
O Novo Capítulo de Maria
Capítulo 3
O jantar daquela noite foi uma repetição exata do início do meu pesadelo.
Sofia e João sentaram-se à mesa, com Ana entre eles, como se ela fosse a rainha e eu, a serviçal.
"Mãe, o bife está um pouco duro", reclamou Sofia, empurrando o prato. "A tia Ana não pode comer carne dura, você não sabia?"
Na minha vida anterior, eu teria me desculpado profusamente e corrido para a cozinha para preparar outra coisa.
Desta vez, eu apenas a encarei.
"Se ela não pode comer, então não coma", respondi, com a voz calma.
O silêncio na mesa foi imediato.
Sofia me olhou, chocada.
João, que estava prestes a colocar um pedaço de comida na boca, parou com o garfo no ar, seus olhos "confusos" fixos em mim.
Ana forçou uma tosse, com uma expressão de vítima. "Está tudo bem, Sofia. Eu posso comer. Maria trabalhou tanto... não vamos incomodá-la."
Sua voz era doce, mas suas palavras eram veneno puro, pintando-me como a megera que maltratava a convidada doente.
João então começou seu ato.
Ele olhou ao redor, como se não reconhecesse o lugar.
"Onde estou? Quem são vocês?", ele murmurou, com a voz trêmula.
Sofia imediatamente foi até ele, passando a mão em suas costas. "Pai, calma. Você está em casa. Eu sou a Sofia, sua filha."
Ela olhou para mim com raiva. "Viu o que você fez, mãe? Você o deixou agitado!"
Eu continuei comendo meu jantar, ignorando o drama.
Lembrei-me de uma noite, cerca de um ano depois que Ana se mudou, na minha vida passada.
Eu estava com febre alta, mas João insistiu que queria canja de galinha.
Arrastei-me para a cozinha e passei horas preparando a sopa.
Quando a servi, ele a jogou no chão.
"Isso é lixo! Você está tentando me envenenar?", ele gritou, antes de se encolher e começar a chorar como uma criança perdida.
Ana e Sofia o consolaram, enquanto eu, doente e humilhada, limpava a sopa quente do chão, queimando minhas mãos.
Naquela noite, chorei até dormir, sentindo-me a pior esposa do mundo.
Agora, vendo a mesma performance, eu só sentia nojo.
"João", eu disse, meu tom de voz firme cortando a atuação dele. "Pare com o teatro."
Ele me olhou, piscando, a confusão em seu rosto parecendo genuína por um segundo, provavelmente por causa da minha reação inesperada.
Sofia ficou de pé, batendo na mesa. "Mãe! Como você pode ser tão cruel? Ele está doente!"
"Doente?", eu ri, um som seco e sem alegria. "Ele parece perfeitamente saudável para mim. Talvez um pouco acima do peso, comendo toda a boa comida que eu faço."
"Maria, por favor...", começou Ana, com sua voz chorosa. "Não vamos brigar. Isso só vai piorar a condição de João."
Eu me levantei, pegando meu prato.
Eu não ia ficar sentada ali e assistir a essa farsa.
"Terminei de comer", anunciei. "A louça é de vocês."
Passei por eles e fui para o meu quarto, trancando a porta atrás de mim.
Do outro lado, ouvi os sussurros furiosos.
"O que deu nela?" era a voz de Sofia.
"Ela está ficando insuportável", respondeu João, sua voz de repente clara e sem tremor algum. "Precisamos dar um jeito nela."
"Tenha paciência, querido", disse Ana, suavemente. "Logo, tudo isso será nosso."
Eles achavam que eu não podia ouvir.
Eles me subestimavam.
Sempre me subestimaram.
Na minha vida anterior, eles me descartaram como um lixo quando fiquei doente.
Lembro-me do dia em que recebi o diagnóstico de câncer.
Cheguei em casa, precisando do meu marido, da minha filha.
Encontrei os três assistindo a um filme, rindo, comendo pipoca.
Quando contei a eles, o silêncio durou apenas um momento.
"Bem, isso é uma pena", disse João, sem tirar os olhos da TV. "Mas você precisa continuar cuidando da casa. Ana não pode fazer tudo sozinha."
Sofia apenas assentiu. "O pai tem razão, mãe. Não podemos deixar a casa virar uma bagunça só porque você está doente."
Naquele momento, a esperança que eu ainda nutria morreu.
Eu estava sozinha.
Mas agora, nesta nova vida, a solidão não era uma maldição.
Era uma arma.
Eu não precisava da aprovação deles, nem do amor deles.
Eu só precisava de justiça.
Sentei-me na cama, sentindo a força fluir através de mim.
A velha Maria, a tola abnegada, estava morta.
A mulher que estava sentada naquela cama agora era uma sobrevivente.
E ela estava pronta para a guerra.
Você pode gostar





