
O Perfumista Queimado
Capítulo 3
Os dias seguintes no hospital foram uma névoa de dor e analgésicos. Minhas mãos estavam enfaixadas, me tornando inútil para as tarefas mais simples. Heitor não me visitou novamente. Em vez disso, ele enviava seus assistentes para verificar meu estado, como se eu fosse um ativo da empresa que precisava de manutenção.
Sozinho no quarto estéril, eu passava horas no celular, o único elo com o mundo exterior. Foi lá que eu vi as fotos. Heitor e Sofia em um jantar de gala. Heitor e Sofia rindo em um iate. A legenda de uma das fotos, postada por um amigo em comum, dizia: "O amor está no ar" . Eu olhei para as imagens, para o sorriso genuíno no rosto de Heitor, um sorriso que ele nunca me deu, e senti... nada. A dor tinha se tornado tão familiar que havia um vazio onde o ciúme ou a tristeza deveriam estar. Era como observar a vida de um estranho, uma novela ruim da qual eu não fazia mais parte.
Quando finalmente recebi alta, ninguém veio me buscar. Eu mesmo assinei os papéis, a caneta estranha entre meus dedos enfaixados. Chamei um táxi e voltei para a mansão que eu deveria chamar de lar. O lugar estava silencioso e vazio. Arrastei meu corpo dolorido escada acima, para o meu quarto, e comecei a arrumar minhas coisas. Não tinha muito o que levar. A maioria das roupas e objetos de valor eram presentes de Heitor, coisas que eu não queria. Peguei apenas o essencial: algumas roupas velhas, fotos da minha tia e os poucos livros que eu amava. Coloquei tudo em uma única mala.
Enquanto eu estava dobrando uma camisa, a porta do quarto se abriu de repente. Era Isabela. Ela me olhou com seu desprezo habitual.
"O que você está fazendo?" , ela perguntou, cruzando os braços.
"Estou arrumando minhas coisas" , respondi, sem olhá-la.
"Heitor está organizando uma recepção importante esta noite para um cliente. Você precisa estar lá. Pare de fazer drama e se prepare."
Eu continuei arrumando a mala. "Eu não vou."
Ela riu, um som agudo e desagradável. "Você não tem escolha. Heitor me mandou aqui para garantir que você se comporte. Ele precisa que você, o 'marido troféu' , esteja presente para manter as aparências. Agora, vá se arrumar."
Eu suspirei. Discutir era inútil. A recepção era importante para os negócios de Heitor, e minha ausência causaria problemas. Eu ainda dependia dele para o tratamento da minha tia. Por enquanto, eu teria que obedecer. Eu me virei e fui para o closet.
Foi então que eu vi. Meu melhor terno, o único que eu realmente gostava, estava no chão, rasgado e manchado com o que parecia ser vinho tinto. Havia cortes de tesoura na jaqueta e nas calças, tornando-o completamente inutilizável.
Isabela apareceu atrás de mim, um sorriso triunfante no rosto. "Oh, que pena. Parece que você teve um acidente. O que você vai vestir agora?"
A raiva me sufocou por um momento. Era um ato tão pequeno, tão mesquinho, mas era a gota d'água. Eu me virei para ela, meus olhos ardendo. "Você fez isso."
"Eu não sei do que você está falando" , ela disse, com falsa inocência.
Naquele exato momento, Sofia apareceu na porta, segurando um cabide. Ela usava um vestido elegante e seu cabelo estava perfeitamente penteado. Ela parecia uma princesa de conto de fadas.
"Leo, querido, ouvi o que aconteceu" , ela disse, com uma voz doce e preocupada. "Que coisa terrível. Mas não se preocupe, eu trouxe uma solução. Heitor me pediu para trazer este terno para você. Ele achou que ficaria perfeito em você."
Ela me estendeu o cabide. Era um terno branco, lindamente cortado, mas estranhamente familiar. Hesitei, mas não tinha outra opção. A festa começaria em menos de uma hora.
"Obrigado, Sofia" , eu disse, pegando o terno. Minha voz soava tensa.
"De nada" , ela sorriu, um sorriso que não alcançou seus olhos. "Afinal, somos família, não é?"
Eu me vesti em silêncio, a sensação do tecido caro contra a minha pele era desconfortável. O terno serviu perfeitamente, quase como se tivesse sido feito para mim. Quando desci as escadas e entrei no salão de festas lotado, todos os olhos se viraram para mim. O murmúrio das conversas parou por um instante, seguido por sussurros chocados.
Um homem mais velho, um parceiro de negócios de Heitor, me olhou com os olhos arregalados. "Meu Deus, é o terno... o terno do casamento de Heitor e Eva."
Meu sangue gelou. Olhei para Heitor, que estava do outro lado do salão. Seu rosto estava pálido, seus olhos fixos em mim com uma expressão de horror e fúria. E ao lado dele, Sofia e Isabela trocavam um olhar de puro triunfo. Eu tinha caído na armadilha delas. Elas não queriam apenas me humilhar, queriam me transformar em um sacrilégio ambulante, uma profanação da memória de Eva.
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