
O Pecado do Ciúme Doentio
Capítulo 3
O mundo do hospital era um borrão de dor e confusão, mas minha mente estava presa naquele porão. Aquele inferno. O noticiário me deu o final da história, mas meu cérebro precisava rebobinar, precisava entender cada segundo do horror. A memória voltou em flashes, nítida e brutal.
Eu estava no chão do porão. Sofia tinha saído, talvez para atender outra ligação de Tiago, me deixando trancado. Eu podia ouvir Luísa. Não mais batendo na porta da sauna, mas fazendo um som baixo, um gemido de dor que mal era audível.
O desespero me deu uma força que eu não sabia que tinha. A porta do porão era de madeira maciça, mas tinha uma pequena janela de vidro reforçado. Eu não pensei. Apenas agi. Corri em direção à porta e bati meu ombro contra ela. Dor explodiu no meu braço, mas a porta não cedeu.
Fiz de novo. E de novo. Nada.
Olhei para a pequena janela. Era minha única chance. Cerrei o punho e soquei o vidro. Uma dor aguda subiu pelo meu braço quando o vidro estilhaçou, rasgando minha pele e músculos. O sangue jorrou, quente e escuro, mas eu não senti. Continuei a socar, quebrando os cacos restantes até que houvesse um buraco grande o suficiente para eu passar o braço e alcançar a maçaneta do outro lado.
Com a mão ensanguentada e trêmula, girei a chave e abri a porta. Corri para a sauna. A porta não estava trancada por fora. Eu a abri e uma onda de calor sufocante me atingiu.
Luísa estava caída no chão, seu rosto vermelho e coberto de suor. Ela mal respirava.
"Luísa! Meu amor, fale comigo!"
Ajoelhei-me ao lado dela, tentando levantá-la. Sua pele queimava. Foi quando eu vi. Havia algo em sua boca. Um pedaço de pano branco, enfiado com força.
Com os dedos trêmulos, puxei o pano. Ele saiu com dificuldade. Era um lenço de seda, um dos favoritos de Sofia. E quando o tirei, algo caiu de dentro dele, brilhando sob a luz fraca. Pequenos cacos de vidro.
Minha respiração parou. Sofia não apenas a torturou com o frio e o calor. Ela havia colocado cacos de vidro na boca da nossa filha para silenciar seus gritos. A crueldade do ato era tão monstruosa, tão impensável, que meu cérebro se recusou a aceitá-la por um segundo. Era a maldade em sua forma mais pura, um detalhe escondido que revelava a profundidade doentia de seu ódio.
Tentei pegar meu celular, que Sofia havia jogado em um canto. A tela estava rachada, mas ligou. Sem sinal. Tentei o Wi-Fi. Desligado. Corri para o telefone fixo na parede do porão. Mudo. Ela tinha cortado toda a comunicação. Estávamos presos.
Comecei a gritar por ajuda, a bater nas paredes, esperando que um vizinho pudesse ouvir. A única pessoa que respondeu foi um dos empregados da casa, um homem chamado Jonas, que era leal a Sofia até a alma. Ele apareceu no topo da escada do porão.
"Senhor Pedro? A senhora Sofia disse para o senhor não a incomodar. Ela está em uma chamada importante com a família."
"Jonas, pelo amor de Deus, chame uma ambulância! A Luísa não está bem! A Sofia... ela enlouqueceu!" Eu implorei, minha voz rouca.
Jonas olhou para mim com um sorriso de escárnio. "O senhor é muito dramático. A senhora só está ensinando uma lição à menina. Ela vai ficar bem. Agora, se me der licença, não quero irritar a patroa."
Ele se virou e foi embora, me deixando na escuridão com minha filha morrendo.
Havia um sistema de interfone antigo na casa. Eu me arrastei até ele, apertando o botão do quarto principal, onde eu sabia que Sofia estava. A voz dela soou, fria e irritada.
"O que você quer, Pedro?"
"Sofia... os cacos... havia cacos de vidro na boca dela," eu disse, a voz quebrada. "Ela precisa de um hospital. Agora. Ela vai morrer."
Houve uma pausa do outro lado. Então, a risada dela. Uma risada baixa e cruel.
"Cacos de vidro? Não seja ridículo. Ela provavelmente mordeu a língua para chamar a atenção. Que atriz dramática, igual ao pai."
"É verdade, Sofia! Eu juro! Por favor, acredite em mim!"
"Eu não acredito em uma palavra sua," ela disse. "Você e ela estão juntos nisso, tentando me fazer de boba. Se você quer que eu sequer pense em abrir essa porta, quero que você se ajoelhe e peça desculpas. Peça desculpas por ter estragado nossa filha, por tê-la transformado nessa pessoa arrogante e ingrata."
Eu estava ajoelhado, segurando o corpo mole de Luísa, meu sangue pingando no chão de cimento ao lado dela. O calor da sauna tinha me deixado tonto, e a perda de sangue do meu braço estava me enfraquecendo rapidamente. Minha visão começou a escurecer nas bordas.
Eu olhei para o rosto da minha filha. Tão pálido. Seus lábios estavam azulados. Ela deu um último suspiro, um som frágil, como a asa de um pássaro se quebrando. E então, silêncio.
Meu mundo inteiro se desfez naquele silêncio. A força me abandonou completamente. Caí ao lado dela, a escuridão me engolindo enquanto eu via a luz da vida da minha filha se apagar para sempre.
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