
O Martelo e o Fim
Capítulo 3
A notícia da minha desistência da custódia se espalhou como fogo.
No dia seguinte, os portais de fofoca já estampavam manchetes sensacionalistas.
"ESTILISTA ANA BEATRIZ ABANDONA FILHO APÓS DIVÓRCIO CONTURBADO."
" 'MÃE IRRESPONSÁVEL' : FONTES CONFIRMAM QUE ANA PRIORIZA CARREIRA EM VEZ DA CRIANÇA."
Lucas, claro, estava por trás de tudo. Ele deu uma entrevista exclusiva para um programa de TV, posando de pai sofredor e dedicado.
"Eu só quero o melhor para o meu filho," ele disse, com lágrimas de crocodilo nos olhos. "A decisão da Ana foi um choque, mas talvez seja para melhor. O Pedro precisa de estabilidade, algo que a carreira agitada dela nunca pôde oferecer."
O público, como sempre, engoliu a isca. Recebi uma enxurrada de mensagens de ódio nas redes sociais. Clientes cancelaram pedidos. A marca que eu construí com tanto suor começou a ruir.
Eu estava no pequeno e aconchegante apartamento de Dona Carmela, nos fundos de seu antigo ateliê. O cheiro de linha, tecido e nostalgia preenchia o ar. Era meu refúgio.
"Não leia essas coisas, minha filha," disse Dona Carmela, me entregando uma xícara de chá de camomila.
"Eu preciso, Dona Carmela. Preciso ver até onde a sujeira deles vai."
Enquanto o mundo me pintava como um monstro, eu estava exatamente onde precisava estar: longe dos holofotes, planejando meu próximo passo.
Lucas e Ricardo pensaram que minha rendição era o fim da linha. Para eles, eu era uma mulher quebrada, sem recursos e sem credibilidade.
Eles estavam errados.
Minha primeira ligação foi para um número que eu não discava há anos. Um investigador particular chamado Hélio. Na minha vida passada, eu o contratei tarde demais, quando já estava sem dinheiro e sem tempo. Desta vez, ele seria minha primeira linha de ataque.
"Hélio? É a Ana Beatriz."
"Dona Ana. Li as notícias. Sinto muito."
"Não sinta. Eu preciso dos seus serviços. Quero que você investigue duas pessoas. Lucas Almeida e Ricardo Torres."
"Seu ex-marido e seu irmão?" ele perguntou, surpreso.
"Exatamente. Quero tudo. Contas bancárias, registros telefônicos, movimentações suspeitas. Especialmente uma grande transferência de dinheiro para a conta do Ricardo, feita nos últimos meses."
"Isso é sério, Dona Ana. E caro."
"O dinheiro não é problema," eu disse, olhando para uma pequena caderneta preta que eu guardava desde o início da minha carreira. Nela, estavam os detalhes de uma conta bancária secreta na Suíça, uma reserva que eu fiz para emergências. Uma emergência que, infelizmente, chegou. "Eu quero que você não deixe pedra sobre pedra."
Enquanto Hélio começava seu trabalho sujo, eu me concentrei no meu.
Lucas achava que podia destruir minha carreira. Mas ele se esqueceu de uma coisa: meu talento não estava no nome da minha marca, estava nas minhas mãos e na minha mente.
Com a ajuda de Dona Carmela, transformei o antigo ateliê em meu novo quartel-general. Mesas de corte foram limpas, máquinas de costura antigas foram lubrificadas.
Eu comecei a desenhar. A dor, a raiva, a determinação... tudo fluiu da minha mente para o papel. Criei uma coleção inteira em uma semana. Eram peças ousadas, estruturadas, quase como armaduras. Eram a representação da mulher que eu estava me tornando.
Mas eu não ia lançá-las com meu nome. Ana Beatriz, a estilista, estava "morta" para o público.
Eu precisava de um pseudônimo. Uma nova identidade.
"Que tal 'Fênix' ?" sugeriu Dona Carmela, olhando para os meus esboços com admiração. "Ressurgindo das cinzas."
Eu sorri. "Perfeito."
O plano era simples: criar uma pequena coleção cápsula sob o nome "Fênix" , produzida artesanalmente por mim e Dona Carmela, e vendê-la online, de forma anônima. O lucro seria usado para financiar minha guerra contra Lucas e Ricardo.
Enquanto eu costurava dia e noite, mantinha um olho em Lucas. Ele estava se deleitando com sua vitória. Levava Pedro a parques, postava fotos de pai e filho felizes, sempre garantindo que os paparazzi estivessem por perto.
Ele me ligou uma vez.
"Ana, o Pedro está perguntando por você. Ele não entende por que você não liga."
A voz dele era um veneno doce, projetado para me torturar. Meu coração se apertou. A saudade do meu filho era uma dor física, constante.
"Coloque-o no telefone," eu disse, minha voz firme.
Houve uma pausa.
"Acho que não é uma boa ideia. Ele está se adaptando. Não quero confundi-lo."
"Lucas, não me provoque. Eu tenho o direito de falar com meu filho."
"Você abriu mão dos seus direitos, lembra? O juiz foi bem claro. Mas, como sou um bom homem, posso reconsiderar... se você emitir uma nota pública pedindo desculpas pela sua negligência e confirmando que a decisão de me dar a custódia foi a melhor para o Pedro."
Chantagem. Descarada.
"Vá para o inferno, Lucas."
Eu desliguei. A raiva me deu mais força. Ele estava usando meu filho como uma arma. Um erro que ele pagaria muito caro.
Alguns dias depois, Hélio me ligou.
"Tenho algo para você, Dona Ana. Uma transferência de quinhentos mil reais. Da conta de uma empresa de fachada de Lucas para uma conta offshore em nome de Ricardo. Feita três semanas antes da audiência."
Era a prova. A arma que eu precisava.
"Ótimo trabalho, Hélio. Continue cavando."
Com a prova em mãos, eu poderia ir à polícia, à ordem dos advogados. Mas eu sabia que isso não era suficiente. Ricardo era um advogado astuto, ele saberia como se livrar. Lucas tinha dinheiro e influência. Eles iriam abafar o escândalo.
Eu precisava de algo maior. Precisava de um palco.
E eu sabia exatamente qual seria.
A São Paulo Fashion Week, o maior evento de moda do país, aconteceria em dois meses. Na minha vida passada, eu era uma das estrelas do evento. Desta vez, eu seria a bomba-relógio prestes a explodir.
Eu não ia apenas expô-los. Eu ia humilhá-los publicamente, no mesmo palco que um dia me glorificou.
Minha coleção "Fênix" não seria apenas sobre roupas. Seria sobre vingança.
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