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Capa do romance O Padrasto (Deane Ramos)

O Padrasto (Deane Ramos)

Uma mentira tem o poder de alterar destinos. Julha Thompson se vê perdidamente apaixonada pelo homem que considerava seu rival: o namorado de sua mãe. Embora tente lutar contra essa atração, ela já está marcada por esse desejo. Viver um amor proibido com o padrasto parece impossível, mas mantê-lo longe será sua maior provação. Em um enredo repleto de luxúria e traições, a vida mostrará que o verdadeiro desafio de Julha ainda está por vir.
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Capítulo 3

“Por trás de uma lágrima, acredite, você sempre irá encontrar um motivo para sorrir”.

- Deane Ramos.

Por um milagre, as aulas passam mais depressa do que o normal, para delírio de todos os presentes.

Ane e eu saímos da escola e solicitamos a Dylan, seu motorista, para que nos leve até a academia, que fica a quatro quarteirões da escola. Com toda essa turbulência que se instalou em minha vida, a única maneira que encontrei para extravasar o estresse acumulado é malhando.

Exercitamo-nos durante uma hora. Suei a camisa, então vamos para o vestiário, tomo um banho rápido e seguimos para a casa de Ane, onde um chato trabalho de matemática nos aguarda.

— Como está a convivência com o seu padrasto? — pergunta Ane enquanto beberica o suco que dividimos dentro da limusine no caminho para a sua casa.

Reviro os olhos. Horrível. Não que seja alguma novidade a nossa péssima convivência. Às vezes, eu me pergunto se algum dia iremos viver civilizadamente, e não que eu faça questão, mas mamãe, sem dúvida, agradeceria a paz que reinaria em nosso lar.

— A mesma porcaria de sempre. — bufo e dou de ombros.

Apanho a garrafa de suco das mãos de Ane e tomo um gole generoso.

— Você sabe que eu não gosto de dar palpites sobre o assunto, mas se falo, é pensando em você e na sua mãe. Vocês se davam tão bem, eu sei que gostaria que ela fosse mais presente, que você se sente traída por ela ter refeito a vida, mas você sabe que não foi. Eu não sei o porquê de tanto ódio. Dê uma trégua ao seu padrasto. Se você der uma chance a ele, vai descobrir que ele é um cara legal, sua mãe ficará feliz e você voltará a se relacionar perfeitamente bem com ela. Pense nisso. — diz, dando de ombros.

— Ah, deixe-me ver. Será que é pelo simples fato de ele tentar tomar o lugar do meu pai? E não satisfeito, tirar a minha mãe de mim? — digo, furiosa, fitando-a com os olhos cerrados.

— Amiga, pare já com isso! Você está agindo como uma criança mimada. — ela me repreende e continua a defesa de Christopher.

Se fosse outra pessoa em meu lugar, mudaria rapidamente de opinião a respeito do meu padrasto. Reviro os olhos com a comparação.

— Quando sua mãe o conheceu, já havia passado um ano desde que o tio se foi e eu entendo que você sinta a falta dele, que passe o tempo que passar, você sempre estará de luto, mesmo sabendo que todos voltam ao seu estado natural. Mas você não pode impedir que a tia Katherine refaça a vida. Não seja injusta com...

— Ah, okay. Vamos mudar de assunto! — eu a interrompo. — Essa discussão não irá nos levar a lugar algum. Não quero brigar com você, eu tenho uma opinião e você tem outra, então o melhor a fazer é encerrarmos esse assunto. — digo e minha voz soa mais ríspida do que pretendia.

— Tudo bem, não precisa ficar irritada. Não está mais aqui quem falou. — diz com as sobrancelhas arqueadas em surpresa com a minha reação.

— Ótimo! — digo por fim.

Seguimos o restante do percurso em total silêncio. Enquanto estiver na casa de Ane, terei algumas horas de tranquilidade. Fico imersa em pensamentos enquanto o carro percorre o trânsito congestionado da cidade.

Em poucos minutos, chegamos à casa de Ane. Saímos do carro e rapidamente seguimos para a área interna. Ao passarmos pela sala, tudo está em silêncio, então rapidamente subimos para o seu quarto.

Almoçamos um delicioso bolo de carne ao molho madeira acompanhado de arroz branco, salada de alface e um maravilhoso suco de tomate com hortelã, que é deliciosamente preparado por Joana, empregada de Ane.

— Meninas, se alimentaram bem? — a Sra. Clark adentra a sala vestida com um sobretudo escuro, meias finas pretas e saltos altos. Poe a bolsa na cadeira ao lado e toma seu lugar à mesa, se juntando a nós.

— Sim, mamãe!

— Estava tudo uma delícia, Sra. Clark. — digo, após dar um generoso gole em meu suco e depositar o copo sobre a mesa.

— Ah, ótimo, e a escola? Logo vocês terminam os estudos.

Depois que fazermos companhia para a Sra. Clark em seu almoço, eu e Ane voltamos para o quarto, onde passamos a tarde fazendo o trabalho de matemática. Quando dou por mim, o sol já está se pondo, então arrumo o material na mochila e descemos para a sala de televisão para esperar a minha mãe.

Sou desperta do meu devaneio quando ouço o meu aparelho celular tocar. Procuro por ele, perdido em meio a bagunça dentro da mochila.

— Filha? — diz mamãe quando atendo a ligação.

— Oi, mãe! — ainda que esteja chateada com a mamãe por seu casamento descabido, eu a atendo com carinho.

— Já terminaram o trabalho?

— Há muito tempo. — ironizo.

— Ótimo. Esteja pronta, Christopher está passando aí para te buscar.

Ah, não, alguém me diz que é mentira.

Que saco!

Será que é tão difícil ela entender que não suporto o seu marido?

— Mãe, sabe que odeio o seu marido. Mande o motorista. — peço, irritada.

— Não posso. Irei precisar dos serviços dele e não seja malcriada, ele está sendo gentil em ir buscá-la.

— Dispenso gentilezas dele. — digo, frustrada por saber que será em vão todas as minhas lamentações.

— Quero saber até quando você irá se comportar como uma menininha mimada e sem educação. Seu pai não iria gostar nada de ver o seu mau comportamento, Julha. Agora estou sem tempo, mas não pense que vai se livrar de uma boa conversa, mocinha.

Ah, que ótimo!

Não gosto quando ela faz esse jogo sujo, usando exemplos do que meu pai aprovaria ou não em mim. Se ela não fizesse isso, não seria Katherine Cloney.

— Será que só as minhas atitudes que o deixaria decepcionado, mamãe? — rebato.

Não gosto de brigar com a minha mãe, mas só quero que ela entenda que não sou obrigada a aceitar esse casamento ridículo. Respeito, mas não aceito, bem diferente.

— Não vou discutir com você por telefone, Julha Thompson. Diferente de você, tenho muito trabalho para fazer. Falaremos depois. — ela grita e eu afasto o telefone do ouvido para não ter problemas de audição no futuro.

Encerro a ligação com a minha mãe chateada por nossa breve discussão. Arrumo as minhas coisas e vou, acompanhada de Ane, para a sala de estar aguardar o chato do meu padrasto. Ficamos conversando sobre o encontro que Ane terá dentro de alguns dias com um garoto da escola. Ela está empolgada, e eu preocupada que o garoto não seja mais um babaca como Caleb.

Preocupo-me com a minha amiga, sei que Ane é do tipo de garota sonhadora e romântica. Sonha em se casar e ter filhos. Ela não tem muita sorte no amor, segundo suas palavras, mas não desiste de tentar.

Ane é diferente de mim. Eu ainda não havia me apaixonado por um garoto, nem penso nisso. Até imaginei a hipótese de perder a virgindade com um cara qualquer só para irritar a minha mãe, mas desisti assim que o babaca do Caleb aprontou com a Ane.

É, pensando bem, essa não é uma forma correta de fazer algo que teria que acontecer com uma pessoa especial. Alguém por quem eu me apaixonasse perdidamente e que fizesse valer a pena.

Ouço a buzina do carro de Christopher, pego a mochila, me despeço de Ane e vou a caminho do carro do meu padrasto.

Tomo meu lugar no banco do passageiro, coloco o cinto de segurança e em poucos minutos o carro percorre as ruas. Coloco meus fones de ouvido, me aconchego sobre o banco, ignorando a presença dele.

Ele também me detesta e faz questão de demonstrar isso. Ótimo! Assim nos damos muito bem, ele não gosta de mim e eu muito menos dele. Sendo assim, é desnecessário trocar falsas gentilezas.

O trânsito fluí bem, não demoramos muito para chegar em casa. Desço do carro antes mesmo de ele estacionar, bato a porta com tudo porque sei que ele detesta.

— Quebra! Garota insuportável... — grita, saindo do carro.

Claro que não fico por baixo e grito de volta ainda mais alto.

— Eu também gosto de você. — adentro a casa, passo pela sala, tomo o caminho da escada e sigo para o meu quarto.

Exausta e tomada pela irritação que meu padrasto me causa, entro em meu quarto, tiro o uniforme, ficando apenas vestida em minha lingerie, que é completamente transparente.

Já estou me preparando para tomar um delicioso banho, quando ouço a porta do quarto sendo aberta bruscamente.

— Olhe aqui, garota, eu...

Fico estática ao ver Christopher invadir o meu quarto como um furacão. Ficamos nos encarando por alguns minutos, então me dou conta que estou vestindo apenas a minha pequena lingerie quando encontro os seus olhos desejosos queimando sobre o meu corpo. Estremeço, e em seguida corro em busca de algo que possa me salvar do momento constrangedor.

Minhas mãos alcançam a primeira coisa que vejo: o cobertor que está sobre a cama. Rapidamente, eu o pego e envolvo em meu corpo, que há minutos estava apenas coberto por minha pequena lingerie, impedindo a visão completa do meu padrasto, que me fita com os olhos famintos.

Merda!

Coro, e acredito que neste momento estou muito mais vermelha do que um tomate maduro, enquanto ele parece hipnotizado com a imagem que vê à sua frente.

— Com ordem de quem você invade o meu quarto? — pergunto e minha voz soa ríspida.

Ele abre e fecha os lábios, abre mais uma vez e sei que está procurando as palavras corretas para a sua defesa, mas não diz nada, continua estático, encarando o meu corpo como quem contempla uma obra de arte.

Estou constrangida!

Que droga!

Por que ele simplesmente não bateu à porta antes?

Engulo em seco quando vejo que ele passa a língua sobre os lábios, em um movimento sexy, umedecendo-os.

Pela primeira vez desde que casara com a mamãe, Christopher faz com que eu sinta uma estúpida vergonha. Nunca havia ficado de lingerie na frente de um homem. Não que eu não pense nisso, mas estar praticamente nua na frente do meu padrasto é algo que, sem dúvidas, nunca havia passado pela minha cabeça.

Por que ele está me olhando com a mesma cara de um caçador que encontrou a presa?

Ele continua a me encarar, e ver a forma como ele me devora com os olhos faz com que eu sinta a minha intimidade umedecer.

Uma corrente elétrica percorre o meu corpo, minhas pernas parecem gelatinas, não consigo esboçar nenhuma reação e fico como ele, estática, fitando-o enquanto seus olhos devoram meu corpo, agora coberto pelo tecido macio do cobertor. Seus olhos fitam meu rosto e noto a sua expressão de caçador dar lugar a uma enfurecida.

Ogro estúpido!

Ele pensa que pode me intimidar.

Reviro os olhos e solto uma bufada antes de dizer:

— O que você quer? Não possui mãos? Vai entrando no quarto das pessoas sem bater. Além de insuportável é também estúpido? — cuspo a palavras.

Ele me fita com as sobrancelhas arqueadas, surpreso com o meu comportamento, mas não demora muito para a sua expressão dar lugar a um sorriso irônico, que o deixa ainda mais bonito.

Como eu não havia notado o seu lindo sorriso antes?

— Vim aqui lhe dizer algumas verdades, coisa que alguém já deveria ter feito. — rebate, me despertando do meu devaneio. Sua voz soa ríspida, então me fita com os olhos cerrados.

Arqueio as sobrancelhas, surpresa com a sua audácia.

Como ele pode ser tão idiota?

Com quem ele pensa que está falando para gritar assim?

Gargalho, o que o deixa ainda mais furioso.

Babaca!

Entra no meu quarto sem ser convidado e vem querer me dar lição de moral?

É só o que me faltava.

Se ele pensa que vai me falar um monte de desaforos e eu vou ficar calada ouvindo cada um deles, está muito enganado.

Caminho em direção à porta, ignorando completamente a sua presença. Passo por meu padrasto e bato meu ombro com o dele, de propósito, é claro. Ele me segue, eu me viro e o vejo próximo a mim, muito mais próximo do que deveria estar.

Eu sei que ele está querendo me intimidar!

— Com certeza eu devo ouvir! — paro e fico na ponta dos pés para ficar na mesma altura que ele. Meus olhos encontram os dele e por um momento eu me perco em suas íris azuis.

Foco, Julha Thompson.

Ele me encara, irritado, e seus olhos me fitam profundamente. Desconfortável, desvio os olhos dos dele e por fim, digo:

— Posso até concordar com você, mas pode ter certeza que não será de você que irei ouvir as tais verdades. Agora, saia do meu quarto, Christopher. — grito, furiosa.

Ele fica ainda mais irritado. Mesmo nos odiando, nos alfinetando o tempo todo, ele nunca havia feito tamanha grosseria. ele agarra o meu antebraço, segurando-o com força, em seguida bate a porta, fazendo as janelas do quarto tremerem.

Esse idiota está indo longe demais.

Eu o encaro com os dentes cerrados.

Se ele pensa que tenho medo dele, está muito enganado.

Ele vai ver do que sou capaz de fazer.

— Me solta! — grito, enfurecida. — Você não é meu pai para falar assim comigo. — continuo gritando e me debatendo na tentativa frustrada de que ele me solte. Ele aperta ainda mais e sinto o local onde está a sua mão arder. — Solte-me, seu idiota. Você pensa que é meu pai para falar assim comigo? — continuo com os insultos, mas ele está decidido a me aplicar uma lição.

Ele me puxa mais para perto, colando seu corpo ao meu, e aproxima seus lábios dos meus, dizendo:

— Graças a Deus que não sou o seu pai, porque se fosse, já teria dado um jeito em você, menina mimada, chata, arrogante! — grita e em seus olhos eu vejo o ódio.

Dane-se!

Pouco me importa se ele não morre de amores por mim, ele só tem que entender que não tem o direito de me agredir.

— Christopher, é melhor me soltar. Minha mãe vai ficar sabendo disso, e pode ter certeza que não vai gostar nadinha. — eu o ameaço, mas ele parece nem ouvir as palavras que acabo de pronunciar.

Seus olhos estão grudados nos meus, sua respiração ofegante se mistura com a minha, seu hálito de menta invade as minhas narinas e por alguns minutos, sinto o meu coração parar.

Mas que porra está acontecendo aqui?

Christopher chacoalha a cabeça como se quisesse afastar para longe pensamentos que o perturbam, e volta a me encarar com cara de poucos amigos.

— Não me provoque, Julha. Você não sabe do que sou capaz. — rebate com os dentes cerrados.

Oi?

É isso mesmo?

Ele está me ameaçando?

Cuidado, Christopher Cloney, vou fazer da sua vida um inferno.

Não me importo se ele quer me ver pelas costas, porque da minha parte é recíproco. O que é dele está guardado. Se ele pensa que pode sair me ameaçando e eu vou ficar sem fazer nada, pobre homem, ele realmente não conhece quem é Julha Thompson.

— O que vai fazer? Bater-me? — pergunto, desafiadora. — Vá em frente, me bata e eu acabo com a sua vida, gigolô maldito. Eu te odeio, Christopher Cloney. Eu te odeio! — grito como uma louca e minha voz soa pelo quarto.

Com o rosto vermelho tomado pelo sentimento de raiva que o consome, ele ergue uma de suas mãos, preparando para me esbofetear. Instantaneamente, abaixo a cabeça e com os olhos fechados, espero sua mão vir de encontro ao meu rosto, já imaginando que me deixará marcada.

Com movimentos bruscos, Christopher solta o meu braço e passa as mãos sobre o cabelo, visivelmente irritado, e caminha de um lado para o outro, acredito eu, pensando na loucura que iria cometer.

Eu massageio o local atingido por ele e tenho a consciência que na maioria das vezes eu o provoco, que não lhe dou uma trégua e o ataco um dia sim e outro também. Mas isso não lhe dá o direito de levantar a mão para me agredir.

Um nó se forma em minha garganta.

Não posso chorar, não na sua frente, não posso me comportar como uma garotinha fraca.

Raiva eu sinto quando falho na tentativa de segurar uma lágrima, que agora rola pelo meu rosto. Ódio é o sentimento que agora aperta o meu peito. Ódio é o que irei sentir, dia após dia, do meu padrasto. Se em algum momento ele pensou que nos daríamos bem, o que eu acho pouco provável, mandou para bem longe esse pensamento no exato momento em que meus olhos o fitam, odiosos.

Meu desprezo por ele será eterno.

Noto o quanto ele está nervoso, transpirando. Mais uma vez passa as mãos sobre o cabelo e esse pequeno gesto o deixa tão... Tão... Sexy.

Mas por que você está pensando nisso, Julha?

Seu padrasto?

Sexy?

Reviro os olhos e afasto os malditos pensamentos que agora martelam em minha cabeça. Volto a atenção para Christopher, que me fita com ódio.

Qual é o problema dele?

Eu que sou agredida e ele quem fica com raiva?

Meu coração bate acelerado e eu tenho a impressão de que a qualquer momento vai sair pela boca.

Sou despertada do meu devaneio quando a sua voz, rouca e autoritária, o jeito Christopher de ser, se dirige a mim.

— Você é uma garota que me causa nojo. — diz e eu arqueio as sobrancelhas, surpresa com a sua declaração escancarada. Não que isso seja novidade, digo, em relação a ele dizer não gostar de mim, mas sim por dizer com todas as letras o quanto eu o enojo. — Não adianta ter o rostinho e corpinho bonito e ser tão desprezível como é. Se eu fosse o seu pai, teria vergonha de tê-la como filha.

Tenho consciência que a nossa discussão não irá nos levar a lugar algum, mas a raiva de ouvir seus insultos me deixa possessa e não consigo deixar a minha língua quieta dentro da boca.

— Quantas vezes vou ter que repetir que você não é meu pai, que não chega nem aos pés dele, não, melhor, você não chega aos pés de homem nenhum. Para mim, você é só um merda, um capacho da minha mãe. Babaca. — grito.

Não consigo controlar as malditas lágrimas que caem constantemente e me odeio por isso.

Ele bufa, revira os olhos e um sorriso irônico se forma em seus lábios.

— Você é só uma patricinha mimada, uma garota idiota que não consegue ficar feliz nem mesmo com a felicidade da própria mãe. Você vai morrer sozinha, porque, qual seria o ser humano que, em sã consciência, se envolveria com você? O cara deve sofrer de algum distúrbio, assim como você. — gargalha e joga a cabeça para trás.

Se tem algo que Christopher e eu fazemos com excelência é discutir. Ele tenta me controlar e eu quero obrigá-lo a me engolir, e entre nós dois fica a minha mãe, que briga comigo por eu ser tão mimada e muitas vezes ter um comportamento infantil, e briga com o imbecil do seu marido por discutir com uma adolescente revoltada, segundo suas palavras.

Não tenho certeza e nunca terei, mas acredito que ela viaje muito por não conseguir conviver conosco dentro da mesma casa. Culpa dela. Quem mandou se casar com esse idiota?

Ela tem o péssimo hábito de dizer que sou revoltada. Eu não sei de onde ela tirou essa ideia. Será que ela não vê que o meu comportamento mudou depois que trouxe esse imbecil para morar conosco. Claro que não. Hoje a minha mãe não se importa tanto comigo como antes. É como se vivesse em um mundo onde existe apenas ela e Christopher. Ela é jovem e tem todo o direito de refazer a vida, eu nunca disse que não aprovaria um suposto relacionamento que ela viesse a ter, mas penso que ela deveria ter esperado mais um pouco e não se casar com o primeiro idiota que aparecesse.

Christopher me encara com uma expressão que não consigo decifrar ao me ver chorando. Também não me importo com o que ele pensa de mim, eu o quero fora do meu quarto.

— Odeio você, odeio você, quero que você morra. — grito, descontrolada, dando socos em seu peito para que ele saia.

Ele segura firme os meus pulsos, me fazendo parar. A minha respiração se torna ofegante, meu cabelo desgrenhado cai em mechas sobre o meu rosto, me dando a certeza de que a minha imagem não está nada apresentável.

Com movimentos bruscos, eu puxo os meus pulsos, desequilibro-me e caio e uma fisgada na bunda me alerta o quão grande foi a queda. Ele ignora a imagem patética diante dos seus olhos e sai, me deixando caída acompanhada das minhas lágrimas.

Meu sentimento de ódio por ele aumenta a cada dia. Eu sei que não é certo desejar a morte de alguém, mas em meu momento de fúria, desejo que Christopher Cloney morra e suma para sempre das nossas vidas.

Eu fico não sei por quanto tempo sentada no chão, enrolada no cobertor, com a companhia das minhas lágrimas. Por um momento, eu quero que tudo aquilo não passe de um pesadelo, mas não, é a mais pura realidade. Uma realidade cruel que a cada dia me faz sofrer mais e mais.

Agarro-me ao resto de dignidade que me sobra e me levanto com dificuldade, ainda sentindo as nádegas doloridas, e caminho lentamente para o banheiro. Coloco em prática o meu plano de tomar banho antes de ser distraída pelo meu padrasto.

Adentro a minha banheira imersa em pensamentos, quando ouço passos no banheiro. Olho na direção de onde vem o som e vejo Ada entrando no banheiro acompanhada do aparelho telefônico sem fio.

— Julha, está tudo bem? — pergunta Ada ao ver meus olhos vermelhos de tanto chorar.

Não gosto de preocupar Ada com os meus problemas, eu sei o quanto ela teme que eu siga por caminhos errados. As pessoas me veem como uma adolescente revoltada e inconsequente, já têm essa opinião sobre mim. Mas eu não sou assim. Apenas digo o que penso e isso, às vezes, não é visto com bons olhos por alguns. Dizer o que se pensa pode parecer rebeldia ou seja lá o que as pessoas gostam de rotular, mas eu sei que há uma grande diferença entre dizer e se comportar como uma adolescente inconsequente. Assinto com a cabeça, o que eu menos preciso agora é de pessoas me enchendo de perguntas.

Ada não é apenas uma pessoa que nos presta serviço e no fim do dia vai embora viver sua vida, mamãe a tem como uma amiga confidente. Eu não sei exatamente há quanto tempo Ada está conosco, somente que ela já trabalhava para o papai e mamãe quando eu nasci. E por esse motivo, ela tem a total confiança da mamãe, que na falta dela, tem toda a liberdade de me dar broncas e puxar as minhas orelhas se preciso for. Não me incomoda nem um pouco a sua autoridade sobre mim. Ela cuida de mim porque sei que me ama e me quer bem, e eu a amo também.

— Sua mãe quer falar com você. — ela estende o telefone em minha direção.

Neste exato momento, tudo que eu não preciso é de uma conversa com a minha mãe, que é a única culpada por ter se casado com esse homem insuportável que ela colocou dentro da nossa casa.

Ada me observa atentamente com os olhos cerrados quando nota que me oponho em pegar o aparelho de suas mãos. Ela insiste, direcionando o aparelho a mim. Reviro os olhos, frustrada, e se a conheço bem, ela não desistirá enquanto eu não atender à ligação. Rapidamente me passa a péssima ideia de contar tudo o que houve para ela, mas o melhor a fazer é me manter calada. Ela se comportaria como sempre, ficando ao lado de Christopher ou dizendo que é apenas a minha imaginação fértil. Respiro fundo para não deixar que ela note que eu havia chorado, coloco um falso sorriso nos lábios e pego o aparelho das mãos de Ada, que me fita com uma expressão serena.

— Mãe. — atendo sem emoção.

— Oi, filha. Quanta demora para atender a um telefone. — bufa. — Está tudo bem? — pergunta.

Fico intrigada com a possibilidade que ela já tenha conversado com o Christopher e ele tenha lhe contado tudo.

Não, não havia dado tempo de ele ter dado com a língua nos dentes. Reviro os olhos e encosto a cabeça na borda da banheira. Se ele não disse nada, não será eu quem irá dizer.

— Sim, está. — minto.

— Que bom. Acredito que não tenha se esquecido do nosso jantar. Liguei para dizer que não irá dar tempo de ir para casa, então encontrarei você e o Christopher no restaurante. — diz, autoritária.

— Eu tenho outra escolha? — pergunto, mesmo sabendo qual será a sua resposta.

— Não. — diz, ríspida.

— Não sei por que ainda pergunto. — digo, frustrada.

— Também amo você, querida. — diz sem me dar tempo de recusar.

— Também amo você, mamãe.

Encerro a ligação e entrego o aparelho para Ada, que me fita com um largo sorriso nos lábios. Eu sorrio sem ânimo com o canto da boca e ela gargalha, divertida, e sai.

Termino o meu banho e saio vestindo o roupão. Começo a me produzir escovando o cabelo, em seguida, alguns cachos nas pontas.

Faço uma maquiagem leve e passo um batom rosa matte. Sigo até o closet e escolho um vestido modelo tubinho azul um pouco acima dos joelhos. Calço um par de sandálias preta altíssima, passo o meu perfume preferido, alguns acessórios, pego a bolsa de mão, também preta, e estou pronta.

Sigo até a sala de estar, onde Christopher deveria me aguardar. Vou em direção ao bar e lá está ele, sentado de costas para mim tomando alguma bebida, que parece ser uísque. Christopher se vira para mim assim que percebe minha presença.

Nossa, nossa, nossa!

Fico boquiaberta ao ver como ele está lindo vestindo um terno de risca de giz e cabelo molhado indicando que acabara de sair do banho. Ficamos em silêncio por alguns minutos. Ele me encara de uma forma que não sei bem dizer se está me achando bonita ou feia, ou se me odeia tanto ao ponto de não suportar me ver à sua frente. Até que meus pensamentos me fazem recordar de suas palavras de ainda hoje.

“Tenho nojo de você!”

Chacoalho a cabeça, afastando para longe os pensamentos perturbadores da minha discussão com Christopher e engulo em seco diante do mesmo olhar de caçador que me fitara antes da nossa discussão constrangedora.

— Estou pronta! — digo, me virando para sair.

— Julha! — paro antes de atravessar a porta ao ouvi-lo pronunciar o meu nome e me viro em sua direção.

Ele engole em seco e passa uma de suas mãos em seu cabelo, um simples gesto que ele faz com maestria enquanto fita meus olhos, e diz:

— Quero lhe pedir desculpas. — ele suspira e eu o fito com uma das minhas sobrancelhas arqueada. — Eu me excedi e... — antes mesmo que ele continue, ignoro o seu pedido de desculpas.

Pensa que é simples assim, Christopher Cloney?

Fala a merda toda e depois se desculpa? Não!

— Bem, eu já estou acostumada. — digo, ríspida.

Viro-me e sigo para a sala, mas consigo ouvi-lo suspirar antes que seus passos largos me acompanhem.

— Julha, olha para mim. — pede e sua mão alcança o meu pulso, me fazendo parar.

Estremeço.

Com movimentos bruscos, Christopher me vira, fazendo com que eu fique de frente para ele. Encaro onde a sua mão toca o meu braço, e ele, por fim, a tira rapidamente e me olha nos olhos. Digo friamente:

— Vamos nos atrasar. — eu me viro para sair, mas ele me impede mais uma vez e volta a tocar o meu braço.

— Julha, eu...

— Christopher. — eu o interrompo antes mesmo que ele continue. Puxo meu braço de volta, fitando meu relógio de pulso e puxo o ar para os pulmões, repetindo:

— Eu já disse que vamos nos atrasar. — saio e caminho para a garagem, mas ainda o ouço bufar.

Idiota!

Dirigimo-nos para o carro, e antes mesmo que eu faça o gesto de abrir a porta do carro, Christopher se coloca ao meu lado, passa a mão em volta da minha cintura e me puxa para o lado, colando o seu corpo ao meu. Nossos olhos se cruzam por alguns instantes e em um gesto de cavalheirismo, abre a porta para que eu me acomode no banco de couro da sua Ferrari.

Assinto com a cabeça em agradecimento e ele retribui com o seu mais lindo sorriso.

Tão lindo e tão idiota.

Ele tem problemas mentais, com certeza. Há algumas horas, por pouco não me agrediu, e agora se mostra gentil e educado. Se ele pensa que agindo assim vai mudar a repulsa que tenho por ele, está muito enganado.

Minutos depois, o carro percorre a avenida. Seguimos em silêncio por todo o caminho. Algumas vezes, eu vejo Christopher abrir os lábios a procura de algum assunto, mas desiste assim que me ouve bufar.

Não tenho nada para conversar com esse homem, e antes mesmo que ele puxe assunto e eu não tenha como me esquivar, disco o número de Ane, que atende no terceiro toque.

— Oi, amiga! Imaginei que já estivesse no jantar com a sua mãe. — diz ao atender.

— Em alguns minutos. O que está fazendo? — pergunto e olho pela janela quando noto os olhos de Christopher sobre mim.

— Vendo TV e falando com o Bruno.

Sorrio. Ane é realmente decidida quando quer algo, somos muito parecidas em alguns aspectos. Ela tem um gosto eclético, eu também, eu amo moda e ela também, só não somos parecidas quando o assunto são coisas do coração.

— Vai rolar quando? — ela já sabe do que se trata a minha pergunta e não precisa que eu entre em detalhes.

Christopher está ao meu lado e se ele conta para a minha mãe sobre a suposta transa de Ane, ela vai dar com a língua nos dentes para a Sra. Clark.

Ane está saindo com Bruno e marcaram para transar. Depois que ela perdeu a virgindade com Caleb e o idiota saiu contando para todos da escola, ela ficou traumatizada e não saiu com mais ninguém. Agora está dando mais uma chance depois que conheceu Bruno e se apaixonou por ele.

— No fim de semana! — diz e posso imaginar o sorriso de satisfação em seus lábios.

— Ótimo, vou querer saber de tudo. — noto que já estamos quase chegando, então decido me despedir de Ane e encerro a ligação.

Estou distraída guardando o celular na bolsa, quando ouço a sua voz rouca com uma pitada de ironia.

— Não precisava usar a desculpa de falar com a sua amiga para evitar a minha companhia. — ele diz e me lança um fodido e sexy sorriso irônico.

Insuportável!

— Saiba que gosto disso em você. — ele me fita com as sobrancelhas arqueadas sem nada entender. Eu também ficaria ao ouvir de alguém tal afirmação que só pronuncia palavras de ódio. É realmente surpreendente. — Sua capacidade de percepção. — digo e saio do carro assim que paramos em frente ao restaurante.

— Idiota! — eu o ouço gritar.

Gargalho e jogo a cabeça para trás.

Rapidamente, a minha mãe vem ao nosso encontro, me dá um beijo estalado no rosto seguido de um beijo quente em Christopher, que eu não sei em qual momento apareceu ao meu lado.

Nós nos juntamos aos convidados de minha mãe, que é um casal acompanhado de um belo jovem de olhos e cabelo escuros, que não tira os olhos de mim desde o momento em que me vê.

Tenho certeza que a minha mãe havia planejado aquilo tudo de propósito, ela sempre diz que eu preciso arrumar um namoradinho, me apaixonar e blá blá blá.

Olhando por outro lado, até que o cara é legal, mas isso não quer dizer que estou à procura de um namorado, e às vezes tenho a impressão de que a minha mãe nunca entenderá isso. Minha mãe faz as apresentações entre nós e eu descubro que o belo jovem atende pelo nome de Giovanni.

Logo a minha mãe e Christopher engatam em uma conversa animada com o casal, e eu com Giovanni, que me parece ser um bom garoto. Ele tem um papo legal e me faz rir de algumas piadas que conta. Sempre admirei isso nas pessoas, a capacidade de nos fazerem rir, porque em minha opinião, rir é o melhor remédio para qualquer situação.

Giovanni, além de ser muito gato, é educado, o conjunto perfeito.

Okay, tenho que admitir que o jantar não está tão entediante.

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Capa do romance A Ex-Esposa Desprezada e a Sua Coroa de Glória
9.6
No auge da sua carreira, uma designer vence um prêmio importante, mas seu marido, Miguel, a abandona para consolar a ex-namorada. Humilhada publicamente por uma foto nas redes sociais, ela confronta o descaso dele e da sogra. Após ser demitida da empresa da família e bloqueada por pedir o divórcio, ela decide que não será mais a vítima. Determinada a expor as mentiras e a traição, ela contrata um detetive para destruir quem tentou arruinar sua dignidade.
Capa do romance A Fuga do Adorável Mentiroso
8.0
O noivado de Lucía e Mateo exala perfeição, mas o brilho da festa oculta uma realidade sombria. Mateo, longe de ser o homem ideal, vive uma farsa sustentada por mentiras. O caos se aproxima com Dana e Clara, mulheres de seu passado que esperam filhos dele em segredo. Enquanto as felicitações ecoam, Mateo luta contra o pavor de ser desmascarado. Entre o amor por Lucía e o peso de suas traições, ele verá sua fachada de homem perfeito ruir diante das consequências.
Capa do romance Apenas Me Ame (DEFICIÊNCIA)
8.1
Alvo constante de deboche e olhares de piedade por sua forma de caminhar, uma jovem aprendeu a conviver com as limitações de sua deficiência desde o nascimento. Sua rotina de isolamento e superação sofre uma reviravolta drástica ao cruzar o caminho de Eros Campbell. Ciente de que esse encontro transformará sua existência para sempre, ela agora enfrenta a incerteza de que essa mudança trará a felicidade esperada ou novos desafios dolorosos.
Capa do romance Brenda: Pecado & Poder
9.3
Criada no luxo da família Montreal apesar da origem humilde, Brenda Ortiz Dark não busca gratidão, mas o controle absoluto. Seu alvo principal é Gregório Montreal, o enigmático e poderoso CEO. Movida por uma ambição implacável, ela usa sedução e manipulação para reivindicar o status que acredita merecer. Em um jogo perigoso de desejo e poder, Brenda desafia limites para conquistar o homem inatingível, provando que não espera pelo destino; ela simplesmente o toma.
Capa do romance Casamento relâmpago com um bilionário
8.2
Rhonda sustentava o namorado desempregado, mas foi traída por ele com sua amiga. Arrasada, ela decide se casar com Eliam, um estranho que promete cuidar de tudo. Embora cética, ela descobre um marido gentil que alavanca sua carreira e resolve qualquer problema. O mistério surge quando Rhonda nota que o homem na capa de uma revista global de negócios é idêntico a Eliam. Seria ele um bilionário disfarçado ou apenas um sósia com segredos profundos?
Capa do romance Legionário
8.8
Éveline Girauld, brilhante agente das forças especiais, dedica sua vida a proteger os vulneráveis. Sua carreira impecável é desafiada por uma crise nacional que exige uma aliança com a Legião Estrangeira, grupo que ela despreza. Lá está Amir Laforge, ex-piloto assombrado por traumas que busca redenção no exército. O destino une esses dois soldados em uma missão perigosa, forçando-os a encarar medos internos e a chance de um amor inesperado em meio ao dever.