
O Preço da Autenticidade
Capítulo 3
O cheiro do perfume caro de Pedro ainda pairava no ar do apartamento dele. Maria estava arrumando algumas roupas que ele havia deixado jogadas na cadeira, um hábito que antes ela achava charmoso, mas que agora apenas a irritava. Foi então que ela viu. Na gaveta da mesa de cabeceira, que estava ligeiramente aberta, havia uma pequena caixa de veludo azul.
Seu coração deu um salto. Ela sabia o que aquelas caixas geralmente continham. Por um momento, uma onda de esperança tola a invadiu. Seria possível que ele estivesse planejando…
Com as mãos trêmulas, ela pegou a caixa. Era da Tiffany & Co. O peso parecia confirmar suas esperanças. Ela a abriu. Dentro, um anel de noivado deslumbrante brilhava sob a luz fraca do abajur. Um diamante enorme, cercado por outros menores. Era o tipo de anel que aparecia em revistas, o tipo de anel que custava mais do que ela ganhava em dez anos como secretária.
Mas a esperança morreu tão rápido quanto nasceu. Algo estava errado. O tamanho. Ela esticou o dedo anelar. Aquele anel nunca caberia nela. Era pelo menos dois números maior. E então, o frio na espinha voltou, mais intenso do que nunca. Aquele anel não era para ela.
Com uma sensação de pavor, ela começou a procurar mais. No fundo da mesma gaveta, debaixo de alguns papéis, ela encontrou um convite. Impresso em papel grosso e elegante, com letras douradas.
"A família Mendes e a família Almeida têm a honra de convidá-los para o noivado de seus filhos, Pedro Mendes e Ana Lúcia Almeida."
A data era para dali a três semanas. O nome "Ana Lúcia Almeida" a atingiu como um soco. Filha de um dos maiores industriais do país, uma família cuja riqueza faria a fortuna em declínio dos Mendes parecer uma piada. Era um casamento arranjado. Uma fusão de negócios. E ela, Maria, era a amante secreta, a garota pobre e ingênua que não significava nada.
Ela se sentou na beira da cama, o corpo todo tremendo. A traição era tão completa, tão calculada, que ela mal conseguia respirar. Cada "eu te amo" , cada promessa, cada momento que passaram juntos, tudo era uma mentira. Ele não a mantinha em segredo para protegê-la de seus amigos esnobes. Ele a mantinha em segredo porque ela não se encaixava em seus planos. Ela era a diversão; Ana Lúcia era o futuro.
Naquela noite, eles tinham outro evento social, um coquetel na casa de um dos sócios do pai de Pedro. Maria não queria ir, mas sabia que precisava. Precisava olhar para ele e ver se conseguia enxergar o mentiroso por trás da máscara.
Ela se arrumou em silêncio, escolhendo um vestido preto simples. Quando Pedro chegou para buscá-la, ele sorriu e a elogiou. "Você está linda, meu amor. A mais linda de todas."
Aquelas palavras, que antes a faziam flutuar, agora soavam ocas e nojentas.
No coquetel, a cena se repetiu. Os amigos de Pedro, o mesmo círculo de sempre, a cercaram.
"Maria, querida, que bom te ver de novo," disse Carla, com um sorriso falso. "Ainda firme e forte no seu emprego? Admiro sua… perseverança."
Maria apenas sorriu de volta, um sorriso gelado que não alcançava seus olhos. Ela olhou para Pedro, esperando, implorando com o olhar para que ele dissesse algo, qualquer coisa.
Ele apenas colocou um braço ao redor de sua cintura e disse, de forma casual: "Deixem a Maria em paz, pessoal. Ela é ótima no que faz."
Uma defesa fraca, quase um pedido de desculpas por ela existir. Era uma manutenção de fachada, nada mais. Ele a estava apaziguando, como se acalma uma criança, enquanto seu verdadeiro prêmio estava sendo preparado em outro lugar. A hipocrisia dele era sufocante.
Mais tarde, no carro, a caminho de casa, o silêncio era denso. Maria não aguentou mais.
"Pedro, o que nós somos?" ela perguntou, a voz baixa e controlada.
Ele pareceu surpreso com a pergunta. "Como assim, meu amor? Nós somos nós. Estamos juntos."
"Estamos? Porque às vezes eu sinto que sou um segredo. Seus amigos me tratam como se eu fosse descartável, e você… você não faz nada."
Ele suspirou, um som de puro cansaço. "Maria, você sabe como eles são. É o mundo deles. Eles não entendem alguém como você. Pura, simples, real. É por isso que eu te amo. Você é meu refúgio longe de toda essa falsidade."
A ironia era tão amarga que ela quase riu. Ele, o mestre da falsidade, a chamando de seu refúgio. Ele usava a suposta simplicidade dela como uma arma contra ela mesma, fazendo-a acreditar que o problema era o mundo, e não ele.
Naquele momento, olhando para o perfil dele iluminado pelas luzes da rua, a imagem que ela tinha construído de Pedro Mendes se desfez em mil pedaços. Não havia amor ali. Havia apenas conveniência e engano. A dor em seu peito era real, uma dor aguda de um coração partido. Mas por baixo da dor, algo novo começava a crescer. Uma raiva fria e uma determinação de aço. Ele a subestimou. Todos eles a subestimaram. E eles iriam se arrepender. A fantasia havia acabado. Era hora de acordar.
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