
O Leilão do Inferno Pessoal
Capítulo 3
Heitor se aproximou, sua voz um sussurro ameaçador que apenas eu podia ouvir.
"Não faça uma cena, Clara. Você não quer envergonhar a si mesma, quer?"
Seu sorriso era uma máscara para a crueldade em seus olhos.
"Vá para casa. Conversaremos mais tarde."
Ele me deu as costas, como se eu fosse uma empregada dispensada.
Eu fiquei ali, paralisada, o som do meu sangue pulsando nos meus ouvidos.
Vá para casa.
Espere.
Como um cachorro obediente.
Eu dei um passo, depois outro, na direção da saída.
Mas então, algo dentro de mim se quebrou.
A humilhação, a dor, os sete anos de sacrifício se transformaram em uma faísca de raiva.
Eu parei.
Virei-me e caminhei de volta para ele.
Ele estava rindo de algo que Sofia disse, completamente alheio à minha presença.
"Heitor."
Minha voz estava firme, clara, cortando o barulho da festa.
Ele se virou, irritado por ser interrompido.
"O que foi agora, Clara?"
"Eu quero o divórcio."
A palavra saiu da minha boca e pairou no ar entre nós.
O sorriso de Heitor desapareceu.
Seu rosto se contorceu em uma máscara de fúria.
Ele agarrou meu braço com força, seus dedos cravando na minha pele.
"O que você disse?"
Ele me arrastou para um canto escuro do salão, longe dos olhares curiosos.
"Você não vai a lugar nenhum."
Ele sibilou, seu rosto a centímetros do meu.
"Você é minha. Você me pertence."
Ele me empurrou contra a parede, o impacto fazendo minha cabeça bater com força.
"Você acha que pode simplesmente ir embora? Depois de tudo que eu fiz por você?"
A ironia era tão absurda que eu quase ri.
"O que você fez por mim? Eu construí você, Heitor! Eu desisti da minha vida por você!"
Minha voz se elevou, cheia de uma fúria que eu não sabia que possuía.
Sua mão voou e atingiu meu rosto.
A dor foi aguda, cegante.
O som do tapa ecoou no pequeno espaço.
Ele pegou uma taça de vinho de uma bandeja que passava, o líquido vermelho escuro balançando perigosamente.
"Você está suja, Clara."
Então ele derramou o vinho sobre a minha cabeça.
O líquido gelado escorreu pelo meu cabelo, pelo meu rosto, manchando meu vestido.
Senti o cheiro doce e enjoativo do álcool, misturado com o cheiro da minha própria humilhação.
Ele rasgou a alça do meu vestido, expondo meu ombro.
"Você não é nada sem mim."
Ele disse, sua voz cheia de um veneno frio.
Sofia apareceu ao lado dele, um sorriso presunçoso em seu rosto.
"Heitor, querido, não se estresse com ela."
Ela disse, passando a mão pelo braço dele.
"Ela não vale a pena."
Heitor se virou para ela, sua fúria se transformando instantaneamente em ternura.
Ele a beijou suavemente na testa, bem na minha frente.
"Você está certa, meu amor. Ela não é nada."
O contraste foi brutal.
A violência para mim, a gentileza para ela.
Eu era o lixo a ser descartado, ela era o troféu a ser exibido.
Heitor se virou para mim uma última vez, um sorriso vitorioso no rosto.
"E só para você saber, Clara, não haverá divórcio."
Ele tirou um documento dobrado do bolso interno do paletó.
"Lembra-se do acordo que você assinou quando nos casamos? Aquele que você nem se deu ao trabalho de ler?"
Ele o desdobrou. Era um acordo pré-nupcial.
"Ele diz, basicamente, que se você iniciar o divórcio, você sai com absolutamente nada. Sem dinheiro, sem bens, sem a empresa."
Ele riu.
"Você assinou sua vida para mim, Clara. Você não pode ir a lugar nenhum."
A esperança que havia surgido em meu peito morreu instantaneamente, substituída por um desespero gelado.
Eu estava presa.
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