
O Pós-Nupcial, Sua Queda, Minha Ascensão
Capítulo 3
POV Ana:
O cheiro antisséptico do quarto de hospital estava começando a parecer uma parte permanente de mim. A dor surda na minha cabeça era uma companhia constante, um lembrete da crueldade casual de João Ricardo. Eu estava ali, deitada, encarando o teto, o branco estéril uma tela para o replay de sua traição. Ele me deixou. De novo. Por uma overdose encenada. A audácia. A pura e doentia audácia.
Meu celular, milagrosamente, não havia sido danificado na queda. Eu o peguei, meus dedos rígidos. Meu feed de redes sociais, geralmente um fluxo curado de arte e eventos sociais, agora era um campo minado. Encontrei o perfil de Késia. Ela não postava desde o "incidente". Quase ri. Ela provavelmente estava se deleitando com a atenção de João Ricardo, bancando a donzela.
Então, um novo post apareceu. Uma foto. Ela, parecendo frágil, mas triunfante, em uma cama de hospital. João Ricardo estava ao seu lado, segurando sua mão, a cabeça baixa, parecendo devastado. A legenda dizia: "Obrigada por me salvar, meu amor. Não sei o que faria sem você. Meu coração é seu, sempre @JoaoRicardoB."
Minha respiração engasgou. Uma onda de náusea me invadiu. Ele ainda estava com ela. Ainda desfilando seu caso, mesmo depois de me deixar com uma concussão e sozinha. Meus dedos tremeram enquanto eu rolava mais para baixo. Havia comentários, centenas deles, de conhecidos em comum, de funcionários de João Ricardo, todos expressando simpatia por Késia, elogiando João Ricardo por sua devoção.
Então eu vi. A conta oficial de João Ricardo. Ele havia respondido ao post de Késia. "Sempre. Você significa tudo para mim, minha querida. Fique bem logo."
Minha visão embaçou. Isso não era apenas um tapa na cara; era uma declaração pública. Um endosso brutal e inequívoco de sua traição. Meu coração não parecia apenas partido; parecia pulverizado, moído em pó. A dor era tão intensa, tão sufocante, que eu não conseguia respirar. Era um peso físico no meu peito, me pressionando para baixo.
Levantei minhas mãos, olhando para elas. Estavam tremendo. O que eu estava fazendo? Por que eu estava deixando esse veneno entrar no meu sistema?
Com uma determinação súbita e feroz, toquei na tela. Deixar de seguir. Bloquear. Bloquear. Bloquear. João Ricardo. Késia. Qualquer um que comentou. Qualquer um que celebrou sua história de amor perversa. Limpei minha vida digital da toxicidade deles.
Então, fui para o aplicativo da Tesla. O ícone brilhava, uma testemunha silenciosa da minha agonia. Eu o encarei, memórias de seus grunhidos e gemidos inundando minha mente. Não. Chega. Deletei o aplicativo. Apaguei todos os vestígios. Eu não precisava mais ouvir seus casos sórdidos. Eu não precisava saber.
Senti uma estranha sensação de vazio, mas também um lampejo de algo novo. Liberdade. Uma liberdade crua e dolorosa. Era isso. O fim dos laços emocionais. Meu coração havia se transformado em pedra. Eu estava me desintoxicando emocionalmente, cortando a fonte do veneno. Era brutal, mas necessário.
Mais tarde naquela tarde, depois de assinar o que parecia uma montanha de papelada para minha alta, finalmente fui liberada para ir embora. Meu advogado já estava ocupado. Os papéis do divórcio estavam assinados, selados e prontos para serem entregues. O acordo pós-nupcial estava travado e carregado.
Enquanto eu saía do hospital, o ar fresco de São Paulo pouco fez para clarear minha cabeça. Meu motorista estava esperando, mas antes que eu pudesse chegar ao carro, um SUV preto e elegante parou com um rangido ao nosso lado. João Ricardo.
Seu rosto era uma máscara de fúria fria, seus olhos ardendo. Ele saltou, batendo a porta com uma força que me fez encolher. Meu motorista instintivamente se colocou na minha frente, mas João Ricardo o empurrou para o lado.
"Onde ela está, Ana?" ele exigiu, sua voz um rosnado baixo e perigoso. Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando na minha pele. "Onde você escondeu a Késia?"
Eu gemi, seu aperto muito forte, muito agressivo para minha cabeça ainda dolorida. "Me solta, João Ricardo." Minha voz era quase um sussurro, mas continha uma nova e afiada determinação.
Ele me ignorou, seus olhos selvagens. "Não brinque comigo, Ana! Eu sei que você está por trás disso! Você sempre a odiou! Você sempre tentou manipular as coisas!"
"Manipular?" Eu zombei, tentando libertar meu braço. "Não sou eu quem trai, João Ricardo. Não sou eu quem empurra a cabeça da esposa contra uma mesa de centro."
Seu aperto se intensificou, seus nós dos dedos brancos. "Aquilo foi um acidente! Você estava histérica! Você sempre fica tão dramática! Igual àquele acidente de carro estúpido anos atrás! Você sempre tenta se fazer de vítima!"
Suas palavras, aquelas palavras familiares e manipuladoras, torceram a faca na ferida antiga. O acidente de carro. Meu quase fatal acidente, enquadrado por ele como uma tentativa de suicídio manipuladora sempre que eu ousava desafiá-lo. Era sua arma final, sua maneira de desacreditar minha dor, minha sanidade. Meu estômago se revirou.
"Eu não sou uma vítima, João Ricardo", eu disse, minha voz ganhando força. "E eu não escondi a Késia. Eu não me importo com a Késia."
Ele soltou uma risada sem humor. "Ah, por favor. Você espera que eu acredite nisso? Depois que você a atacou? Depois que você finalmente se livrou dela, como sempre quis?" Ele enfiou a mão no bolso do casaco e tirou o celular. "Ela está em agonia absoluta, Ana. Ela está apavorada. Você a afastou." Ele enfiou o celular na minha cara, um vídeo borrado de Késia, soluçando, o rosto inchado, a voz embargada de medo. "Veja o que você fez? Ela está com medo de voltar."
Ele abaixou o celular, seu olhar penetrante. "Agora, onde ela está? Me diga, Ana. Eu sei que você sabe."
Minha mandíbula se contraiu. "Eu te disse, eu não sei. E mesmo que soubesse, não te diria. Você fez sua cama, João Ricardo. Agora deite-se nela."
Seu rosto escureceu, uma transformação aterrorizante. Seus olhos, geralmente tão charmosos, agora estavam cheios de uma raiva fria e assassina. Ele me empurrou contra o carro, com força. O impacto sacudiu minha cabeça ainda em recuperação, uma nova onda de dor florescendo atrás dos meus olhos. Eu gritei.
Antes que eu pudesse me recuperar, ele tirou algo do bolso. Um pequeno e brilhante canivete. Meu sangue gelou.
"Você quer bancar a durona, Ana?" ele rosnou, sua voz perigosamente baixa. Ele agarrou meu braço esquerdo, puxando a manga do meu pijama para cima, expondo meu antebraço. Ele pressionou a lâmina contra minha pele, com força suficiente para fazer uma linha fina aparecer. "Onde ela está?"
Uma dor aguda e lancinante. Eu ofeguei, observando com horror enquanto um fino fio de sangue brotava. Meu corpo gritava em protesto, mas eu me recusei a dar a ele a satisfação das lágrimas.
"Eu... eu não sei", consegui dizer, minha voz trêmula.
Ele pressionou com mais força, arrastando a lâmina, deliberadamente esculpindo um corte superficial em meu antebraço. "Me diga, Ana! Não me faça fazer isso!"
A dor era excruciante, uma linha quente e ardente que roubava meu fôlego. Era uma ferida nova em cima de todas as antigas, uma manifestação física de sua crueldade. Meu braço estava queimando, latejando.
"João Ricardo, por favor..." eu implorei, não por mim, mas pela sanidade que estava rapidamente escapando dele.
Ele me ignorou, seus olhos fixos no meu braço sangrando, uma satisfação perversa brilhando em suas profundezas. Ele arrastou a faca pela minha pele novamente, outro corte superficial, paralelo ao primeiro. "Onde ela está?" ele repetiu, sua voz tingida de desespero maníaco. "Me diga onde está a minha Késia!"
Meu braço parecia estar em chamas. O sangue brotava, pingando no meu pijama impecável. Minha cabeça latejava, minha visão nadava. Senti-me fraca, tonta. Meu trauma passado, o acidente, sua acusação de tentativa de suicídio – tudo voltou, me fazendo sentir impotente, presa.
Ele continuou a esculpir, pequenas linhas deliberadas, em meu braço. Minha pele antes lisa era agora uma tela de sua raiva, um testemunho feio de sua possessividade. Meu antebraço estava manchado de sangue, uma tapeçaria grotesca de sua violência.
"Ainda não vai falar?" ele zombou, seu hálito quente contra minha orelha. Ele largou o canivete, deixando-o cair no chão com um baque. Sem aviso, suas mãos dispararam, envolvendo meu pescoço. Seus dedos apertaram, apertaram, cortando meu suprimento de ar.
Meus olhos se arregalaram. Meus pulmões queimavam. Pontos pretos dançavam diante dos meus olhos. Eu arranhei suas mãos, mas ele era muito forte. Seu aperto era um torno de ferro, roubando meu fôlego, roubando minha vida. Era isso. Era assim que terminava. Sufocada até a morte pelo homem com quem me casei, por causa da mulher com quem ele me traiu.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e silenciosas. Não lágrimas de medo, não de dor, mas de profundo arrependimento. Arrependi-me de cada segundo que perdi amando-o. Arrependi-me de uma vida inteira de escolhas que me levaram a este momento, a este monstro.
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