
O Martelo e o Fim
Capítulo 2
O martelo do juiz bateu, e o som ecoou no tribunal silencioso como o fim do mundo.
"Custódia concedida integralmente ao pai, senhor Lucas Almeida."
Eu olhei para o rosto satisfeito de Lucas, meu ex-marido. Ao seu lado, meu irmão mais velho, Ricardo, o advogado que deveria me defender, ajustou a gravata e deu um sorriso discreto para ele.
Uma traição. Clara e dolorosa.
Meu filho, Pedro, com apenas cinco anos, olhou para mim do outro lado da sala, seus olhos cheios de confusão. Ele não entendia por que estava sendo arrancado de mim.
As acusações de Lucas pesavam no ar: uma mãe irresponsável, uma viciada em trabalho que negligenciava o próprio filho. E as provas, forjadas por meu próprio irmão, selaram meu destino.
Perdi tudo. Meu filho, minha reputação, minha família.
Naquele dia, minha vida acabou. A dor foi tão profunda que meu corpo simplesmente desistiu. A escuridão me engoliu.
…
Um zumbido agudo preencheu meus ouvidos.
Luzes fortes feriram meus olhos.
Abri os olhos lentamente e a primeira coisa que vi foi o teto branco e estéril de um hospital. O cheiro de antisséptico invadiu minhas narinas.
Uma voz familiar, mas que eu não ouvia há uma eternidade, soou ao meu lado.
"Ana, você acordou! Graças a Deus!"
Virei a cabeça. Minha mãe, com os olhos vermelhos de tanto chorar, segurava minha mão. Ela parecia mais jovem, com menos rugas de preocupação no rosto.
"Mãe?" minha voz saiu rouca.
"O médico disse que foi exaustão. Você desmaiou no meio da audiência. Filha, não se preocupe, vamos recorrer. Aquele juiz... aquele seu irmão..."
Audiência?
Eu me sentei abruptamente, ignorando a tontura. Olhei ao redor. Pela janela, o sol brilhava. Que dia era hoje?
Peguei o celular na mesinha de cabeceira. A data na tela me fez congelar.
Era o dia do julgamento. O dia em que eu perdi Pedro.
Eu não morri.
Eu voltei.
Voltei para o momento exato em que meu inferno começou.
Uma segunda chance.
Lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto, mas não eram de tristeza. Eram de uma fúria fria que começava a queimar dentro de mim.
A porta do quarto se abriu.
Lucas entrou, seu rosto uma máscara de falsa preocupação. Ao seu lado, Ricardo, meu traidor.
"Ana, que susto você nos deu," disse Lucas, tentando tocar meu braço.
Eu o afastei com um movimento brusco.
"Não me toque."
Meu tom era gelado, irreconhecível. Os dois me olharam, surpresos com a hostilidade repentina. Na minha vida passada, eu estava devastada, chorando, implorando.
Desta vez, não.
"O que deu em você?" Ricardo perguntou, franzindo a testa. "O juiz vai anunciar a decisão a qualquer momento. Precisamos voltar."
"Não precisamos, não," eu disse, olhando diretamente nos olhos dele. "Eu já sei a decisão."
Lucas forçou uma risada. "Ana, o estresse está te afetando. Você precisa descansar."
"Eu estou perfeitamente sã," eu respondi, minha voz firme. "E eu sei exatamente o que vocês dois fizeram."
O sorriso deles vacilou. Um pingo de incerteza surgiu em seus olhos.
"Do que você está falando?" Ricardo tentou parecer ofendido.
Eu desci da cama, meus pés tocando o chão frio. Cada passo em direção a eles era calculado.
"Estou falando das 'provas' que você magicamente encontrou, Ricardo. As fotos editadas. Os testemunhos comprados. E estou falando do dinheiro que você recebeu de Lucas para me destruir no tribunal."
O rosto de Ricardo ficou pálido. Lucas deu um passo para trás, seu instinto de manipulador gritando perigo.
"Você está delirando, Ana Beatriz. O estresse te deixou paranoica."
Eu parei bem na frente deles.
"Nesta vida, as coisas serão diferentes."
Sem esperar por uma resposta, eu me virei. Peguei minha bolsa e caminhei em direção à porta.
"Onde você vai?" Lucas gritou, sua falsa calma se quebrando. "A audiência!"
Eu parei na porta e olhei para trás, um sorriso frio surgindo em meus lábios pela primeira vez.
"Eu desisto."
"O quê?" os dois disseram em uníssono.
"Eu desisto da custódia do Pedro."
O choque em seus rostos foi impagável. Eles esperavam uma luta, lágrimas, desespero. Eles não esperavam rendição. Mas isso não era rendição. Era estratégia.
Na vida passada, eu lutei uma batalha perdida. Lutei de forma justa em um jogo sujo e fui aniquilada. Fui arrastada pela lama, perdi meu filho e morri de desgosto.
Desta vez, eu não vou jogar o jogo deles.
Eu vou criar um novo jogo.
"Você não pode estar falando sério!" Lucas gaguejou. "O Pedro…"
"Oh, eu estou," eu o interrompi. "Você queria a custódia? Parabéns, ela é sua. Mas saiba de uma coisa."
Eu me aproximei de Lucas, meu rosto a centímetros do dele, meu olhar fixo e intenso.
"Eu vou expor cada mentira. Vou mostrar ao mundo quem você realmente é. E vou pegar meu filho de volta. Não através de um tribunal corrupto, mas provando a verdade."
Eu olhei para Ricardo.
"E você, irmão... você vai se arrepender de ter nascido."
Deixei os dois paralisados no quarto do hospital e saí.
A primeira coisa que fiz foi ligar para a única pessoa que nunca me abandonou, nem mesmo na minha memória da vida passada.
"Dona Carmela?"
"Minha querida! Onde você está? Soube do que aconteceu..." A voz dela era quente e cheia de preocupação. Dona Carmela foi minha mentora, a costureira aposentada que me ensinou tudo sobre design quando eu era apenas uma sonhadora. Ela era mais mãe para mim do que a minha própria.
"Preciso da sua ajuda," eu disse, minha voz embargada pela emoção genuína de ouvi-la novamente.
"Sempre, minha filha. O que você precisa?"
"Preciso de um lugar para ficar. E preciso de forças para começar uma guerra."
Lembro-me claramente da minha vida passada. Lembro-me da dor, da traição, da humilhação. Lembro-me de morrer sozinha, com o coração partido, enquanto meu ex-marido e meu irmão celebravam sua vitória.
Eles me acusaram de ser viciada em trabalho. A ironia é que meu trabalho, minha paixão por criar, será a arma que usarei para destruí-los.
Eles pensaram que tinham ganhado.
Mal sabiam eles que a partida estava apenas começando.
Dentro de mim, a determinação era uma rocha. Eu não estava apenas lutando por Pedro. Eu estava lutando pela Ana Beatriz que eles mataram. E desta vez, eu não iria falhar. A verdade viria à tona, e eu mesma a traria para a luz, custe o que custar.
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