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Capa do romance O Pesadelo do Casamento Morto

O Pesadelo do Casamento Morto

Júlia planejou uma surpresa para Pedro, mas encontrou o marido com a amante, Sofia. Ao descobrir que sua sogra e Pedro usavam a pequena Alice para encobrir a traição, seu mundo ruiu. Mensagens cruéis revelaram que o casamento era uma farsa mantida por um clã rico. Sem carreira e sob ameaças de perder a guarda da filha, Júlia recusa-se a ser destruída. A esposa dedicada morre para dar lugar a uma mulher determinada a lutar contra os que a humilharam.
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Capítulo 2

A viagem de cinco horas pareceu interminável, mas a excitação de Alice, minha filha, sentada na cadeirinha no banco de trás, tornava tudo mais leve. Seus olhinhos brilhantes e sua voz infantil cantando uma música qualquer do rádio eram o combustível que me movia.

"Mamãe, o papai vai gostar da surpresa?" ela perguntou pela décima vez.

"Claro que vai, meu amor", eu respondi, forçando um sorriso que escondia meu próprio cansaço. "Ele vai ficar muito feliz em nos ver."

Pedro, meu marido, estava trabalhando em outra cidade há meses, em um projeto importante para sua empresa. Ele era um empresário de sucesso, sempre ambicioso, e eu, uma arquiteta talentosa, tinha colocado minha carreira em pausa para cuidar da nossa família, para cuidar de Alice. Eu não me arrependia, mas a saudade apertava.

Quando finalmente chegamos ao imponente prédio comercial onde Pedro trabalhava, meu coração batia um pouco mais rápido. A ideia da surpresa me enchia de uma alegria quase infantil. Peguei Alice no colo, que se agarrou ao meu pescoço, e entramos no lobby moderno e frio.

A recepcionista nos olhou com uma curiosidade polida. "Pois não?"

"Eu gostaria de ver o Pedro Almeida. Sou a esposa dele, Júlia."

Ela pareceu surpresa, mas interfonou. "Senhor Pedro, sua esposa, Júlia, está aqui."

Subimos pelo elevador espelhado. Alice olhava para o nosso reflexo com admiração. Quando as portas se abriram no andar da empresa, o que vi não foi o que eu esperava.

Pedro não estava sozinho. Ele estava no meio de um grupo de colegas, rindo de algo que uma mulher jovem e muito bonita ao seu lado tinha dito. Quando seus olhos encontraram os meus, o sorriso em seu rosto congelou. Não foi um congelamento de surpresa feliz, mas de puro pânico. Seus olhos se arregalaram e a cor sumiu de seu rosto por um instante.

A mulher ao seu lado, que usava um vestido justo e caro, percebeu a mudança em sua expressão e se virou para me olhar. Ela não pareceu surpresa, mas sim... divertida. Um pequeno sorriso presunçoso brincou em seus lábios enquanto ela me analisava de cima a baixo, da minha roupa simples de viagem aos meus cabelos um pouco desarrumados. Os outros colegas de trabalho desviaram o olhar abruptamente, alguns se virando para seus computadores, outros de repente muito interessados em papéis sobre suas mesas. A atmosfera leve e descontraída se tornou pesada e silenciosa.

"Júlia! Alice!", a voz de Pedro soou alta demais, forçada. Ele se apressou em nossa direção, deixando o grupo para trás. "Meu amor, que surpresa maravilhosa! O que vocês estão fazendo aqui?"

Ele tentou me abraçar, mas eu senti a rigidez em seu corpo. Ele estava atuando.

Alice, inocente a toda a tensão, se soltou do meu colo e correu para ele, gritando "Papai!".

Pedro a pegou no colo, a abraçando com força, mas seus olhos não estavam nela. Eles estavam em mim, ansiosos, e depois, por um segundo, fugiram de volta para a mulher que agora nos observava abertamente, com os braços cruzados. Ele parecia um ator em uma peça mal ensaiada, desesperado para que o público acreditasse em sua performance.

"Viemos te ver, papai! Foi uma surpresa!", disse Alice, beijando o rosto dele.

"Que surpresa boa, filha", ele disse, mas sua voz era oca. Ele olhou para mim de novo. "Você deve estar cansada. A viagem é longa."

Eu não respondi. Apenas fiquei ali, parada, sentindo um frio se espalhar pelo meu estômago. A arquiteta dentro de mim, treinada para ver detalhes e estruturas, via todas as rachaduras naquela cena. O olhar desviado dos colegas. A postura desafiadora daquela mulher. O pânico mal disfarçado nos olhos do meu marido.

"Essa é Sofia", disse Pedro, finalmente, com a voz um pouco tensa. "Minha colega de trabalho. Sofia, esta é minha esposa, Júlia, e minha filha, Alice."

Sofia deu um passo à frente, seu sorriso agora amplo e sem nenhum traço de simpatia.

"Prazer, Júlia. O Pedro fala muito de vocês", ela disse, mas seu tom era irônico. E então, ela se virou para a minha filha no colo de Pedro. "Oi, Alice. Você é ainda mais fofa pessoalmente. Seu pai me mostrou tantas fotos suas."

Essa frase me atingiu. Ela conhecia minha filha. Ela via fotos da minha filha.

Alice, com a inocência de seus cinco anos, sorriu para Sofia. "Oi. Você é bonita. Parece a boneca da TV."

O rosto de Pedro se contraiu em uma careta de dor. Sofia riu, uma risada clara e alta no escritório silencioso. "Obrigada, querida. Você também é uma princesa."

Eu continuei em silêncio, fingindo olhar a paisagem urbana pela janela enorme do escritório, mas meus olhos viam tudo. Via como a mão de Sofia tocou o braço de Pedro de forma casual, mas íntima. Via como Pedro se encolheu levemente com o toque. Via a mentira em cada gesto, em cada palavra forçada. A surpresa que eu planejei com tanto carinho havia se transformado em um palco para a minha própria humilhação.

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