
O Oceano do Luto: Encontrando a Paz em Sesimbra
Capítulo 2
Quando o médico me disse que a minha mulher, Sofia, tinha morrido, eu estava sentado no chão frio do corredor do hospital. O meu filho de cinco anos, Léo, dormia no meu colo, exausto de tanto chorar.
As suas últimas palavras para mim foram um pedido sussurrado ao telefone.
"Miguel... o Léo... ele está com febre alta... por favor, vem para casa..."
Eu não fui.
Naquela altura, eu estava no hospital com a minha irmã, Clara, que tinha tentado suicidar-se outra vez.
"Miguel, a Clara precisa de ti. A tua mulher é uma adulta, ela consegue levar uma criança ao médico sozinha. Mas a Clara só te tem a ti!", a minha mãe tinha gritado ao telefone.
Agora, a Sofia estava morta. Uma meningite bacteriana fulminante, disseram os médicos. Se tivessem chegado umas horas antes, talvez ela tivesse uma hipótese.
Umas horas. O tempo exato que passei a consolar a Clara e a acalmar a minha mãe.
O meu telemóvel vibrou no bolso. Era a minha mãe.
"Miguel, querido, como estás a aguentar? A Clara finalmente adormeceu. O médico disse que ela está estável por agora. Pobrezinha, ela passou por tanto."
A voz dela era suave, cheia de uma preocupação que ela nunca mostrou pela Sofia.
"Mãe", a minha voz saiu rouca, um som estranho. "A Sofia... morreu."
Houve um silêncio do outro lado da linha. Não foi um silêncio de choque ou de dor. Foi um silêncio de cálculo.
"Oh, meu Deus. Isso é... terrível. Mas Miguel, tens de ser forte. Pelo Léo. E pela Clara. Ela não pode saber disto agora, o choque seria demasiado para ela."
Ser forte.
"Eu vou pedir o divórcio", disse eu, as palavras a saírem antes que eu pudesse pensar. Mas não, não era um divórcio. A Sofia já se tinha ido.
"Vou cortar relações convosco", corrigi, a voz a ganhar uma clareza fria.
A fúria da minha mãe explodiu.
"Como te atreves? Depois de tudo o que fiz por ti? A tua irmã quase morreu! E tu preocupas-te com aquela mulher? Ela foi negligente! Que tipo de mãe não leva o filho doente ao hospital imediatamente?"
"Ela ligou-me, mãe. Ela pediu-me para ir para casa. Ela disse que o Léo estava a arder em febre e ela não se sentia bem."
"E tu fizeste a escolha certa! A família vem primeiro! A Clara é o teu sangue!"
Família. O meu filho, a dormir no meu colo, era a minha família. A minha mulher, deitada numa sala fria algures neste mesmo edifício, era a minha família.
E eu tinha-a abandonado.
"Não me voltes a ligar", disse eu.
"Miguel, não sejas ridículo! Precisas de nós! Como vais cuidar do Léo sozinho? E o funeral? Precisas de apoio!"
Desliguei o telefone. Bloqueei o número dela. Depois fiz o mesmo com o número da Clara.
Olhei para o rosto adormecido do Léo. As suas bochechas ainda estavam rosadas da febre que agora cedia. A Sofia tinha-lhe dado o remédio antes de desmaiar. Ela cuidou do nosso filho até ao seu último momento.
Eu não estava lá.
A culpa era uma coisa física, um peso no meu peito que me impedia de respirar fundo.
Eu escolhi a minha família de origem em vez da família que construí. E essa escolha custou a vida da Sofia.
A minha mãe estava errada. A Clara não tinha apenas a mim. Ela tinha a minha mãe, que a desculparia sempre. A Sofia e o Léo só me tinham a mim.
E eu falhei-lhes.
De repente, o telemóvel do Léo, que eu tinha posto no bolso, começou a tocar uma melodia infantil. Era o alarme que a Sofia programava todas as noites. "Hora da história, meu amor."
O som encheu o corredor silencioso.
A minha garganta fechou-se.
Peguei na mãozinha do Léo. Estava quente. Viva.
E eu jurei a mim mesmo, ali no chão frio do hospital, que a partir daquele momento, cada respiração que eu desse seria para ele.
Eu seria o pai que a Sofia queria que eu fosse. E nunca mais deixaria ninguém fazer mal ao meu filho. Nem mesmo a minha própria família.
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