
O Novo Começo da Namorada Invisível
Capítulo 2
"Uau!", exclamei, minha voz ecoando um pouco alto demais na galeria de arte silenciosa. Uma escultura abstrata colossal, feita de metal retorcido e vidro cintilante, dominava o centro da sala. Parecia uma tempestade congelada no tempo. "É... é absolutamente incrível!"
Bruno riu, um som genuíno e alegre que cortou os murmúrios educados dos outros visitantes. Ele estava ao meu lado, a cabeça inclinada para trás, admirando a peça com uma intensidade que eu não esperava. Seu motivo inicial e transparente para estar aqui parecia a um milhão de quilômetros de distância.
"Incrível é uma boa palavra", ele concordou, seus olhos brilhando. "Tem coragem. Não está tentando ser nada além do que é."
Senti um calor se espalhar por mim, uma sensação de excitação pura e genuína que eu não me permitia sentir há anos. Meu ex-namorado, Eduardo, teria chamado isso de "pretensioso" ou "um desperdício frívolo de recursos". Ele teria dissecado seu valor de mercado, não sua alma.
"Não acredito que nunca experimentei algo assim antes", murmurei, uma vulnerabilidade repentina em minha voz. "É... avassalador da melhor maneira possível." Uma lágrima brotou no canto do meu olho, uma manifestação física da emoção que borbulhava dentro de mim.
Bruno notou imediatamente. Ele não perguntou o que havia de errado. Ele simplesmente estendeu a mão, pegando a minha gentilmente. Seu polegar esfregou círculos suaves na minha pele. Ele não disse nada, apenas me deixou sentir.
Depois de um momento, ele apertou minha mão. "É bom sentir as coisas, Alícia", disse ele, sua voz suave, quase um sussurro. "Sentir de verdade. Você tem permissão para isso."
Olhei para ele, minha visão ainda um pouco embaçada pelas lágrimas não derramadas. Ele me observava com uma expressão de triunfo silencioso, como um cientista observando um experimento bem-sucedido. Era uma estranha mistura de cuidado genuíno e satisfação calculada.
Uma parte de mim, a parte que ainda estava na defensiva, sabia que ele estava gostando disso. Ele viu uma reação emocional genuína e, em sua mente estratégica, isso era uma vitória. *Ele se importa*, pensei, uma vozinha na minha cabeça, *e está emocionado por eu estar deixando ele ver isso*.
"Sabe", ele continuou, ainda segurando minha mão, "quando alguém se sente seguro o suficiente para te mostrar suas emoções cruas, significa que você está fazendo algo certo. Significa que confiam em você." Ele disse isso com uma convicção tão sincera que quase acreditei que ele estava puramente focado em mim.
Puxei minha mão de volta gentilmente, um pequeno sorriso tocando meus lábios. "Você entende muito de arte, para alguém que finge ser apenas um riquinho com tempo de sobra."
Ele deu de ombros, um brilho brincalhão voltando aos seus olhos. "Meu pai me arrastava para essas coisas desde que eu tinha idade para andar. Dizia que era 'imersão cultural'. Eu geralmente só comia salgadinhos escondido e desenhava caricaturas dos visitantes esnobes." Ele gesticulou em direção a uma tela enorme e colorida que parecia uma pintura a dedo de uma criança. "Mas às vezes, você encontra uma joia."
Olhei para a pintura, depois de volta para ele. "Você desenha?"
Ele pareceu surpreso, um rubor genuíno subindo por suas bochechas. "Uh, sim. Às vezes. Nada sério." Ele ficou subitamente tímido, um lado dele que eu ainda não tinha visto.
"Me mostre um dia", me peguei dizendo, as palavras saindo da minha boca antes que eu pudesse pensar duas vezes.
Ele sorriu. "Com certeza."
Enquanto caminhávamos por outro salão, passando por pinturas a óleo e esculturas complexas, senti um novo tipo de conforto com ele. Um silêncio agradável se juntou à brincadeira. Não era apenas a arte que estava me abrindo; era o Bruno. Ele era observador, atencioso, mesmo quando suas motivações ainda eram nebulosas.
Lembrei-me da atitude desdenhosa de Eduardo em relação a qualquer coisa que não estivesse diretamente relacionada ao seu trabalho. Eduardo era brilhante, um CEO de tecnologia que se fez sozinho. Ele construiu a Torres Tecnologia do zero, começando com nada além de um intelecto feroz e uma ambição ainda mais feroz. Ele veio de uma origem humilde, subindo na vida, sempre impulsionado pelo medo de voltar à obscuridade.
"Minha primeira grande ideia foi ridicularizada em todas as reuniões com investidores", admitiu Bruno, como se estivesse lendo meus pensamentos sobre ambição. "Eles chamaram de 'ingênua', 'não escalável'. Disseram que eu era apenas um filhinho de papai brincando com o dinheiro do meu pai." Ele chutou uma pedrinha invisível no chão polido. "Tentei provar que estavam errados, me esforcei demais. Não foi bonito. Eu quebrei a cara de forma espetacular por um tempo."
Ele finalmente olhou para mim, um sorriso irônico no rosto. "Foi quando aprendi que, às vezes, você tem que jogar um jogo diferente."
"E que jogo é esse?", perguntei, já sabendo a resposta.
"Aquele em que Eduardo Torres perde", disse ele, seus olhos cor de mel endurecendo apenas uma fração. "E onde Bruno Freitas ganha. É por isso que estou aqui, Alícia. Para tirá-lo do sério. Para fazê-lo perceber o que perdeu. Você é a chave para isso."
Eu quase ri. Eduardo, com sua compostura inabalável, sua vontade de ferro. Ele nem notaria. Ele estava muito ocupado lutando contra outros titãs da tecnologia, muito focado na próxima grande aquisição. Bruno, com todo o seu charme e recursos, não tinha visto o verdadeiro Eduardo. O tipo de Eduardo que poderia fazer você se sentir como se estivesse encolhendo até desaparecer.
"Você realmente acha que pode abalar o Eduardo?", perguntei, um toque de ceticismo na minha voz. Eduardo era uma parede de concreto. Bruno era uma brisa encantadora.
Bruno me deu um sorriso confiante. "Ele não é tão invencível quanto finge ser. Todo mundo tem um ponto fraco. Ou uma fraqueza gritante." Ele fez uma pausa, seu olhar percorrendo-me. "E acho que acabei de encontrar a dele."
Paramos por um momento na loja de presentes, e Bruno insistiu em me comprar um pequeno pássaro de madeira, primorosamente esculpido. "Uma lembrança de hoje", disse ele, colocando-o na minha palma.
"Obrigada", eu disse, meus dedos se fechando em torno da madeira lisa. Foi um gesto atencioso. O tipo que Eduardo nunca faria.
"Então", disse ele, enquanto saíamos para o ar fresco da noite, "sobre esse tal de Eduardo Torres. Vocês mantiveram as coisas bem discretas, não é? Mal te vi em algum dos grandes eventos corporativos dele."
Eu dei de ombros. "Era a preferência dele. Ele dizia que era melhor para a minha privacidade e menos distração para ele."
"Certo. Privacidade", Bruno murmurou, seu tom pingando sarcasmo. "Ou talvez ele simplesmente não quisesse explicar por que estava com uma mulher que realmente tinha personalidade." Ele estreitou os olhos, uma carranca pensativa no rosto. "Na verdade, lembro de ter te visto em uma das festas de fim de ano da empresa dele, anos atrás. Você estava usando um... pingente de prata feito à mão? Uma lua crescente com uma estrelinha."
Eu pisquei, surpresa. "Eu... eu não me lembro disso."
"Ah, era você, com certeza", ele insistiu. "Lembro-me distintamente de pensar que era uma escolha estranha para alguém como o Eduardo. Muito... única para o gosto dele." Ele olhou para mim, um brilho de algo indecifrável em seu olhar. "Ele estava falando com outra pessoa, eu acho, sobre isso. Se gabando, quase. Como se fosse algum tipo de troféu."
O pingente de prata. Tentei evocar uma imagem dele, mas minha memória estava nebulosa. Os presentes de Eduardo eram sempre tão genéricos. Um lenço de grife. Um relógio caro. Coisas que ele poderia comprar de uma lista. Eram transacionais, símbolos de seu sucesso, não expressões de afeto. Faltava-lhes qualquer toque pessoal real, qualquer indício de que ele tivesse pensado em mim.
Mas havia uma exceção. Um pequeno pássaro de madeira feito à mão, esculpido por ele em um momento de rara e atípica sentimentalidade anos atrás. Um presente para outra pessoa.
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