
O Perfumista Queimado
Capítulo 2
A água fervente atingiu minhas mãos, e a dor aguda me fez soltar um grito abafado. Eu caí de joelhos no chão frio da cozinha, segurando minhas mãos agora vermelhas e empoladas.
"Isso é para você aprender a não tocar no que não é seu" , a voz de Isabela era fria e cheia de desprezo. Ela estava parada na minha frente, com a chaleira vazia na mão, um sorriso cruel nos lábios. "Você acha que casar com meu irmão te torna a dona desta casa? Você não passa de um substituto, um cão que ele pegou na rua."
Tentei me levantar, mas a dor era intensa, e meu corpo tremia sem controle.
"Por quê?" , eu sussurrei, com a voz rouca.
Ela se agachou, seu rosto perto do meu. "Porque você não é a Eva. Você nunca será. Cada vez que Heitor olha para você, ele só vê uma imitação barata. Você tirou o lugar dela, e eu vou fazer você pagar por isso todos os dias."
O nome dela, Eva, era um fantasma que assombrava cada canto desta casa. A primeira esposa de Heitor, a mulher que ele amava, a mulher que Isabela idolatrava. E eu, Leo, era apenas o homem que veio depois, um acordo de negócios para manter as aparências e, por algum motivo que eu nunca entendi completamente, para satisfazer uma necessidade estranha de Heitor.
Minha mente girava. Eu estava preso neste ciclo de abuso há três anos. Cada dia era uma nova humilhação, uma nova dor. Isabela era a executora, mas Heitor era o juiz silencioso que permitia tudo. Ele nunca me defendia. Ele nunca a repreendia. Ele apenas observava, com seus olhos frios e distantes.
Eu me encolhi no chão, a dor das queimaduras se misturando com a dor profunda e antiga em meu peito. Eu era tão fraco. Tão impotente. Por que eu continuei aqui? Por que eu aceitei isso por tanto tempo? A resposta era simples: por causa da minha tia. Heitor financiava o tratamento dela, e essa era a corrente que me prendia a este inferno.
"Pare com isso, Isabela."
A voz de Heitor cortou o ar. Ele estava parado na porta da cozinha, seu terno caro impecável, seu rosto uma máscara de indiferença. Ele olhou para mim no chão, depois para a irmã.
Isabela imediatamente mudou de expressão, forçando uma cara de preocupação. "Heitor, eu não fiz nada. Ele se queimou sozinho, o desastrado."
Heitor não respondeu a ela. Ele apenas caminhou até mim, me pegou pelo braço e me forçou a ficar de pé. Seu toque era firme, quase doloroso. Ele examinou minhas mãos sem dizer uma palavra e depois me arrastou para fora da cozinha, em direção ao carro.
No hospital, a enfermeira limpou e enfaixou minhas mãos. A dor era constante, um lembrete pulsante da minha situação. Heitor sentou-se em uma cadeira no canto do quarto, não olhando para mim, mas para o celular. Um sorriso suave apareceu em seus lábios enquanto ele digitava. Eu sabia que aquele sorriso não era para mim. Era para ela, Sofia, a mulher cujo rosto era quase idêntico ao de Eva. Eu a tinha visto em fotos nas redes sociais, sempre ao lado de Heitor em eventos onde eu não era bem-vindo.
A lembrança do dia em que fui forçado a assinar o contrato de casamento voltou com força. Meu pai, um homem que só se importava com dinheiro, me vendeu para a família Patterson. "É uma boa oportunidade, Leo. Você terá uma vida de luxo" , ele disse, ignorando as lágrimas nos meus olhos. Luxo. Que piada. Eu vivia em uma gaiola de ouro, e as barras ficavam mais apertadas a cada dia.
Quando a enfermeira saiu, Heitor finalmente guardou o celular e se virou para mim. Seu rosto estava sério novamente.
"Isabela passou dos limites desta vez" , ele disse, com a voz sem emoção. "Eu vou te compensar. O que você quer? Um carro novo? Mais joias?"
Aquelas palavras me atingiram como um soco. Compensação. Era tudo o que eu era para ele: um objeto danificado que precisava ser consertado ou substituído com dinheiro. A raiva, há muito suprimida, borbulhou dentro de mim.
"Eu não quero nada seu" , eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Eu quero o divórcio, Heitor."
Ele me olhou, uma sobrancelha arqueada em surpresa, como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.
"Não seja ridículo, Leo. Nós temos um contrato."
"O contrato pode ir para o inferno" , eu retruquei, a dor nas minhas mãos me dando uma estranha coragem. "Eu não aguento mais. Assim que o contrato terminar, eu vou embora e nunca mais quero ver você ou sua irmã."
Heitor me observou por um longo momento, seu olhar frio me analisando. Ele não parecia zangado, apenas... entediado.
"Você não vai a lugar nenhum" , ele disse simplesmente, como se estivesse declarando um fato imutável. "Você pertence a mim."
Ele se levantou e caminhou em direção à porta.
"Descanse. Voltaremos para casa em breve."
Ele saiu, fechando a porta atrás de si, me deixando sozinho com minhas mãos enfaixadas e a certeza esmagadora de que minha declaração de guerra tinha sido completamente ignorada. Mas algo dentro de mim havia mudado. A semente da rebelião havia sido plantada. Ele podia pensar que eu pertencia a ele, mas eu sabia a verdade. Eu não pertencia a ninguém. E eu iria provar isso.
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