
O Preço da Conquista
Capítulo 3
A escuridão do quarto do hospital era um alívio para os olhos de Sofia, mas não para sua mente. Ela sobreviveu ao ataque na festa de gala, mas algo dentro dela havia morrido. A imagem de Marcos a usando como um escudo humano se repetia em um loop infinito, cada repetição apagando mais um pouco de sua alma. Ela estava deitada na cama, o corpo dolorido, quando ouviu vozes do lado de fora do quarto. Era Marcos e um médico. "Ela é forte, vai se recuperar", dizia o médico. A voz de Marcos soou baixa, quase um sussurro. "Isso não importa. O que importa é que Lívia viu. Ela viu que eu a protegeria a qualquer custo. O susto de Sofia valeu a pena para provar meu amor por Lívia". A verdade, dita de forma tão crua e fria, foi como um balde de água gelada. Não havia mais espaço para ilusões, nem a menor fresta para a esperança de que houvesse algum resquício de humanidade nele. Foi um cálculo. A vida dela era uma variável em sua equação de amor por outra mulher.
Quando Marcos entrou no quarto, seu rosto estava moldado em uma máscara de preocupação. Ele se sentou ao lado da cama, pegando sua mão. "Sofia, meu amor, me perdoe. Eu entrei em pânico, não sabia o que estava fazendo". O toque dele era repulsivo. Ela puxou a mão de volta com uma força que não sabia que tinha. "Não me toque", ela disse, a voz rouca, mas firme. Ele pareceu surpreso, talvez até um pouco ferido pela rejeição. "Sofia...", ele começou, mas ela o interrompeu. "Eu ouvi você. Ouvi o que disse ao médico". O rosto dele ficou pálido. A máscara de preocupação vacilou, revelando o homem calculista por baixo. Por um instante, ela viu o verdadeiro Marcos, antes que ele recompusesse a expressão. "Você entendeu errado, estava delirando por causa dos remédios". A mentira era tão descarada que Sofia sentiu uma onda de náusea. A aversão que sentia por ele era tão física, tão palpável, que ela teve que se virar para o outro lado para não vomitar.
Assim que recebeu alta, de volta àquela mansão que agora era sua prisão, Sofia agiu. Ela foi até a estufa que construíra nos fundos da propriedade, um santuário de plantas raras e medicinais que ela cultivava com esmero. Era seu refúgio. Lá, ela encontrou as cartas de amor que havia escrito para Daniel, guardadas em uma pequena caixa de madeira. Eram cartas de uma garota ingênua e apaixonada. Com um suspiro, ela pegou a caixa e a levou para a lareira da sala de estar. Sem hesitação, jogou a caixa no fogo. As chamas consumiram as palavras de amor, o papel se contorcendo em cinzas. Era um ritual. Ela estava queimando seu passado, sua ingenuidade, a parte de si mesma que se permitiu ser tão cega.
Naquela mesma noite, uma inquietação a levou a explorar o escritório de Marcos novamente. Ela sabia que tinha visto tudo no cofre, mas algo a chamava. Ela passou os dedos pelas prateleiras de livros, pela mesa de mogno perfeitamente arrumada. E então ela viu. Um pequeno desnível no piso de madeira sob o tapete persa. Com o coração batendo forte, ela arrastou o tapete pesado e encontrou uma pequena alça de metal. Era um alçapão. Ela o abriu, revelando uma escada em espiral que descia para a escuridão. Hesitante, ela desceu. O que encontrou no final da escada a deixou sem ar. Não era um porão ou um depósito. Era uma galeria de arte secreta, e todas as pinturas, sem exceção, eram retratos de Lívia. Havia dezenas delas: Lívia sorrindo, Lívia pensativa, Lívia cavalgando, Lívia em um vestido de gala. Eram obras de arte de qualidade profissional, pintadas com uma obsessão detalhista. No centro da sala, em um cavalete, havia uma pintura inacabada, e ao lado, uma paleta de tintas frescas. Marcos era o artista. O amor dele por Lívia não era apenas uma declaração, era uma devoção artística, um segredo profundo e sombrio que ele escondia sob o chão de sua casa.
O som de passos no andar de cima a assustou. Ela subiu a escada correndo, fechando o alçapão e arrastando o tapete de volta para o lugar segundos antes de Marcos entrar no escritório. Ele a viu ali, parada no meio da sala, pálida e ofegante. "O que está fazendo aqui, querida?", ele perguntou, um tom de suspeita em sua voz. "Nada. Apenas... procurando um livro", ela mentiu, o coração martelando contra as costelas. Ele a observou por um momento, os olhos percorrendo a sala, como se procurasse algo fora do lugar. Seu olhar pousou no tapete, e por um segundo, Sofia teve certeza de que ele sabia. Mas ele relaxou e sorriu. "Deixe-me ajudá-la a encontrar". A tensão no ar era quase insuportável. Ele estava mentindo, e ela estava mentindo, e ambos sabiam disso.
Mais tarde, quando a casa estava silenciosa, Sofia voltou à lareira. Ela não tinha mais cartas para queimar, mas tinha memórias. Fotos dela com Daniel, pequenos presentes que ele lhe dera, qualquer coisa que a ligasse àquele primeiro amor tolo. Ela jogou tudo no fogo, assistindo as chamas purificadoras destruírem os vestígios de quem ela era. Era uma despedida de sua antiga identidade. A mulher que amou Daniel e depois acreditou em Marcos estava morrendo, e das cinzas, algo novo e mais duro estava nascendo.
Marcos, percebendo sua melancolia, tentou compensá-la com presentes. Chegou em casa no dia seguinte com uma caixa de veludo. Dentro, um colar de diamantes deslumbrante. "Para minha linda esposa", ele disse, tentando colocar o colar em seu pescoço. Sofia recuou. "Não quero", ela disse simplesmente. "Mas, Sofia, custou uma fortuna. É para mostrar o quanto eu me importo". "Eu não quero", ela repetiu, a voz vazia de emoção. Ela olhou para o colar, vendo apenas o preço de sua dor, o valor que ele colocava em sua vida. Era um insulto. Ela se virou e saiu da sala, deixando-o com a caixa aberta nas mãos, a expressão de confusão e frustração em seu rosto.
Alguns dias depois, Sofia decidiu sair de casa, precisava de ar. Caminhando sem rumo pelo centro da cidade, ela se sentiu um pouco mais leve, longe da atmosfera sufocante da mansão. Ela parou em frente a uma livraria, pensando em entrar, quando um carro de luxo parou bruscamente no meio-fio. A porta se abriu e Lívia saiu, olhando diretamente para ela com um sorriso cruel. Sofia sentiu um calafrio. Não foi um encontro casual.
Sofia se virou para ir embora, mas seu braço foi agarrado com força. Não por Lívia, mas por um de seus seguranças. "Aonde você pensa que vai?", Lívia disse, aproximando-se. "Eu quero conversar com você". O aperto em seu braço era doloroso. Sofia tropeçou e caiu, o joelho batendo com força no concreto áspero. Uma dor aguda subiu por sua perna.
Lívia se agachou ao lado dela, o rosto a centímetros do seu. "Você é tão patética", ela zombou, a voz um veneno doce. "Sempre caindo, sempre sendo pisada. Sabe, Marcos me contou tudo sobre o seu 'sistema de conquista'. Que ideia ridícula. Achar que poderia prender um homem como Daniel com tecnologia. E agora, você acha que pode prender Marcos também? Ele só está com você por pena. E porque eu permito". Cada palavra era um golpe calculado. Sofia olhou para o rosto perfeito de Lívia, vendo o puro prazer que ela sentia em infligir dor. E soube, naquele momento, que o que estava por vir seria muito pior do que qualquer coisa que já havia enfrentado.
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