
O Pecado do Ciúme Doentio
Capítulo 2
A notícia chegou em uma tarde ensolarada de terça-feira, o tipo de dia que parecia feito para boas notícias. O e-mail da universidade estadual brilhou na tela do computador de Luísa, com o título em negrito: "Resultado do Vestibular - Aprovada em 1º Lugar".
"Pai! Mãe! Eu consegui!"
A voz de Luísa, cheia de alegria pura, ecoou pela casa. Corri para o escritório dela, com o coração batendo forte de orgulho. Minha filha, minha brilhante Luísa, não apenas tinha passado para medicina, mas tinha conquistado a maior nota de todo o estado. Abracei-a com força, girando-a no ar enquanto ela ria, um som que era a minha música favorita no mundo.
"Eu sabia, meu amor! Eu sabia que você conseguiria!"
Sofia, minha esposa, entrou na sala logo depois, seu rosto uma máscara de curiosidade.
"O que é toda essa gritaria?"
"A Luísa, Sofia! Ela passou! Primeiro lugar geral!" Eu disse, com um sorriso que ia de orelha a orelha.
Luísa correu para abraçar a mãe, esperando a mesma reação eufórica. Mas o sorriso de Sofia congelou no rosto. Ela olhou para a tela do computador, depois para Luísa, e seus olhos se estreitaram. A alegria em seu rosto se desfez, substituída por algo frio e sombrio que eu conhecia muito bem, mas que nunca tinha visto direcionado à nossa filha.
"Primeiro lugar?" ela repetiu, a voz sem calor. "Você deve estar querendo se exibir muito agora, não é? Vai querer jogar na cara de todo mundo o quão melhor você é."
A mudança foi tão abrupta que o ar na sala pareceu gelar. Luísa se afastou da mãe, a confusão e a dor estampadas em seu rosto.
"Mãe? O que você está dizendo? Eu só..."
"Chega, Luísa," Sofia a cortou. "Orgulho excessivo é um pecado. Parece que seu pai e eu falhamos em te ensinar humildade. Vou ter que corrigir isso. Agora."
Antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, Sofia agarrou o braço de Luísa com uma força assustadora. Luísa soltou um grito de surpresa e dor.
"Sofia, o que você está fazendo? Solte ela!" Eu gritei, tentando intervir.
Mas Sofia me empurrou para o lado com uma força que eu não sabia que ela possuía. Ela arrastou Luísa, que chorava e tropeçava, para fora do escritório e em direção ao porão. Nossa casa tinha uma adega e, ao lado dela, uma câmara fria antiga que usávamos para armazenar algumas bebidas. Era um cômodo pequeno, de concreto, sem janelas.
"Você vai ficar aqui e pensar na sua arrogância," Sofia cuspiu, empurrando Luísa para dentro da escuridão gelada. O som da porta de metal pesado batendo ecoou pela casa, seguido pelo clique da tranca.
"SOFIA! ABRE ESSA PORTA! VOCÊ ENLOUQUECEU?" Eu berrava, socando a porta de metal.
Ela se virou para mim, os olhos brilhando com uma fúria descontrolada. "Cale a boca, Pedro. Você a mima demais. É por isso que ela está assim. Ela precisa aprender uma lição."
Caí de joelhos, o desespero tomando conta de mim. "Por favor, Sofia. Isso é loucura. Ela é nossa filha. Ela só conseguiu uma coisa maravilhosa. Por favor, não faça isso."
Minhas súplicas eram inúteis. Ela me olhou com desprezo, como se eu fosse um inseto.
"Você é fraco, Pedro. Sempre foi. É por isso que ela não me respeita."
Sofia pegou o celular e discou um número. Ouvi a voz de seu cunhado, Tiago, no viva-voz.
"Sofia, querida! Já soube da novidade? Minha filha Paula está arrasada. Ela se esforçou tanto e essa sua filha vem e rouba todo o brilho. Ela vai esfregar isso na nossa cara para sempre, você sabe, né?"
A voz melosa de Tiago era veneno puro, e Paula, sua filha, podia ser ouvida ao fundo, concordando com tudo. Eles estavam manipulando Sofia, alimentando seu ciúme doentio, um ciúme que eu nunca entendi completamente, que vinha de uma rivalidade antiga com sua falecida irmã, a mãe de Paula.
"Eu estou cuidando disso, Tiago," disse Sofia, sua voz agora ainda mais dura. Ela foi até o termostato da câmara fria, que ficava do lado de fora, e baixou a temperatura drasticamente.
"Sofia, não!" Eu gritei, tentando me levantar, mas ela me chutou no peito, me derrubando de volta no chão.
Fui trancado no porão com ela, não dentro da câmara, mas do lado de fora, onde eu podia ouvir os sons abafados de Luísa tossindo e batendo na porta. O frio que emanava da câmara me congelava até os ossos, mas não era nada comparado ao gelo em meu coração. Eu ouvia minha filha sofrendo, e eu não podia fazer nada.
Em um ato de desespero, peguei meu celular, que por sorte estava no meu bolso. Tentei ligar para a polícia, para o avô de Sofia, qualquer um.
"Nem pense nisso," disse Sofia, arrancando o telefone da minha mão. "O vovô sabe que Luísa precisa de disciplina. Ele concorda comigo."
Era uma mentira, eu sabia, mas na minha impotência, a mentira me esmagou. A esperança se extinguiu, deixando apenas o frio e os sons cada vez mais fracos da minha filha.
O tempo perdeu o sentido. Horas se passaram. Sofia alternava entre ficar sentada em uma cadeira, me observando com ódio, e ir até a porta da câmara para gritar insultos para Luísa. Em algum momento, ela decidiu que o frio não era suficiente. Ela arrastou Luísa para fora, quase inconsciente, e a trancou na sauna no outro lado do porão, ligando o calor no máximo.
Eu estava quebrado, física e mentalmente. A combinação do estresse, do frio e depois do calor do ambiente me deixou fraco, desorientado. A última coisa que lembro é de ter desmaiado no chão frio do porão, o som do chiado da sauna ecoando em meus ouvidos.
Acordei em um lugar diferente. As paredes eram brancas, o cheiro era de antisséptico. Uma TV estava ligada em um canto da sala, sem som. Eu estava em uma cama de hospital, com tubos ligados ao meu braço. Minha cabeça doía, meu corpo todo doía.
Uma enfermeira entrou e ligou o som da TV. Uma âncora de telejornal falava com uma expressão séria.
"...uma tragédia chocante que abala a nossa cidade. A estudante Luísa Mendes, que ontem foi anunciada como a primeira colocada no vestibular de medicina do estado, foi encontrada morta em sua casa. Seu pai, Pedro Mendes, está em estado crítico no hospital. A mãe, Sofia, está sendo interrogada pela polícia..."
A câmera mostrou uma foto de Luísa, sorrindo, a mesma foto que tiramos no seu aniversário de dezessete anos. Depois, uma foto minha, tirada de um documento antigo.
Luísa... morta.
Pedro... em estado crítico.
A notícia não fez sentido. Era como se estivessem falando de outra família, de outra vida. Mas a dor em meu peito, uma dor tão vasta e profunda que roubou todo o ar dos meus pulmões, era real. A verdade caiu sobre mim, não como uma revelação, mas como uma laje de concreto, me esmagando, me aniquilando. Eu gritei, um som cru, animalesco, que rasgou minha garganta e não trouxe alívio algum. Minha filha estava morta. E a mulher que eu amei a tinha matado.
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