
O Padrasto (Deane Ramos)
Capítulo 2
“Todos voltam ao seu estado natural. ”
- Tim Maia.
Junho, 2016
Rapidamente, eu me levanto e esfrego os olhos, que estão com a visão embaçada.
Em passos largos, sigo para o banheiro, me equilibrando enquanto retiro a calça e a blusa do meu pijama cor-de-rosa, o meu preferido, que ganhei de papai dias antes da sua morte. Entro no banheiro apenas de calcinha, jogo as roupas no chão e meu corpo se arrepia com a leve brisa da manhã que adentra pela janela e sopra em minha pele.
Rapidamente, tiro a pequena calcinha e sigo para o box, ligo o chuveiro e deixo a água quente cair sobre o meu corpo, e como um relaxante natural, sinto toda a tensão do dia anterior, em que eu emocionalmente fiquei abalada ao visitar o túmulo do meu pai, se dissipar junto com as partículas de água que deslizam por todo o meu corpo, morrendo no ralo do box.
Eu não sei exatamente por quanto tempo fico imersa em pensamentos, só que é o suficiente para que os dedos das minhas mãos enruguem.
Hesitante, termino o banho, desligo o chuveiro e saio do box, vestindo o roupão felpudo antes de fazer a minha higiene. Saindo do banheiro, eu sigo para o closet, visto o meu uniforme, que não há nada especial: calça vermelha e camisa branca com alguns detalhes em vermelho na gola e por fim, calço o meu All Star preto com desenhos de pequenas caveiras em branco. Reviro meu longo cabelo em um perfeito rabo de cavalo, fito a minha imagem abatida através do espelho do closet e engulo em seco ao mesmo tempo em que uma saudosa lágrima solitária escorre pelo meu rosto. Por mais que eu me esforce para não chorar, todas as vezes que penso no Sr. Thompson, falho miseravelmente.
A saudade dói muito mais do que eu poderia imaginar. Seco a lágrima solitária e antes de sair para me juntar com a mamãe à mesa do café, pego a mochila preta, uma das minhas preferidas, no closet e sigo para o meu quarto, onde pego o celular que está sobre a escrivaninha e desço as escadas correndo para enfrentar um dos momentos mais irritantes do meu dia. Compartilhar o café da manhã. A primeira refeição do dia seria feita em paz, se não fosse o ser mais repugnante que eu já conhecera em toda a minha vida, o meu padrasto.
— Bom dia. — digo, sem ânimo, ao entrar na sala de jantar, onde a mesa, que Ada lindamente arruma todas as manhãs, está posta, e me deparo com mamãe e o idiota do seu marido sentados à mesa do café, onde eles conversam animados.
Seus olhares se voltam para mim.
Ignoro meu padrasto completamente, enquanto caminho em direção à mamãe, que me recebe com um largo sorriso amistoso nos lábios.
— Bom dia, querida. Como passou a noite? — pergunta mamãe antes de dar uma garfada em sua salada de frutas.
Carinhosamente, eu dou um beijo em sua cabeça, tomo meu lugar ao seu lado na mesa enquanto acomodo a mochila em outra cadeira.
— Bem! — eu me limito a dizer enquanto guardo o celular na mochila e coloco o guardanapo sobre o colo, depois me sirvo com um copo de suco de laranja e uma torrada.
Um insuportável silêncio se forma no ambiente, não que isso me incomode, pelo contrário, eu me encaixo perfeitamente no grupo de pessoas que são desprovidas de assunto pela manhã, e a presença do meu padrasto colabora ainda mais para isso.
Depois da partida do meu pai, tudo mudou, inclusive os horários das nossas refeições, que sempre foram regadas com conversas animadas. Hoje, trocamos poucas palavras, na verdade, conversamos o essencial. É estranho dizer, mas me sinto como se não fizesse mais parte dessa família.
Tudo está completamente diferente, a cadeira que antes papai ocupava, hoje é ocupada por um estranho. O que me deixa furiosa, pois não me restam dúvidas que ele quer ocupar o lugar do meu pai. Mas o que ele não sabe é que jamais, em hipótese alguma, tomara o seu lugar. Ele foi único e não há ninguém, doce, gentil e carinhoso como ele.
— Claro, meu amor. Se é importante para você, com certeza é importante para mim. — sou desperta do meu devaneio quando ouço Christopher dizer.
Em silêncio, termino o café, coloco o guardanapo sobre a mesa e me levanto vagarosamente para não chamar a atenção da mamãe e do meu padrasto, que conversam compenetrados. Rapidamente, corro meus olhos entre mamãe e Christopher, que ainda não notaram meus movimentos.
Pego a mochila e sigo para a sala, onde a deixo sobre o sofá e volto para o meu quarto. Vou ao banheiro, escovo os dentes, depois passo um brilho labial, que naturalmente avermelha.
Os garotos da minha escola disputam para ver qual deles consegue me levar para a cama primeiro. Até que acho divertido esse assédio, eleva o meu ego, afinal, qual garota não gosta de ser desejada por muitos garotos?
Mas nenhum deles me fez perder a cabeça ou me convenceu a entregar aquilo que uma garota, como no meu caso, tem de mais precioso, a virgindade.
Fui uma garota mimada pelo pai, e antes também por minha mãe.
Se não fosse pelo traste que ela escolhera como esposo, tudo seria completamente diferente. Eu afirmo em dizer que tudo seria perfeito.
Mas nem tudo na vida é como desejamos.
Não posso reclamar, tenho tudo que muitas garotas da minha idade gostariam: um quarto de princesa, estudo em uma das melhores escolas de Nova Iorque, tenho um motorista que está a minha disposição para me levar em todos os lugares que eu solicitar e Ane, que é muito mais que uma simples amiga. Eu a tenho como uma irmã e sei que o sentimento é recíproco.
Mesmo com tudo isso, nada substitui a falta que meu pai me faz.
Trocaria todo o dinheiro que tenho, deixado por ele, claro, que sempre pensara em meu futuro, para tê-lo aqui comigo.
Sou muito parecida fisicamente com papai e me sinto lisonjeada por isso.
Preciso dizer que sou uma garota bem popular na escola, mas não tenho muitos amigos. Colegas, sim, amigos, apenas uma, Ane. Ela sempre foi a minha fiel amiga, mas o seu grande erro foi se apaixonar por Caleb, o garoto mais idiota da escola, que sabendo do amor platônico que ela nutria por ele se aproveitou da situação, fingindo corresponder aos seus sentimentos para conseguir com êxito o que almejava: levá-la para a cama.
Lembro-me de como ela ficou feliz por ter se entregado àquele quem ela acreditara ser o grande amor da sua vida.
Naquele dia, seguimos para a escola como todas as manhãs, mas para a Ane, o dia estava ainda mais bonito, as flores mais belas, e o sol, com toda a sua grandeza, brilhava ainda mais.
Seria tudo perfeito, se não fosse o idiota do Caleb, aquele quem foi o motivo de fazer o dia de Ane ainda mais bonito, acabar com tudo no exato momento em que colocamos os pés na escola.
Sou totalmente contra a violência, mas foi ele quem pediu quando espalhou para todos na escola o que havia acontecido entre ele e Ane.
Canalha.
Fico furiosa cada vez que eu me lembro daquele dia.
Não entendo o porquê de muitos garotos se comportarem como idiotas, tendo atitudes como essa. Será que eles não entendem que sair falando para os imbecis dos seus amigos coisas íntimas, que teriam que ficar entre ele e a garota envolvida, não os farão mais homens? Pelo contrário, só os tornarão ainda mais idiotas.
Sentindo a obrigação de defender a minha amiga, parti para cima do idiota e com todas as minhas forças, desferi um soco em seu nariz, pegando-o de surpresa. Não imaginei que eu possuía tanta força, o sangue jorrava de seu nariz sem parar. Parece que ainda sinto meus dedos doerem.
Essa atitude me rendeu uma suspensão de uma semana e meses de dona Katherine reclamando.
Não me arrependo, faria tudo de novo, quem sabe assim ele aprende a maneira correta de tratar uma garota.
Babaca.
É por esse motivo que não me entrego para qualquer um. Se um tipinho como Caleb cruza o meu caminho, eu passo por cima.
Eu sei que idade não define maturidade, mas se for para entregar o coração para alguém, que seja uma pessoa que valerá a pena, que saberá valorizar cada momento ao seu lado.
Christopher é vinte e dois anos mais novo que mamãe. No início, pensei que ele quisesse dar o golpe do baú, mas com o tempo, eu notei que ele tem muito mais dinheiro do que papai havia nos deixado.
É duro admitir, mas o cretino faz a minha mãe feliz, e é só por esse motivo que eu finjo aceitar este relacionamento ridículo.
Sei que ele é empresário, mas não me pergunte em que ramo atua, nada que diz respeito a ele me interessa
Mamãe é linda, realmente não entendo o que ela viu neste homem. Com a sua beleza, ela poderia conseguir um ator de Hollywood, se assim desejasse.
Eu tenho que admitir que ele é muito bonito. Seu cabelo escuro e liso combina perfeitamente com seus lindos olhos azuis e com os lábios bem contornados levemente avermelhados e convidativos. Christopher é dono de uma sensualidade natural. Ele é o tipo de homem que faz com que qualquer mulher se perca em seus braços.
Ane diz que implico com ele, está bem, concordo que na maioria das vezes eu sou estúpida, até porque ele não tem culpa do meu pai ter partido tão cedo, mas foi sacanagem da minha mãe colocar alguém em seu lugar em tão pouco tempo.
Poxa, faz só um ano que meu querido pai se foi e ela me aparece com esse babaca, que se acha no direito de se meter na minha vida, se portando como se fosse meu pai.
Coitado, ele está longe de chegar perto do que meu pai foi.
Volto para a sala, pego a mochila e vou até a sala de jantar para me despedir da mamãe.
— Tchau, mãe! — eu me aproximo da mamãe e dou um beijo em seu rosto, que é retribuído com o um lindo sorriso.
Ela fica ainda mais linda quando sorri.
Despeço-me de Ada, que adentra a sala de jantar trazendo algumas panquecas, jogando um beijo no ar para ela, que retribui o gesto, e saio.
— Tchau, filha, boa aula. Não volte tarde e não se esqueça que temos um jantar muito importante para mim essa noite. — reviro os olhos enquanto saio e ela descarrega todas as nossas atividades do dia.
Mamãe sendo mamãe.
Detesto acompanhar a minha mãe e o imbecil do seu marido nesses jantares de negócios. Não sei o porquê de me obrigarem a participar de assuntos que não me dizem respeito.
Bufo, frustrada.
— Tudo bem. — concordo, fingindo ter ouvido o que ela disse.
De nada adiantaria me negar a ir, já posso até ouvi-la dizer:
“Quem manda aqui sou eu. Você vai e ponto final.”
Estou passando pela sala de estar, quando eu a ouço dizer:
— Julha, não está se esquecendo de nada? — pergunta e eu já sei do que se trata.
Mesmo contrariada, volto a me juntar a eles na sala de jantar. Não suporto quando ela me obriga a me despedir do seu marido.
— Morra! — digo, me dirigindo a ele com cara de poucos amigos.
— Bom dia para você também, querida. — diz ele com um sorriso irônico nos lábios.
Ele está me provocando.
Idiota!
Ao sair, eu lhe mostro o dedo do meio e o ouço reclamar de algo para a minha mãe. Não tenho dúvida que se refere ao meu mau comportamento. Quem se importa, ele é um idiota mesmo.
— Bom dia!
— Bom dia!
Logo me junto com a minha amiga em sua limusine e seguimos para a escola.
Ane tagarela como sempre, sem parar, não sei de onde surge tanto assunto a essa hora da manhã.
Dou um sorriso amarelo, fingindo ouvir o que ela diz, ou ela me dará um longo sermão de que sou mal-humorada, insensível e por fim, que meu padrasto tem razão quando diz que sou chata, nos levando a uma briga desnecessária.
Uso apenas o mesmo método que ela utiliza quando não quer conversar: faço cara de paisagem enquanto ela fala sem parar e por fim, tudo termina bem.
Eu respeito a sua opinião e ela respeita a minha também.
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