
O jogo traiçoeiro do meu marido
Capítulo 2
Ponto de Vista de Analu Ferraz:
Voltei para o quarto que um dia dividi com Heitor. O ar estava viciado, denso com o fantasma de um amor que morrera tão silenciosamente que eu nem tinha notado sua passagem. Agora, sua ausência era uma presença física, um ponto frio de pressão no meio da cama king size.
Puxei minha mala do topo do armário, as rodinhas fazendo um barulho alto no quarto silencioso. Abri gavetas, tirando as poucas roupas que eram verdadeiramente minhas, não as peças sensatas e de tons neutros que Dora preferia.
A porta da frente abriu e fechou lá embaixo. Passos, pesados e familiares, subiram as escadas.
— Analu? — A voz de Heitor estava cansada. Ele apareceu na porta, a gravata afrouxada, o paletó jogado sobre o ombro. Ele viu a mala aberta na cama e franziu a testa. — O que você está fazendo?
Eu não olhei para ele. Continuei a dobrar um suéter, meus movimentos precisos e mecânicos.
— Dora queria que eu me livrasse de algumas das minhas coisas velhas. Ela diz que estão bagunçando o armário.
Ele soltou um suspiro exasperado, o som irritando meus nervos à flor da pele.
— Pelo amor de Deus, Analu. Não pode simplesmente ignorá-la por uma noite? Estou exausto.
Ele jogou o paletó em uma cadeira e desabou na beirada da cama, passando a mão pelo cabelo perfeitamente penteado.
— Ela não é fácil, eu sei. Mas você mudou. Você costumava ser tão… paciente.
Foi quando eu me virei. Mostrei a blusa queimada e manchada de ontem. A mancha de suco roxo havia secado em uma mancha escura e feia, como sangue velho. A marca de queimado era um buraco aberto.
— Esta é a paciência da sua mãe, Heitor — eu disse, minha voz perigosamente baixa. — É assim que ela se parece.
Seu rosto escureceu. Ele arrancou a blusa da minha mão, seu olhar passando da mancha para a queimadura. Por um segundo, um músculo em sua mandíbula se contraiu. Então, seu rosto se endureceu em uma máscara de raiva pura e inalterada.
— Então você queimou a blusa dela. É sobre isso? Um pedaço de roupa? — Ele amassou o tecido e o jogou violentamente contra a parede. — Você está fazendo uma cena por causa de uma maldita blusa?
Algo dentro de mim se partiu. A represa cuidadosamente construída de dois anos de sofrimento silencioso desmoronou, e uma torrente de fúria jorrou.
— Uma blusa? — Eu ri, um som áspero e feio. — Eu desisti da minha carreira, Heitor. Desisti da minha sociedade em um dos melhores escritórios de arquitetura do país. Desisti dos meus amigos, da minha família, da minha vida inteira para vir aqui e ser uma enfermeira em tempo integral e não remunerada para sua mãe. E você acha que isso é sobre uma blusa?
— Minha mãe está doente! — ele rugiu, pulando de pé. — Ela está paralisada por causa do que aconteceu! Por sua causa!
A velha e familiar culpa se contorceu em meu estômago. Era sua arma favorita, a que ele desembainhava sempre que eu ousava expressar minha própria dor.
Dois anos atrás. O aniversário da morte da minha mãe. Eu estava um caco, afogada em luto. Heitor deveria estar em uma teleconferência crucial, tarde da noite, um acordo que garantiria um investimento maciço para a carteira de sua mãe. Eu estava chorando, e ele me abraçou, sussurrando confortos. Em minha névoa de tristeza, eu acidentalmente coloquei o celular dele no silencioso enquanto tentava diminuir o brilho.
Ele perdeu a ligação. O acordo fracassou. A carteira de Dora perdeu milhões. Uma semana depois, ela teve uma “paralisia psicossomática induzida por estresse”. Os médicos não conseguiam explicar. Mas Heitor e Dora tinham sua explicação. A culpa era minha.
E eu, afogada em culpa e luto, acreditei neles.
— Foi um acidente, Heitor — sussurrei, as palavras com gosto de cinzas. — E eu passei cada dia dos últimos dois anos tentando compensar por isso. Atendi a todos os seus caprichos, suportei todos os seus insultos. Deixei que ela arrancasse cada pedaço de mim. Isso significa que eu mereço isso? Ser tratada como lixo? Ter meu marido parado, assistindo?
Ele desviou o olhar, incapaz de me encarar. Essa foi sua resposta.
Ele respirou fundo, sua voz suavizando para o tom apaziguador que ele usava quando estava tentando me controlar.
— Olha, Analu. As coisas vão ser diferentes agora. A Carla vai ficar aqui por um tempo. Ela pode te ajudar com a mamãe. Vai tirar um pouco da pressão de você.
O nome pairou no ar entre nós, uma nuvem tóxica. Carla Barros. Sua namorada de colégio. A mulher que Dora nunca se cansava de me dizer que era “muito mais adequada” para Heitor.
— A Carla vai se mudar para cá? — perguntei, minha voz neutra.
— Só por um tempinho — ele disse rapidamente, sem me olhar. — Para ajudar.
— Entendi — eu disse. A peça final do quebra-cabeça se encaixou. A mentira que eu tinha ouvido na varanda estava prestes a se tornar minha realidade viva. — Acho que você vai precisar abrir espaço para ela.
Fui até o armário e comecei a tirar mais das minhas coisas, empilhando-as na cama.
Ele me observou, um lampejo de pânico em seus olhos.
— O que você está fazendo?
— Abrindo espaço — eu disse calmamente. — Para a Carla. Você está certo. Vai ser muito mais fácil com ela aqui.
E então, joguei minha última carta.
— Eu fui à lavanderia hoje, Heitor. Recebi uma notificação por e-mail do tribunal.
Seu rosto ficou branco. O sangue sumiu de suas bochechas, deixando sua pele com uma cor pálida e doentia.
— Do que… do que você está falando?
— Os papéis da separação legal — eu disse, minha voz desprovida de toda emoção. — Aqueles que você me fez assinar. Aqueles que você me disse que eram documentos de investimento para sua mãe.
Ele recuou, sua mão se erguendo para segurar o batente da porta.
— Analu, eu… eu posso explicar. A mamãe… ela me obrigou. Ela ameaçou… cortar meu financiamento para a empresa. Eu não tive escolha.
As desculpas. Sempre as desculpas. Nunca era culpa dele. Era sempre sua mãe, o mercado, a pressão. Era sempre outra pessoa.
— Você teve uma escolha, Heitor — eu disse, minha voz tão fria e dura quanto um diamante. — Você poderia ter me contado. Poderia ter me tratado como sua esposa, sua parceira. Mas você não fez isso. Você me tratou como um problema a ser gerenciado. Um ativo a ser liquidado.
— Isso não é verdade! — ele gritou, sua voz falhando. — Você está distorcendo as coisas! Você é sempre tão dramática, tão emotiva!
Parei o que estava fazendo e olhei para ele, realmente olhei para ele, pela primeira vez no que pareceram anos. Vi a fraqueza em seus olhos, o jeito petulante de sua boca. O homem com quem eu me casei, o homem que eu amei com cada fibra do meu ser, tinha desaparecido. Ou talvez nunca tivesse existido.
Lembrei-me do dia do nosso casamento, do jeito que ele me olhou, seus olhos brilhando. Lembrei-me dele prometendo ficar ao meu lado, me proteger. Lembrei-me de todos os pequenos momentos, as risadas compartilhadas, os segredos sussurrados. Foi há uma vida inteira. A vida de outra mulher.
— Você ainda me ama, Heitor? — A pergunta escapou dos meus lábios antes que eu pudesse impedi-la. Um apelo desesperado e final de uma parte de mim que se recusava a morrer.
— Claro que eu te amo! — ele respondeu bruscamente, as palavras soando automáticas, ensaiadas. Ele passou a mão pelo cabelo novamente, um gesto de pura frustração. — Mas você tem que entender. Minha mãe… ela precisa de mim. Você não pode simplesmente… não tornar isso tão difícil?
*Não tornar isso difícil.*
A última brasa de esperança em meu coração piscou e morreu, não deixando nada além de cinzas frias e cinzentas. Eu era apenas uma dificuldade. Um inconveniente.
— Tudo bem — eu disse, minha voz um eco oco. Voltei para a minha mala.
Ele pareceu relaxar de alívio. A crise foi evitada. Analu estava sendo razoável novamente.
— A Carla pode ficar no quarto de hóspedes por enquanto — ele disse, sua voz recuperando seu tom confiante habitual. Ele já estava seguindo em frente, arrumando as peças de sua nova vida. — Vou mandar esvaziá-lo amanhã.
Ele saiu, fechando a porta atrás de si, deixando-me sozinha nos destroços do nosso casamento. Afundei na cama, o colchão cedendo sob meu peso. Minha mão pousou em um pequeno e empoeirado porta-retratos na mesa de cabeceira. Era uma foto nossa da nossa lua de mel, sorrindo e queimados de sol, o futuro se estendendo diante de nós como um oceano sem fim.
Sete anos. Sete anos da minha vida, reduzidos a uma pilha de documentos legais enganosos e uma mentira. Um fantasma em minha própria casa.
Peguei meu celular e enviei uma mensagem para o número que havia ligado mais cedo. Uma linha segura e criptografada.
*Sete dias. Estarei pronta.*
A resposta foi instantânea.
*Estaremos esperando.*
Pousei o telefone. Um barulho alto e súbito vindo do andar de baixo me fez pular. Foi seguido pela voz estridente e exigente de Dora, e pela resposta açucarada de Carla.
A invasão havia começado.
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