
O jogo traiçoeiro do meu marido
Capítulo 3
Ponto de Vista de Analu Ferraz:
Desci as escadas, atraída pelo clamor. A cena que me recebeu no grande hall de entrada era uma invasão cuidadosamente orquestrada. Carla Barros, vestida com um vestido de verão branco que gritava uma inocência que ela não possuía, estava dando ordens a dois carregadores que arrastavam uma montanha de malas de grife. Dora, em sua cadeira de rodas, era uma general presunçosa supervisionando a captura do território inimigo.
— Cuidado com essa aí! — Carla chilreou, apontando para uma mala da Louis Vuitton. — Está cheia dos meus produtos de pele.
Dora me viu pairando no corredor.
— Analu, aí está você. Não fique aí parada como um fantasma. Venha ajudar. Carla está cansada da viagem.
Carla se virou, seu rosto perfeitamente maquiado arrumado em uma máscara de preocupação.
— Ah, Dora, você é tão gentil. Mas estou bem. Não quero incomodar a Analu. — Ela me deu um sorriso doce e piedoso que não alcançou seus olhos frios e calculistas.
Ignorei as duas. Meu olhar estava fixo em Dora. Observei como suas mãos, supostamente fracas e trêmulas, agarravam os apoios de braço de sua cadeira com uma força surpreendente. Notei a cor saudável em suas bochechas, a clareza brilhante e alerta em seus olhos. Por dois anos, eu só tinha visto o que eles queriam que eu visse: uma mulher frágil e inválida. Agora, o véu havia sido levantado, e eu a via como ela era: uma predadora.
— Na verdade, mamãe, estou me sentindo muito melhor hoje — anunciou Dora, sua voz ressoando com uma vitalidade recém-descoberta. — Acho que todo o descanso finalmente está fazendo efeito. Talvez eu até tente andar um pouco mais tarde.
Era uma performance para o meu benefício, uma torção cruel e deliberada da faca.
— Que notícia maravilhosa, Dora — Carla jorrou, correndo para o seu lado. — Heitor vai ficar tão feliz.
Dora deu um tapinha na mão de Carla.
— É tudo graças a você, querida. Ter você aqui me deu um novo sopro de vida. É por isso que decidi que você vai ficar conosco. Permanentemente.
Meus olhos se voltaram para Heitor, que acabara de entrar da cozinha, um copo de água na mão. Ele se encolheu, um endurecimento quase imperceptível de seus ombros. Ele não olhou para mim. Apenas tomou um gole longo e lento de água, seu silêncio uma confirmação ensurdecedora.
— A Analu já concordou — ele disse, sua voz um murmúrio baixo. — Ela acha que é uma ótima ideia.
O sorriso de Dora foi triunfante.
— Viu? Eu disse que ela era uma garota sensata, no fundo. Ela sabe o lugar dela.
Carla, encorajada, bateu as mãos.
— Bem, nesse caso, vou pedir para os rapazes começarem a levar minhas coisas para cima. Mal posso esperar para me instalar.
Ela começou a direcionar os carregadores para a grande escadaria, sua voz ecoando no espaço cavernoso. Ouvi um baque alto do patamar do segundo andar, seguido pelo som de algo se quebrando.
Corri escada acima. Meu coração afundou. Espalhados pelo chão estavam os restos estilhaçados de uma série de fotografias emolduradas — aquelas que eu tinha tirado em nossas viagens, aquelas que Heitor havia arrumado meticulosamente na parede, um mosaico de nossas memórias compartilhadas. Carla estava sobre elas, uma mão teatralmente na boca.
— Oh, meu Deus! Sinto muito, Analu — ela disse, sua voz escorrendo um remorso falso. — Foi um acidente. O carregador simplesmente esbarrou em mim.
Heitor veio atrás de mim. Ele olhou para o vidro quebrado, para os rostos sorridentes nas fotos, agora rasgados e espalhados. Um lampejo de algo — dor? arrependimento? — cruzou seu rosto antes de ser rapidamente suprimido. Ele não disse nada. Apenas ficou ali, um espectador silencioso do desmantelamento de nossa vida.
Carla, vendo seu silêncio como permissão, ficou mais ousada.
— Sabe — ela disse, inclinando a cabeça pensativamente — esta parede seria perfeita para aquela gravura da Tarsila do Amaral que acabei de comprar. E como vou ficar na suíte principal…
Ela deixou a frase pairar no ar, um dardo deliberado e envenenado.
A suíte principal. Nosso quarto.
Dora, que havia usado o elevador privativo da casa para se juntar ao drama, bateu palmas.
— Uma excelente ideia, Carla! É hora de uma mudança. Analu, você pode mover suas coisas para o quarto de hóspedes no final do corredor. É menor, mas tenho certeza que você não vai se importar.
Todos os olhos estavam em mim. Este era o teste. A humilhação final.
Olhei para Heitor, travando seu olhar.
— Tudo bem — eu disse, minha voz estranhamente calma. — Vou mover minhas coisas.
Ele pareceu surpreso, depois confuso.
— Analu, espere…
— O que há de errado, Heitor? — perguntei, um sorriso amargo tocando meus lábios. — Não é isso que você queria? Uma nova vida? Uma família de verdade?
Virei-me e entrei na suíte principal, o quarto que continha sete anos da minha vida. Não olhei para trás. Podia sentir seus olhos em mim, cheios de uma confusão que ele era covarde demais para expressar. Comecei a fazer as malas, meus movimentos eficientes e desapegados. Esta não era mais minha casa. Estas não eram minhas memórias.
Mais tarde, no jantar, a farsa continuou. Desci para encontrar a mesa posta com uma refeição elaborada. Paella de frutos do mar, camarão ao alho e óleo, casquinha de siri. Cada prato era algo a que eu era alérgica. Uma alergia severa, anafilática, que Heitor conhecia, com a qual ele já fora patologicamente cuidadoso.
Dora me observava, um sorriso zombeteiro brincando em seus lábios.
Heitor, alheio, estava ocupado enchendo o prato de Carla com camarão.
— Experimente isso, Carla. É a especialidade do chef.
Ele não tinha notado. Ou tinha esquecido. O pensamento foi uma pedra fria e dura no meu estômago. Sete anos, e ele havia esquecido a única coisa que poderia literalmente me matar.
— Analu, você não está comendo — ele disse, finalmente se virando para mim, seu tom repreensivo. — Está em outra de suas dietas?
Eu não disse nada. Apenas peguei meu garfo e dei uma pequena mordida no arroz branco simples que era a única coisa segura na mesa.
Ele franziu a testa.
— O que há de errado com você esta noite? Você tem agido estranho o dia todo.
Antes que eu pudesse responder, Dora falou, sua voz brilhante e alegre.
— Heitor, Carla e eu estávamos conversando. Agora que minha saúde está melhorando, e Carla está aqui para ficar… acho que é hora de começarmos a planejar o casamento.
O garfo escorregou dos meus dedos, batendo ruidosamente contra o prato.
Heitor congelou, seus olhos disparando para mim. Por um momento, ele pareceu encurralado.
Carla, sempre a atriz, colocou uma mão delicada em seu braço.
— Oh, Dora, não deveríamos apressar o Heitor. Ele e a Analu ainda estão… casados. — Ela disse a palavra como se fosse um pequeno inconveniente, um pedaço de papelada a ser resolvido.
— Bobagem! — Dora bradou. — É um novo capítulo para esta família. Precisamos comemorar. Heitor, você vai querer dar à Carla o casamento que ela merece, não vai?
Heitor olhou para mim, seus olhos suplicantes. *Diga alguma coisa. Pare com isso. Me ajude.*
Mas eu já tinha acabado de ajudá-lo. Eu já tinha acabado de ser seu escudo.
Ele pigarreou.
— Mãe, acho que Analu e eu precisamos discutir isso.
Era uma defesa fraca e frágil, e todos nós sabíamos disso.
Todos os olhos, mais uma vez, estavam em mim. A esposa silenciosa e injustiçada. Eles estavam esperando que eu chorasse, gritasse, fizesse uma cena. Estavam esperando que eu desempenhasse meu papel.
Tomei um gole lento de água. Olhei do rosto triunfante de Dora para a alegria mal disfarçada de Carla e para os olhos desesperados e covardes de Heitor.
Então, eu sorri. Um sorriso calmo e sereno que parecia totalmente estranho no meu rosto.
— Acho que é uma ideia maravilhosa — eu disse, minha voz tão suave quanto vidro. — Vocês definitivamente deveriam se casar.
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