
O Preço da Amante Dele de Dezenove Anos
Capítulo 3
Ponto de Vista de Emília Porto:
Na manhã seguinte, entrei na galeria que eu gerenciava, um lugar que tinha sido meu santuário nos últimos quatro anos, e entreguei minha demissão à minha chefe, Clara.
"Emília? O que é isso?", ela perguntou, com os olhos arregalados de choque ao pegar o envelope nítido da minha mão.
Ela sempre fora mais uma amiga do que uma chefe. Sabia sobre meu pai, sobre o transplante.
"Estou indo embora, Clara", eu disse, minha voz baixa, mas firme. "Estou saindo da cidade."
"Mas... a cirurgia do seu pai? Está tudo bem?"
Uma nova onda de dor me atingiu, mas eu a reprimi. "Ele se foi, Clara. Ele faleceu."
Seu rosto se abateu. "Oh, Emília. Sinto muito, muito mesmo." Ela contornou a mesa e me envolveu em um abraço. "E o Cristiano? Ele sabe que você está se demitindo? Ele adora o quanto você ama este lugar."
"Estamos nos divorciando", eu disse, afastando-me gentilmente. As palavras pareciam estranhas na minha língua, como um idioma que eu estava apenas aprendendo a falar.
O silêncio atordoado que se seguiu foi quebrado pelos murmúrios de simpatia dos meus colegas que ouviram. Eles se reuniram, oferecendo condolências e expressando sua incredulidade.
"Mas o Cristiano te adora", disse uma delas, uma jovem estagiária chamada Sarah. "Ele está sempre te mandando flores, te buscando naquele carro chique... Ele é o marido perfeito."
Não me dei ao trabalho de corrigi-la. Qual era o sentido? A ilusão era tudo o que eles já tinham visto.
Em silêncio, embalei os poucos itens pessoais da minha mesa em uma pequena caixa — uma foto emoldurada minha e do meu pai, uma caneca que ele me deu, uma coleção de poesias que ele amava.
Quando eu estava prestes a sair, uma comoção perto da janela da frente chamou minha atenção.
"Nossa, falando no diabo", Sarah sussurrou, apontando para fora. "Ele está aqui."
Meu corpo enrijeceu. Lá, estacionado na calçada, estava o brilho inconfundível do Porsche Cayenne preto de Cristiano.
Respirei fundo, me preparando, e saí da galeria pela última vez. Não olhei para trás.
Caminhei até o carro e abri a porta do passageiro.
A visão que me saudou foi tão grotescamente íntima que me roubou o fôlego. Íris estava encolhida no banco da frente, a cabeça aninhada no ombro de Cristiano, os olhos fechados como se estivesse dormindo. Ela era como uma gatinha, buscando calor e proteção.
O som da porta se abrindo fez os dois pularem. Os olhos de Íris se abriram e uma máscara de inocência em pânico imediatamente cobriu suas feições.
"Emília! Eu... nós estávamos apenas...", ela gaguejou, se ajeitando para sentar ereta.
"Não importa", eu disse, minha voz desprovida de emoção. Entrei no banco de trás, o couro parecendo frio e estranho.
"O que é essa caixa?", Cristiano perguntou, seus olhos passando para o recipiente de papelão no meu colo. "Faxina de primavera?"
"Eu me demiti", disse simplesmente.
Ele franziu a testa. "Por quê? Podemos conversar sobre isso mais tarde. Reservei uma mesa no D.O.M. Pedi todos os pratos restauradores favoritos do seu pai. Pensei que poderíamos levar um pouco para ele."
A menção ao meu pai, tão casual, tão totalmente alheia, foi um golpe físico. Uma raiva incandescente, seguida por uma onda gelada de luto, me atravessou. Mordi o interior da bochecha até sentir o gosto de sangue, apenas para não gritar.
Não disse nada, apenas olhei pela janela enquanto a cidade passava borrada.
No restaurante, em uma sala privada e opulenta, Cristiano era o anfitrião perfeito para a convidada errada. Ele se preocupava com Íris, colocando um guardanapo em seu colo, garantindo que seu copo de água estivesse sempre cheio, pedindo um coquetel especial sem álcool para ela.
"Você precisa recuperar suas forças", ele disse a ela, sua voz tingida de uma ternura que antes era reservada apenas para mim. "Você é uma heroína, Íris."
Ela corou, baixando os olhos. "Não é nada, Cristiano. Só estou feliz por poder ajudar."
Sentei-me em frente a eles, um fantasma invisível em seu banquete. Eu os observei, meu coração uma coisa morta e pesada no peito. Observei a maneira como seus olhos se demoravam nela, a maneira como ele ria de suas piadas bobas, a maneira como ele limpava uma migalha perdida de seus lábios com o polegar.
"Emília, você não vai comer?", Íris perguntou, sua voz tingida de uma doçura enjoativa. Ela olhou para Cristiano, depois de volta para mim, um brilho de triunfo em seus olhos. "Você está brava comigo? Porque o Cristiano está sendo tão legal?"
Olhei para ela, depois peguei meu garfo com calma. "Não", eu disse, minha voz firme. "Não estou brava. Aproveite sua refeição."
Comi em silêncio, a comida requintada com gosto de cinzas na minha boca.
No meio da refeição, o telefone de Cristiano tocou. Era uma ligação de negócios que ele precisava atender.
"Vocês duas podem ir na frente para o carro", ele disse, já distraído. "Eu desço logo em seguida."
Levantei-me, grata pela fuga. Íris me seguiu para fora da sala. Caminhamos em silêncio até o elevador.
No momento em que as portas de latão polido se fecharam, nos selando na pequena caixa espelhada, o comportamento de Íris mudou. A garota tímida e grata desapareceu, substituída por uma mulher com um sorriso de escárnio no rosto e aço nos olhos.
"Ele te acha chata, sabia?", ela disse, sua voz pingando malícia. "Ele me disse que você é como uma boneca linda e perfeita, mas uma boneca ainda é apenas uma coisa. Sem fogo. Sem paixão. Ele está cansado disso."
As palavras me atingiram, mas não demonstrei nada.
"Ele diz que você está envelhecendo", ela continuou, seus olhos me percorrendo com desprezo. "Uma flor que está começando a murchar."
De repente, o elevador deu um solavanco violento, nos desequilibrando. As luzes piscaram, depois se apagaram, nos mergulhando na escuridão absoluta.
Íris gritou, um som agudo e aterrorizado, e agarrou meu braço, suas unhas cravando na minha pele.
"Está tudo bem", eu disse, minha voz surpreendentemente calma enquanto procurava o botão de emergência. "O elevador apenas parou."
Uma voz chiada veio pelo interfone, abafada e indistinta. Eles estavam cientes do problema. Estavam enviando alguém.
Mas então, o elevador deu outro solavanco, desta vez com um gemido nauseante de metal sob tensão. Ele caiu alguns metros, depois parou com um baque brusco.
Íris começou a gritar, um som cru e primal de puro terror. "Socorro! Alguém nos ajude! Nós vamos morrer!"
Outro solavanco. Uma queda mais longa. Meu próprio coração martelava contra minhas costelas, mas minha mente estava estranhamente clara. Apoiei-me na parede, agarrando o corrimão até meus nós dos dedos ficarem brancos.
"Cristiano! Cristiano, me salve!", Íris lamentou, desabando em um monte soluçante no chão.
Então, nós ouvimos. Passos frenéticos do lado de fora. O som de gritos. E uma voz, cortando o caos, que me fez prender a respiração.
"Íris! Emília! Vocês estão aí?", era Cristiano.
"Cristiano!", Íris gritou, sua voz rouca de lágrimas. "Me ajude! Estou com tanto medo!"
A voz de um funcionário da manutenção, tensa e urgente, veio pela porta quebrada. "Senhor, o cabo principal está rompido! Pode arrebentar a qualquer segundo! Só podemos forçar a porta o suficiente para tirar uma pessoa de cada vez. O senhor tem que escolher!"
O ar no elevador tornou-se espesso, pesado, irrespirável.
Silêncio.
Eu podia ouvir a respiração ofegante de Cristiano do lado de fora da porta. Podia ouvir os soluços desesperados e entrecortados de Íris. Podia ouvir meu próprio coração, uma batida frenética contando os segundos da minha vida.
Na escuridão sufocante, esperei por sua resposta.
E então ela veio. Sua voz, desprovida de toda emoção, era fria, clara e totalmente final.
"Salve a Íris."
Meu sangue virou gelo.
As portas foram abertas com força, apenas o suficiente para uma pessoa se espremer. Vi as mãos de Cristiano entrarem, passando por mim completamente, e puxarem Íris para fora da escuridão e para seus braços. Ela se agarrou a ele, soluçando histericamente.
"Está tudo bem, amor, está tudo bem", ele murmurou, acariciando seus cabelos. "Eu te peguei."
Ele se virou para a equipe de manutenção. "Agora peguem minha esposa."
Mas enquanto eles se moviam para me ajudar, um rangido ensurdecedor de metal se rasgando encheu o ar.
O elevador despencou.
O mundo se tornou um borrão nauseante de movimento. Meu estômago subiu para a garganta. A última coisa que vi antes de tudo ficar preto foi o rosto de Cristiano, seus olhos arregalados com um lampejo de algo que não consegui nomear. A última coisa que ouvi foi meu próprio nome, gritado em uma voz que eu não reconhecia mais.
Era tarde demais. Sempre era tarde demais.
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