chegou, era um veículo de luxo e a pessoa que saiu dele era outra mulher com roupas finas e elegantes, sua maquiagem requintada; logo os homens saíram para recebê-la, parecia que ela estava-os ordenando. Eles pegaram dois dos malotes e colocaram no carro da mulher e mais dois malotes no primeiro carro, enquanto um malote ficou no galpão.

A mulher de aparência delicada sorriu, entrou no seu carro de luxo e saiu devagar.

O homem que a acompanhava também deu uma ordem e saiu no seu automóvel escuro. Ficou apenas os capangas e aquela pobre criança.

"Preciso fazer alguma coisa", pensou a mulher agachada atrás do galpão. De madeira alguma deixaria algo acontecer àquela criança indefesa. A mulher passou a mão no bolso para pegar seu celular com a intenção de pedir ajuda, porém, percebeu que não trazia celular consigo. Sua bolsa, suas coisas "Ai meu Deus! Ficou no trem!", também sua arma. Agora ela tinha que agir sozinha, precisava ser cautelosa para não pôr em risco a vida do menino.

A desconhecida contou o número de capangas, "são cinco no total, não são muitos, mas estão armados. Um ataque surpresa seria mais adequado, porém perigoso". A criança estava gemendo, tremendo naquele chão frio e escuro. "Eu tenho que agir agora ou será tarde demais".

Aqueles homens saíram para frente do galpão, apenas um ficou vigiando a criança. Era a oportunidade perfeita que a mulher esperava. Ao empurrar a velha tábua foi fácil abrir um espaço na parede do casarão. Ela, com movimentos hábeis, se arrastou para dentro do galpão de modo furtivo. O capanga que estava sentado de costas para ela, mas de frente para a criança, não percebeu o que acontecia.

Quando o garoto abriu os olhos, viu, atrás de seu algoz, uma silhueta esguia a qual fez-lhe um sinal de silêncio. O golpe foi certeiro e silencioso, o homem foi ao chão amortecido pelas mãos da mulher, que pegou sua arma e foi até a criança; então desamarrou os pés e as mãos e removeu as ataduras da boca do menino.

"Quem é você?", indagou o garoto bem baixinho. Sua salvadora pareceu ignorar o inquérito, em seguida lhe direcionou outra pergunta:

"Você tá machucado, garoto?"

"Acho que não, só estou com frio", respondeu. A mulher verificou a temperatura da criança e percebeu que, de fato, estava febril.

"Tenho que tirar você daqui, venha!"

Num instante, a mulher pegou a criança nos braços e saiu cautelosa pela mesma abertura que entrou. Ela teria de ser rápida. Do lado de fora havia apenas um carro estacionado naquele fim de mundo. A desconhecida analisou a situação, havia agora só quatro sujeitos, todos armados. Para salvar-se a si mesma e o garoto precisava desarmá-los e tomar o carro. "Pobre de mim", resmungou em seu íntimo.

"Muito bem!", começou firme. "Garoto, qual é o seu nome?"

"Demian Jiang", respondeu o menino com segurança em sua voz.

"Ótimo, é um bonito nome. Agora escuta, Demian, temos que sair, então fique aqui e faça o que eu digo, okay?".

Assentiu o garoto, seus orbes analisavam aquela senhorita desconhecida de maneira minuciosa. Ela parecia não estar com medo, o que passou uma sensação de segurança ao menino o qual, após ouvir com atenção o plano da mulher, estava bastante confiante.

Bom, ele não tinha outra escolha. Só aquela mulher estava ali com ele, disposta a enfrentar tantos bandidos para salvá-lo.

Será a Mulher Maravilha? Demian pensou com seus botões. Nem seu pai, o seu super herói, apareceu. Ele nunca confiou nas mulheres, agora tinha suas esperanças depositadas contra sua vontade numa desconhecida que nem disse a ele o seu nome.

A mulher caminhou furtiva pela lateral do antigo estabelecimento, semelhante a um ladrão que invade uma residência isolada na calada da noite. Logo uma luta sangrenta foi travada, quando a senhorita heroica se depara com os capangas que estavam por lá.

Demian, de longe, pôde ver quão habilidosa era aquela mulher em lutar; seus movimentos precisos como os de um guerreiro, regrados como os de um monge taoísta. Ela derrubou todos os homens apenas com suas artes marciais. Um tiro foi ouvido, depois mais tiros..., os caras ficaram no chão feridos.

Quase que num salto, a senhorita entrou no carro; fez uma ligação direta, pois não tinha tempo a perder procurando as chaves. Demian sabia que aquele era o momento, então correu para entrar no veículo. O carro deu partida e deixou o lugar numa arrancada feroz, as marcas escuras dos pneus ficaram tatuadas no chão. Mais tiros foram ouvidos, porém, nenhum dos fugitivos foram atingidos.

Em algum lugar da cidade C, escondido entre um amontoado de prédios espelhados por colunas de vidraças incrustadas em suas silhuetas de concreto, um celular foi ouvido.

"Mestre, a criança escapou!", uma voz mecânica, quase estridente, chiou por trás do aparelho.

"O quê?", bufou o homem com o rosto obscurecido por uma camada de sombras. Inconscientes, as pontas dos dedos espremiam a beirada da mesa. "Como uma criança de cinco anos pode fugir de um grupo de homens adultos?!". A pessoa do outro lado da linha respondeu:

"Uma mulher louca chegou batendo e atirando na gente e levou o menino".

"Uma mulher? Sério? Isso é vergonhoso". Sua palma quase golpeou a mesa quando ingeriu a notícia.

"Não é uma mulher comum. Essa mulher deve ter algum tipo de treinamento especial pela forma que nos abordou".

"Basta!", gritou, "eu vou resolver isso". Assim que desligou o telefone, ele deu ordem ao seu assistente. "Reúna todos os seus homens, precisamos localizar a criança e a mulher. Vivos ou mortos, de preferência mortos. A nossa chefe quer que a criança morra e é isso que vamos fazer. Você me ouviu?" Ordenou, em seus olhos nadava a mais pura crueldade.

"Sim, senhor".

Logo houve uma agitação na cidade. Pessoas olhavam assustadas o ror de veículos que aceleravam seus pneus pelas ruas, algo perigoso se desenrolava naquele dia. Muitos carros com homens encapuzados circulavam pela cidade. Também havia homens preto em automóveis escuros a perseguir os primeiros carros. A polícia também foi acionada e já chegava às ruas, era um burburinho de faróis, luzes e sirenes.

No topo de uma torre de noventa e nove andares, um homem estava parado, rigidamente posto de pé frente a uma janela de vidro, uma aura terrificante emanava de seu corpo. Seu rosto banhado de sombras era frio, porém omitia no oculto de sua alma uma dor e preocupação velada.

Seu filho de cinco anos havia sido sequestrado há seis dias. Seis dias sem ver a criança parecia uma eternidade. Não havia notícias, ele já havia pagado os dois bilhões do resgate. No entanto, até então nada, nenhuma ação positiva da parte dos sequestradores. Seu coração temia o pior.

Seus melhores homens já haviam virado a cidade de pernas para o ar, e nada. Havia uma sensação de culpa e impotência se apoderando dele. Ele precisava fazer alguma coisa. De repente o telefone tocou.

Algo foi relatado. Algo que o fez pegar sua arma e sair às pressas da torre. Um Rolls-Royce Sweptail, parado obedientemente no estacionamento, já o esperava com alguns seguranças. Numa arrancada furiosa a lateria escura do veículo desapareceu na noite.

"Senhor Heitor, vamos para a estrada D; houve um tiroteio, parece que uma criança foi vista com uma mulher".

"Uma mulher?", indagou o homem com uma carranca visível.

"Sim, parece que há uma perseguição em resenha. A mulher está no prédio da antiga escola naval, a mulher está protegendo a criança, mas são muitos os peões, a polícia já foi para lá", disse Marcos, seu pé afundava cada vez mais no acelerador.

"Então seja rápido!", ordenou Heitor. Era óbvia a sua preocupação, mas ainda assim demonstrava uma calma mesclada a uma frieza estranha.

No antigo prédio de uma Escola Naval, cercado por viaturas, a situação era delicada. Tudo se desenrolava numa agitação fatal. Ouvia-se muitos tiros e ruídos, gritos e palavrões. Um grupo de homens armados, cercados por um ar perigoso, perseguia a moça a qual segurava a criança em suas mãos lhe dando proteção com o próprio corpo.

Naquela agitação, a sirene da polícia era ouvida e as luzes coloridas dos camburões refletia no escuro do ambiente estraçalhado por tiros ensurdecedores.

Num instante a polícia invadiu o local, mais tiros foram ouvidos. Sem dúvidas o conflito era sangrento, havia alguns homens estirados pelo chão, fossem mortos ou nocauteados.

Logo o carro chegou ao local.

Heitor desceu às pressas, ao se deparar com aquela cena digna de guerra, de repente parecia que uma geleira percorria suas veias, e não sangue. Ele teve um mal pressentimento, antes de seu cérebro pensar com mais clareza, seu corpo já invadia o local. Ninguém ousou pará-lo. Quem iria detê-lo? Era a vida do seu filho que estava em jogo.

Com passadas rápidas chegou ao último andar. Ele puxou sua arma a caminho, ao estar lá, contemplou a seguinte cena: Uma mulher envolvida numa luta acirrada com vários homens. Ele não viu o menino de primeira, e a mulher não percebeu a sua presença. Ela era como um deus marcial, violento e implacável; semelhante a uma fera indomável.

Um dos homens deixou a luta e se aproximou da sacada, local no qual a criança estava escondida apenas a ouvir os barulhos dos golpes e os gemidos de dor provenientes da batalha. A desconhecida percebeu, como se tivesse olhos atrás da cabeça, e o seguiu.

Vários tiros foram disparados. Aqueles homens que estavam lutando com ela foram mortos pelo pai da criança sem piedade.

Embora ouvisse com clareza os disparos atrás de si, a mulher não teve tempo de olhar o que ocorria. Contato que os tiros não a atingissem, estava, até então, de bom tamanho. Ela precisava impedir o assassino de se aproximar da criança. Foi isso que ela fez.

Para não desperdiçar a oportunidade, sem perda de tempo, o sujeito mirou a arma para o garotinho encurralado no canto da sacada do edifício. Num impulso instintivo, a senhorita desconhecida lançou seu próprio corpo em direção a arma para proteger o menino. Dois tiros soaram no estreito do local.

Como resultado dos disparos, duas silhuetas caíram: o homem e a mulher; esta última teve seu corpo estirado frente aos olhos da criança, sua cabeça bateu num pedaço de concreto. Ela apenas sentiu uma dor na lateral de sua cabeça antes de apagar.

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