
O Leilão do Inferno Pessoal
Capítulo 2
Sete anos.
Dois mil quinhentos e cinquenta e cinco dias.
Eu dei a Heitor sete anos da minha vida, construí sua carreira do zero, desisti dos meus próprios sonhos para que ele pudesse alcançar os dele, e o perdoei por inúmeras traições.
Toda vez que ele me machucava, ele se ajoelhava.
Lembro-me da primeira vez, no nosso segundo ano de casados.
Ele ficou de joelhos no chão de madeira fria, o som dos seus joelhos batendo no piso foi seco e alto.
"Clara, eu juro, foi a última vez. Eu bebi demais, eu não sabia o que estava fazendo."
Suas unhas cravavam na própria palma da mão com tanta força que pequenas marcas vermelhas apareceram, um teatro de arrependimento. Eu, tola, acreditei.
Limpei suas feridas imaginárias e o perdoei.
Essa cena se repetiu tantas vezes que perdi a conta.
Ajoelhar-se tornou-se sua ferramenta, uma performance barata para conseguir meu perdão.
Ele se ajoelhava, eu cedia. Era um ciclo doentio.
Hoje, ele me ligou do escritório.
"Amor, estou cheio de trabalho, não consigo te buscar. Você pode pegar um táxi para a festa da empresa?"
Sua voz soava cansada, cheia de uma falsa preocupação que um dia me enganou.
"Claro, não se preocupe. Te vejo lá."
Eu respondi, já acostumada a ser a segunda prioridade.
Vesti o vestido que ele gostava, coloquei os brincos que ele me deu, e fui para a festa da sua empresa, a empresa que ajudei a construir.
Quando o táxi parou em frente ao hotel luxuoso, a primeira coisa que vi foi ele.
Heitor não estava no salão de festas, ele estava do lado de fora, perto de um carro esporte preto que eu nunca tinha visto.
Ele não estava sozinho.
Uma mulher jovem, com um vestido vermelho justo, estava em seus braços.
Ele a beijava, não como se beija uma colega de trabalho, mas com uma paixão e um desejo que ele não me mostrava há anos.
Meu coração parou.
O ar sumiu dos meus pulmões.
A cena inteira parecia em câmera lenta, cada movimento dele, cada sorriso dela, gravando-se na minha mente.
A preocupação na sua voz ao telefone era uma mentira. O trabalho era uma mentira. Tudo era uma mentira.
Eu paguei o táxi, minhas mãos tremendo tanto que mal consegui pegar o dinheiro na bolsa.
Entrei no salão de festas como um fantasma, o barulho e a música alta abafando o som do meu coração se partindo.
Eu o vi entrar minutos depois, a mulher de vermelho ao seu lado. Ele ria, apresentando-a aos seus colegas como "Sofia, uma amiga muito especial".
Ele me viu do outro lado do salão.
Seu sorriso não vacilou.
Ele caminhou na minha direção, arrastando Sofia pela mão.
"Clara, querida. Que bom que você chegou."
Sua voz era casual, como se nada estivesse errado.
"Heitor, quem é ela?"
Minha voz saiu como um sussurro rouco.
Ele riu, um som frio e cruel que ecoou na minha cabeça.
"Ah, a Clara. Ela é um pouco ciumenta."
Ele disse para Sofia, mas olhando diretamente para mim.
"Esta é Sofia. Vamos nos casar em breve."
O mundo ao meu redor ficou em silêncio. As luzes, a música, as conversas, tudo desapareceu.
Apenas as palavras dele, suspensas no ar, pesadas e afiadas.
"O quê? Nós... nós somos casados."
"Ah, isso."
Ele deu de ombros, um gesto de total indiferença.
"Isso é só um pedaço de papel. Eu e Sofia temos uma conexão de verdade. Algo que você e eu nunca tivemos."
A humilhação me atingiu como uma onda de água gelada.
Ele não estava apenas me traindo, estava me descartando.
Na frente de todos.
Na frente das pessoas que me viram sacrificar tudo por ele.
Naquele momento, eu entendi.
Não era sobre amor ou perdão.
Para Heitor, eu era um degrau, um objeto útil que ele usou até não precisar mais.
A dor que senti não era apenas de um coração partido.
Era a dor da aniquilação.
A percepção de que os últimos sete anos da minha vida foram construídos sobre uma fundação de mentiras.
Ele nunca me amou.
Ele apenas me usou.
A dor era tão intensa que parecia física, uma ferida aberta no meu peito, sangrando para que todos vissem.
Eu olhei para ele, para o seu rosto sorridente e satisfeito, e pela primeira vez, não vi o homem que amava.
Vi um monstro.
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