
O Preço da Conquista
Capítulo 2
Na véspera do lançamento do aplicativo "SoulLink", o ar no escritório parecia vibrar com eletricidade, e Sofia sentia cada partícula dessa energia em sua pele. Sete anos, ela pensou, um sorriso discreto tocando seus lábios enquanto olhava para o CEO carismático, Daniel, que discursava para a equipe. Sete anos de sua vida, codificando, projetando e sonhando, não apenas com o sucesso do aplicativo de relacionamento que criara, mas com o homem que o inspirara. Para ela, o SoulLink não era apenas um negócio, era a materialização de seu amor por ele, um sistema complexo projetado para uma única "conquista": o coração de Daniel. Ela acreditava que, com o lançamento, ele finalmente veria seu valor, seu talento, e talvez, o amor que ela dedicou a cada linha de código. A contagem regressiva em seu monitor pessoal, a que só ela tinha acesso, mostrava que a conquista estava em 99%. Faltava apenas um passo.
A porta do seu pequeno laboratório se abriu com um estrondo, e a figura imponente de Daniel preencheu o espaço. Seu sorriso, que antes aquecia salas inteiras, agora era gelado. Ele jogou um tablet na mesa dela, a tela exibindo a interface secreta do sistema de "conquista", a mesma que ela olhava há poucos minutos. "O que é isso, Sofia?", ele perguntou, a voz baixa e perigosa, cortando o silêncio. O sangue de Sofia gelou, o pânico subindo por sua garganta. Ela não conseguia formular uma palavra. Ele viu tudo, a barra de progresso, o nome dele como alvo principal. "Sete anos", ele continuou, rindo sem humor, "eu pensei que você era uma desenvolvedora genial, leal. Mas você é apenas uma perseguidora doente, que me transformou em um prêmio no seu joguinho particular". Sofia tentou explicar, dizer que era sua forma de mostrar dedicação, um amor desesperado, mas as palavras não saíam. "Você está despedida", ele declarou, cada palavra um golpe. "O aplicativo será lançado amanhã, mas não por você. Lívia, a filha do Senador Almeida, será a nova co-fundadora. Ela entende de imagem, de poder. Coisas que você, obviamente, não entende". Ele se virou para sair, parando na porta. "E pode esperar, o mundo saberá que tipo de pessoa manipuladora você é". As luzes do escritório, que antes pareciam promissoras, agora a sufocavam, e a humilhação pública que se seguiu foi avassaladora, com a imprensa a pintando como uma fraude oportunista.
Desolada, Sofia se viu em um bar escuro, o mundo desmoronando ao seu redor, quando uma figura se sentou ao seu lado. Era Marcos, o famoso investidor anjo, um homem cuja reputação era quase mítica no mundo da tecnologia. Ela o conhecia de vista, de eventos da indústria, mas nunca haviam conversado. "Ouvi o que aconteceu", ele disse com uma voz suave e cheia de simpatia. "Daniel é um tolo. O que ele fez com você foi desprezível". Para provar seu ponto, Marcos fez algo impensável. Nos dias seguintes, ele orquestrou uma falência espetacular, sacrificando publicamente grande parte de sua fortuna e abalando o mercado. A notícia estava em todos os lugares, e ele foi aclamado por alguns como um mártir e ridicularizado por outros como um fracassado. Ele a encontrou novamente, parecendo tão perdido quanto ela. "Eu fiz isso por você, Sofia", ele confessou, os olhos fixos nos dela. "Para mostrar que acredito em você, não no poder ou no dinheiro. Eu perdi tudo, mas não me importo. Só me importo com você. Eu te admiro há anos. Case-se comigo. Me ajude a reconstruir tudo". O gesto grandioso, o sacrifício aparente, a confissão de amor no momento de sua maior fraqueza, comoveram Sofia profundamente. Parecia um resgate, uma redenção. Ela aceitou.
A vida com Marcos era um sonho, ele a mimava, a tratava como uma rainha, curando as feridas deixadas pela traição de Daniel. A culpa que ela sentia por ter sido a causa de sua "ruína" a fazia se dedicar a ele de corpo e alma. Ela se sentia segura, amada. Certa noite, passando pelo escritório dele, ela ouviu sua voz. Ele falava ao telefone com seu assistente, e o tom era completamente diferente daquele que usava com ela. Era frio, calculista. "Sim, o plano funcionou perfeitamente", dizia Marcos. "A falência foi um teatro caro, mas necessário. Sofia acreditou em tudo. Agora que estou 'arruinado' e casado com a culpada, Lívia pode assumir meu lugar na diretoria da empresa sem levantar suspeitas. Ninguém vai questionar a promoção da 'salvadora' da companhia". A voz continuou. "O amor? Claro que é uma farsa. Ela é apenas uma ferramenta, sua culpa a torna obediente. Continue monitorando os ativos, vamos recuperar tudo discretamente em seis meses".
O mundo de Sofia se quebrou pela segunda vez, de forma muito mais violenta. Não era amor, era manipulação. Não era um sacrifício, era um estratagema. Ela não era sua salvação, era seu bode expiatório, uma peça em um jogo que visava beneficiar a mesma mulher que a havia substituído e humilhado. A dor era insuportável, uma traição que cortava mais fundo do que a de Daniel. Ela correu para o quarto, o corpo tremendo de choque e dor. O choro não vinha, apenas um vazio gelado. Ela olhou para o nada, o rosto de Marcos, sempre tão gentil e amoroso, agora uma máscara grotesca em sua mente. Ela não podia mais viver nesse mundo de mentiras.
Com as mãos trêmulas, ela abriu seu laptop. Não o SoulLink, mas o sistema operacional por trás dele, o núcleo que só ela conhecia. Era sua criação mais fundamental, um poder que ia além de simples aplicativos. "Sistema", ela sussurrou, a voz rouca. "Solicito minha saída deste mundo". Uma interface simples apareceu na tela escura. [PEDIDO RECEBIDO. A SAÍDA SERÁ CONCEDIDA. TEMPO RESTANTE: 7 DIAS.]. Um cronômetro começou a contagem regressiva. Sete dias. Era tudo o que ela tinha para se despedir desse inferno.
Marcos entrou no quarto mais tarde, alheio à devastação que causara. Ele a abraçou, o calor de seu corpo agora repulsivo para Sofia. "Meu amor, você parece pálida. Algo errado?", ele perguntou, a preocupação em sua voz soando como o mais puro veneno. Sofia forçou um sorriso, o primeiro de muitos que ela daria nos próximos sete dias. "Apenas cansada", ela mentiu. O teatro dele continuava, mas agora, o dela também havia começado.
A notícia logo chegou: Lívia, a filha do senador, estava gravemente doente. Uma condição rara e degenerativa. E, coincidentemente, uma condição para a qual Sofia, em seus anos de pesquisa paralela, havia desenvolvido uma rara tecnologia de cura. Era um projeto pessoal, um esforço imenso que quase a levara à exaustão. Marcos, ouvindo a notícia, correu até Sofia. "Meu amor, sua tecnologia! Você pode salvar a Lívia! Por favor, pelo nosso futuro, pela nossa empresa!".
Sofia olhou para ele, o homem que a enganou, pedindo que ela sacrificasse sua obra-prima para salvar a mulher que ele amava de verdade. Ela sabia que era uma armadilha. Lívia a usaria, a incriminaria de alguma forma. Mas ela também sabia que não tinha escolha. Entregar a tecnologia era parte de seu plano de saída. Ela entregou os dados, os protótipos, tudo. E, como previsto, a armadilha se fechou. Poucos dias depois de Lívia começar o tratamento, ela sofreu uma "complicação". Sofia foi imediatamente acusada de sabotagem.
A polícia chegou à mansão de Marcos. "Sofia, você está presa por tentativa de homicídio", disse o oficial, as algemas frias se fechando em seus pulsos. Marcos assistiu a tudo, com uma expressão de dor e conflito no rosto, uma atuação perfeita para as câmeras de segurança que ele mesmo instalara. Ele prometeu que a tiraria dali, que provaria sua inocência. Mas Sofia já sabia a verdade.
Na delegacia, a humilhação foi pública e brutal. Jornalistas gritavam perguntas, flashes disparavam em seu rosto. A tortura começou no interrogatório, privação de sono, ameaças, humilhações verbais que a despojavam de sua humanidade. Ela se sentia completamente abandonada, um peão descartado. Em um momento de silêncio, ela ouviu a voz de Marcos vindo de uma sala ao lado, conversando com o senador. "Um pouco de humilhação é aceitável, Senador", dizia Marcos, a voz calma e pragmática. "Desde que Lívia fique bem e feliz, o sofrimento de Sofia é um preço pequeno a pagar. Ela vai entender... eventualmente".
Naquele momento, o coração de Sofia, que ela pensava já estar em pedaços, se transformou em pó. Ela se sentiu usada, traída em um nível que mal conseguia compreender. Mais tarde naquela noite, de volta à mansão sob fiança, enquanto Marcos dormia, ela vagou pela casa como um fantasma. Uma intuição a levou a um painel falso na parede do escritório dele. Atrás, um esconderijo secreto. O que ela encontrou lá a destruiu por completo. O pequeno cofre não continha segredos de negócios, mas sim um santuário para Lívia. Havia dezenas de retratos dela, pintados com uma devoção quase religiosa, e pilhas de cartas de amor, escritas por Marcos ao longo dos anos, detalhando seu amor eterno e seu plano para remover todos os obstáculos entre eles, incluindo Sofia. Ele nunca a amou. Ele sempre amou outra pessoa. Sofia pegou uma das cartas e a leu, as palavras de amor por Lívia queimando seus dedos. Ela olhou ao redor do escritório, para as fotos dela e de Marcos que ele insistia em manter na mesa, agora entendendo que eram apenas parte do cenário. Com uma calma assustadora, ela começou a destruir tudo que a ligava a ele, rasgando as fotos, quebrando os porta-retratos, preparando-se para o dia final. Em um evento de gala alguns dias depois, Lívia, já se recuperando, a humilhou publicamente, e Marcos a defendeu apenas para manter as aparências. Mas quando um ataque foi orquestrado contra Lívia, Marcos, sem hesitar, a puxou para a frente, usando seu corpo como escudo. A bala não a atingiu, mas a indiferença dele sim, provando sua total falta de consideração por sua vida.
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