
O Oceano do Luto: Encontrando a Paz em Sesimbra
Capítulo 3
O funeral foi pequeno. Só eu, o Léo e alguns amigos da Sofia do trabalho. A minha família não apareceu. Eu não os convidei.
O Léo agarrou-se à minha perna durante toda a cerimónia, demasiado pequeno para entender a permanência da morte, mas grande o suficiente para sentir a ausência.
"O papá está aqui", era tudo o que eu conseguia dizer, repetidamente.
Depois do enterro, voltei para uma casa que parecia demasiado grande e silenciosa. O cheiro da Sofia ainda estava nos lençóis. O seu livro estava na mesa de cabeceira, com um marcador na página onde ela parou.
Tudo era uma recordação da minha falha.
Nos dias que se seguiram, a minha mãe tentou contactar-me através de outros parentes. Tios e primos ligaram, as suas vozes uma mistura de falsa simpatia e recriminação.
"A tua mãe está muito preocupada."
"A Clara não está a reagir bem ao teu silêncio."
"Precisas de perdoar. A vida continua."
Eu ignorei todas as chamadas.
Uma semana depois, uma carta chegou. A caligrafia da minha mãe, elegante e controladora. Não a abri. Atirei-a para o lixo, juntamente com os restos do jantar.
A minha rotina tornou-se simples: acordar, fazer o pequeno-almoço do Léo, levá-lo à escola, ir para o meu trabalho como arquiteto, buscá-lo, fazer o jantar, dar-lhe banho, ler uma história e deitá-lo.
Em cada passo, eu via a Sofia. A forma como ela cortava a fruta do Léo em formas de estrela. A canção que ela cantava durante o banho. Os livros que ela escolhia para a hora de dormir.
Eu tentei imitar tudo, um ritual de penitência.
Uma noite, o Léo acordou a chorar.
"Quero a mamã."
Fui para o quarto dele e sentei-me na beira da cama. O seu corpo pequeno tremia com os soluços.
"Eu sei, campeão. Eu também quero."
Abracei-o com força, o meu próprio queixo a tremer. Foi a primeira vez que chorei desde a noite em que ela morreu. Chorei silenciosamente no cabelo do meu filho, para que ele não visse.
"A mamã amava-te muito, Léo. Mais do que tudo."
"Ela vai voltar?", perguntou ele, a sua voz abafada contra o meu peito.
O meu coração partiu-se de novo.
"Não, meu amor. Ela não vai voltar. Mas ela está sempre connosco. Aqui." Coloquei a mão dele sobre o seu próprio peito. "E aqui." Apontei para a minha cabeça. "Nas nossas memórias."
Ele acabou por adormecer nos meus braços. Levei-o de volta para a sua cama, mas não consegui sair do quarto. Sentei-me na cadeira de baloiço no canto, a mesma onde a Sofia o embalava quando ele era um bebé, e observei-o a dormir até o sol nascer.
Naquele momento, percebi que a dor não ia desaparecer. Eu teria de aprender a viver com ela, a carregá-la. E a minha única prioridade era garantir que o Léo se sentisse seguro e amado, apesar do buraco gigante que a vida nos tinha deixado.
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