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Capa do romance O Jogo de Um Bilionário

O Jogo de Um Bilionário

Após a notícia da morte de João em um acidente, recebo uma dívida de cinco milhões. Uma dor súbita desperta memórias de uma vida passada cruel: João forjou tudo, unindo-se à minha amiga Ana Paula para nos destruir. No passado, perdi meu filho Pedrinho para a tortura enquanto eles desfrutavam de uma fortuna secreta. Agora, ciente da traição e do plano macabro, decido mudar o destino. Diante do advogado, aceito a herança maldita para iniciar minha vingança.
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Capítulo 2

O telefone tocou, um som estridente que cortou o silêncio pesado da sala. Eu olhei para o aparelho, meu coração já pressentindo a desgraça. Era um número desconhecido.

"Alô?"

A voz do outro lado era formal, desprovida de emoção. Um policial. Ele falou sobre um acidente de carro na Rodovia dos Bandeirantes, um engavetamento causado pela neblina. Falou sobre um carro que perdeu o controle, sobre um incêndio. Falou o nome do meu marido, João Pedro Souza.

"Senhora Silva, lamento informar... seu marido não resistiu."

O mundo parou. As palavras flutuavam no ar, mas não faziam sentido. João, morto? Não era possível. Ele tinha saído de manhã, reclamando do trânsito, prometendo que voltaria cedo para o jantar. Um homem simples, um marido dedicado, um pai que, apesar das dificuldades financeiras, sempre tentava dar o melhor para nosso filho, Pedrinho.

No dia seguinte, após o choque inicial e as formalidades dolorosas no necrotério, veio o segundo golpe. Um advogado de terno caro bateu à minha porta. Ele não era do tipo que frequentava nosso bairro de classe média. Ele representava os credores de João.

"Senhora Silva, meus pêsames. Infelizmente, tenho assuntos urgentes a tratar. Seu marido, o senhor João Pedro Souza, deixou uma dívida substancial."

Ele me entregou uma pasta de couro. Dentro, documentos com selos e assinaturas que eu não entendia. E um número.

Cinco milhões de reais.

Eu quase ri. Era um erro, uma piada de mau gosto. João? Devendo cinco milhões? Nós mal conseguíamos pagar o aluguel. Nossas vidas eram uma constante luta para fechar as contas no fim do mês.

"Isso é impossível. Meu marido era um vendedor. Ele não tinha acesso a esse tipo de dinheiro."

O advogado sorriu, um sorriso fino e frio.

"A dívida é legal, senhora. E, como sua esposa e herdeira legal, a responsabilidade agora é sua. A menos, é claro, que a senhora renuncie à herança."

Naquele exato instante, enquanto o advogado falava, uma dor de cabeça lancinante me atingiu. Não era uma dor comum. Eram imagens, sons, sentimentos. Uma vida inteira de sofrimento comprimida em um segundo.

Eu me vi em outro tempo, em outra versão desta mesma cena. Eu estava chorando, desesperada. E ao meu lado, minha melhor amiga, Ana Paula, me abraçava.

"Maria, renuncie a isso", ela dizia, com a voz cheia de uma falsa preocupação. "É uma armadilha. Pense no Pedrinho. Vocês não podem carregar esse fardo."

E eu acreditei nela. Na minha vida passada, eu assinei os papéis. Renunciei a tudo que João "deixou".

O que veio a seguir foi o inferno.

A dívida não desapareceu. O agiota, um homem brutal chamado Leopardo, veio atrás de mim. Ele disse que a dívida de João era com ele, e que a renúncia da herança não o impedia de "cobrar à sua maneira".

Primeiro, eles levaram nossa casa. Fomos despejados com a roupa do corpo. Eu e Pedrinho, meu filho de cinco anos, acabamos na rua.

Depois, quando eu não tinha mais nada para dar, eles levaram o que eu tinha de mais precioso.

Eles levaram Pedrinho.

A memória era tão nítida que meu corpo tremia. Eu me lembrava de procurar por ele, dia e noite, gritando seu nome pelas ruas escuras e perigosas da cidade. Lembro-me do telefonema de Leopardo, rindo enquanto descrevia o medo nos olhos do meu filho.

"Ele está chorando pela mamãe", ele zombou.

A lembrança do corpo pequeno e frágil de Pedrinho, quando finalmente o encontrei num terreno baldio, me fez engasgar. Torturado. Quebrado. O laudo disse que ele morreu de medo e dor.

E eu, enlouquecida pelo luto, segui a única pista que tinha. Um endereço que um dos capangas de Leopardo deixou cair. Um apartamento de luxo no Leblon, um lugar que não combinava em nada com a vida de um agiota de periferia.

Eu entrei no prédio como um fantasma. A porta do apartamento estava entreaberta. E lá dentro, eu a vi.

Ana. Minha "melhor amiga".

Ela não estava sofrendo. Ela estava radiante, vestindo seda, cercada por um luxo que eu nunca poderia imaginar. Ao lado dela, brincando no tapete persa, estava um menino, um pouco mais velho que meu Pedrinho.

Então, um homem saiu do quarto. Um homem que deveria estar morto.

João.

Meu marido. Ele não estava morto. Ele estava vivo, sorrindo. Ele beijou Ana nos lábios e abraçou o menino. "Papai chegou", ele disse.

Naquele momento, tudo se encaixou. A dívida falsa, o conselho de Ana para renunciar à herança, a perseguição de Leopardo. Era tudo um plano. Um plano para que João, o bilionário disfarçado de pobre, pudesse forjar a própria morte, se livrar de mim e do nosso filho, e começar uma nova vida com sua amante e o filho secreto deles.

A herança que eu renunciei não era uma dívida de cinco milhões. Era uma fortuna de bilhões. E, ao renunciar, eu a entreguei diretamente para o próximo na linha de sucessão: o filho secreto dele com Ana, Lucas.

Meu Pedrinho morreu para que o filho deles pudesse herdar tudo.

A memória da minha própria morte veio em seguida. Correndo para a rua, cega pelas lágrimas e pela traição, o som de pneus cantando, a dor aguda e, depois, a escuridão.

Agora, eu estava de volta. No mesmo lugar. No mesmo momento. O advogado ainda me olhava, esperando uma resposta. Minha cabeça parou de doer. O pânico e a dor se foram, substituídos por um gelo cortante.

"Eu aceito."

Minha voz soou firme, desconhecida até para mim.

O advogado piscou, surpreso.

"Desculpe, o que disse?"

"Eu disse que aceito", repeti, olhando diretamente para ele. "Eu aceito a herança do meu marido. E a dívida de cinco milhões de reais. Eu vou pagar tudo."

Naquele momento, a campainha tocou. Eu sabia quem era.

Abri a porta e lá estava ela. Ana. Com os olhos já vermelhos, pronta para encenar o papel da amiga leal e sofrida.

"Maria, meu Deus! Eu soube agora! Eu sinto muito, tanto..."

Ela tentou me abraçar, mas eu dei um passo para trás. O advogado, sentindo o clima, pigarreou.

"Bem, senhora Silva. Se essa é sua decisão final... entraremos em contato."

Ele se retirou, deixando-nos a sós.

"Maria, o que foi isso?", Ana perguntou, a preocupação em sua voz soando como veneno para os meus ouvidos. "Que advogado era aquele? O que ele queria?"

Eu a encarei, vendo através da máscara dela pela primeira vez.

"Ele veio me informar que João deixou uma dívida de cinco milhões. E eu disse a ele que vou pagar."

O rosto de Ana empalideceu. O choque em seus olhos era genuíno. Não era esse o roteiro.

"O quê? Você ficou louca? Maria, não! Você tem que renunciar a isso! É uma armadilha! Pense no Pedrinho!"

As mesmas palavras. A mesma armadilha. Mas a mulher à sua frente não era mais a mesma.

Eu sorri. Um sorriso que não alcançou meus olhos.

"Não se preocupe, Ana. Desta vez, eu sei exatamente o que estou fazendo."

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