
O Pós-Nupcial, Sua Queda, Minha Ascensão
Capítulo 2
POV Ana:
O frio do ar da manhã parecia penetrar nos meus ossos, mesmo através do robe de caxemira. Eu estava ali, deitada, encarando o teto ornamentado do nosso quarto, aquele que João Ricardo havia projetado meticulosamente. Cada dourado, cada afresco, agora parecia uma jaula dourada. Minha cabeça latejava, uma dor surda atrás das minhas têmporas, uma manifestação física do ataque emocional que eu havia sofrido na noite anterior.
Ouvi vozes abafadas do andar de baixo. O tilintar de porcelana, o sussurro da voz de João Ricardo, muito suave, muito íntima. Era um som que antes me acalmava, mas agora só despertava uma nova onda de náusea. Késia. Ela estava aqui. Na minha casa. De novo.
Apesar da dor latejante, uma fúria fria me impulsionou para fora da cama. Vesti um pijama de seda, meus movimentos rígidos e deliberados. Meu reflexo no espelho mostrava uma estranha – pálida, abatida, com olhos que continham um vazio assombrado. Esta não era eu. Esta não era Ana Almeida.
Desci a grande escadaria, cada degrau uma descida a um pesadelo. As vozes ficaram mais claras. O murmúrio baixo de João Ricardo, os tons suaves e melódicos de Késia, pontuados por sua risada delicada. Eles pareciam um casal, confortáveis e à vontade, no meu santuário meticulosamente curado.
No momento em que entrei na sala de estar, a conversa deles morreu. João Ricardo, sentado no sofá de pelúcia, segurava uma xícara de café. Késia estava empoleirada no braço do sofá, a mão dela repousando levemente no ombro dele. Seus olhos, arregalados e inocentes, encontraram os meus. Desta vez, não havia pretensão de surpresa, apenas uma mudança sutil em seu olhar, um lampejo de algo quase triunfante.
"O que ela está fazendo aqui, João Ricardo?" Minha voz era um rosnado baixo, quase irreconhecível para meus próprios ouvidos.
João Ricardo rapidamente tirou a mão de Késia de seu ombro. Ele se levantou, sua expressão uma mistura de irritação e algo parecido com culpa. "Ana, ela só... ela veio se desculpar."
Késia deslizou do braço do sofá, seu olhar fixo no tapete persa. Ela parecia pequena, frágil, seus ombros curvados. "Sra. Almeida, eu sinto muito, muito mesmo. Eu sei que não deveria estar aqui. Eu só... eu não consegui dormir, pensando no que aconteceu ontem à noite. Eu precisava me desculpar pessoalmente." Sua voz era um sussurro suave e trêmulo, projetado para derreter qualquer raiva.
Só alimentou a minha. "Se desculpar?" Eu zombei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Seu pedido de desculpas é estar aqui? Na minha casa? Depois de passar metade da noite nos braços do meu marido, ouvindo sobre seu caso sórdido no meu carro?"
Késia ofegou, sua cabeça se erguendo bruscamente. Seus olhos estavam arregalados, cheios de choque genuíno desta vez. "No... no seu carro?"
O rosto de João Ricardo empalideceu visivelmente. Ele olhou para mim, um lampejo de medo em seus olhos. Ele sabia. Ele sabia que eu tinha ouvido.
"Tire ela daqui, João Ricardo", ordenei, minha voz tremendo de raiva contida. "Tire ela da minha casa, agora."
"Ana, por favor", começou João Ricardo, dando um passo em minha direção, sua mão estendida. "Vamos nos acalmar."
"Me acalmar?" Eu ri de novo, um som áspero e sem humor. "Você quer que eu me acalme? Com ela parada aqui, depois de tudo?"
Késia, sentindo seu momento, aproximou-se de João Ricardo, agarrando-se ao seu braço. "João Ricardo, estou com medo. Ela está com tanta raiva."
O olhar de João Ricardo suavizou ao olhá-la. Ele colocou uma mão reconfortante sobre a dela. "Késia, talvez seja melhor você ir por enquanto. Eu te ligo mais tarde."
Ela olhou para ele, seus olhos marejados. "Mas... eu não quero te deixar sozinho com ela. E se ela te culpar por tudo?"
Foi isso. Esse foi o ponto de ruptura. A pura audácia, a total desfaçatez de suas palavras. Ela não estava apenas aqui; ela estava reivindicando seu território. Ela o estava manipulando, usando sua vulnerabilidade fabricada para cravar uma cunha ainda mais profunda.
Eu avancei, um grito primal rasgando minha garganta. "Sua vadiazinha manipuladora!" Minha mão acertou sua bochecha, um tapa forte e ardido que ecoou pela sala silenciosa.
Késia gritou, tropeçando para trás. Minhas mãos estavam nela, puxando seu cabelo, uma tempestade de fúria me consumindo. Ouvi o grito de João Ricardo, senti suas mãos em meus ombros, me puxando para trás.
"Ana! Pare com isso! O que você está fazendo?!" ele rugiu, sua voz cheia de choque e indignação.
Eu lutei contra seu aperto, meu corpo tremendo de pura e inalterada raiva. "Ela merece! Ela merece tudo e mais!"
Ele puxou com mais força, sua força superando a minha. Perdi o equilíbrio, tropecei, e então ele empurrou. Um empurrão violento e deliberado. Meus pés escorregaram no mármore polido. Caí para trás, um estalo medonho ecoando quando a parte de trás da minha cabeça bateu na borda afiada da mesa de centro de mármore.
Um flash ofuscante de luz branca. Uma dor lancinante. Então, escuridão.
Quando abri os olhos, o mundo era uma confusão embaçada de tetos brancos e cheiros antissépticos. Eu estava em uma cama de hospital. Minha cabeça latejava, uma dor surda e insistente. Uma bandagem estava enrolada firmemente em minha testa.
Ouvi vozes sussurradas por perto.
"-ela é tão dramática, Helena. Você sabe como a Ana fica." Era a voz de João Ricardo. Cheia de exasperação.
"Dramática? João Ricardo, ela está em uma cama de hospital! E aquela... aquela vagabundinha sua, qual era o nome dela? Késia? Foi ela quem desmaiou!" Helena Bastos. A formidável mãe de João Ricardo. Sua voz, afiada e gélida, cortou o ar.
Tentei me sentar, uma onda de tontura me invadindo. Uma enfermeira correu. "Sra. Almeida, por favor. Você precisa descansar. Você teve uma queda bem feia."
"Onde... onde está o João Ricardo?" sussurrei, minha garganta seca.
Helena Bastos entrou no meu campo de visão, seu rosto elegante gravado com preocupação, mas também uma raiva fervente. Ela apertou minha mão, seu aperto surpreendentemente quente. "Ele está... cuidando da sua bartenderzinha, querida. Ela encenou um desmaio magnífico, aparentemente." Seu tom pingava desprezo.
Naquele momento, uma comoção irrompeu do corredor. Um grito estridente, seguido por um estrondo.
"Ela tomou pílulas, João Ricardo! Ela engoliu um frasco inteiro!" A voz de uma mulher, em pânico e sem fôlego.
Os olhos de Helena rolaram. "Ah, pelo amor de Deus. O teatro nunca acaba com essa aí." Ela apertou minha mão novamente. "Fique aqui, Ana. Eu cuido disso."
Mas João Ricardo invadiu meu quarto, seu rosto pálido de pânico. Ele nem olhou para mim. Seus olhos estavam selvagens, procurando por sua mãe. "Mãe, a Késia engoliu pílulas! Ela está tentando se machucar!"
Helena se levantou, sua postura rígida. "E você vai correr para ela, não é, João Ricardo? Deixando sua esposa com uma concussão, de novo?"
Ele se encolheu. "Ela precisa de mim, mãe! Ela é frágil!" Ele saiu correndo do quarto, seguindo os sons do caos.
Helena suspirou, um som de profunda resignação. Ela se virou para mim, sua fachada geralmente impenetrável rachando um pouco. "Ana, eu sinto muito. De verdade."
Eu apenas encarei a porta vazia por onde João Ricardo havia desaparecido. Ele me deixou. De novo. Por ela. A memória de seu empurrão, o estalo da minha cabeça contra o mármore, a dor lancinante... tudo voltou com força. Ele não se importava. Ele nunca se importou.
Uma determinação fria e dura se solidificou em meu coração. Era isso. Sem mais chances. Sem mais perdão.
"Helena", eu disse, minha voz fraca, mas firme. "Diga ao meu advogado para preparar os papéis finais do divórcio. E diga a ele... para garantir que cada cláusula daquele acordo pós-nupcial seja executada. Cada. Uma. Delas."
Os olhos de Helena se arregalaram, um lampejo de surpresa, depois um aceno lento e aprovador. "Considere feito, querida. Absolutamente feito."
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