
O Jogo de Um Bilionário
Capítulo 3
O eco da minha vida passada ainda ressoava em minha mente, uma sinfonia de dor e traição que terminou com o som de pneus cantando no asfalto molhado e uma escuridão súbita. Morrer traída, sozinha e despojada de tudo, até do meu filho, foi um fim miserável. Um fim que eu me recusava a repetir.
Eu estava de pé na minha sala de estar, o mesmo cômodo onde a minha antiga eu havia desmoronado. O cheiro de café velho pairava no ar, uma lembrança da manhã em que João saiu pela última vez. Mas agora, tudo era diferente. O desespero que me consumiu antes foi substituído por uma calma gélida, uma clareza de propósito que eu nunca havia conhecido.
Eu renasci das cinzas da minha própria tragédia.
Ana ainda estava parada na minha frente, sua boca ligeiramente aberta, a confusão e o pânico começando a corroer sua fachada de amiga preocupada.
"Maria, por favor, me escute", ela insistiu, sua voz um pouco mais aguda do que o normal. "Renuncie a essa herança. É a única saída sensata. Como você vai pagar cinco milhões? Eles vão tirar tudo de você!"
"Eu vou dar um jeito", respondi, minha voz monótona.
Eu me virei e caminhei em direção ao quarto do meu filho. Pedrinho estava lá, sentado no chão, montando uma torre com blocos coloridos. Ele olhou para mim e sorriu, um sorriso puro e inocente que na minha vida passada eu falhei em proteger.
"Mamãe, olha! Um castelo!"
Eu me ajoelhei e o abracei com força, inalando o cheiro doce de seu cabelo. O medo de perdê-lo novamente era uma brasa ardente em meu peito. A imagem do seu pequeno corpo sem vida, jogado como lixo, era uma ferida que nunca cicatrizaria.
"É lindo, meu amor. O castelo mais lindo do mundo."
A campainha tocou novamente, desta vez com uma insistência agressiva. Não era Ana. Era o começo do pesadelo.
Ana deu um pulo, assustada.
"Quem é?", ela sussurrou.
"O credor, eu imagino", disse eu, calmamente.
Levantei-me e fui até a porta, com Ana me seguindo, hesitante. Olhei pelo olho mágico. Dois homens grandes, com rostos que pareciam ter sido esculpidos em pedra, estavam parados no corredor. Eram os cães de guarda de Leopardo.
Eu não abri a porta.
Um deles bateu com o punho fechado na madeira, fazendo a porta tremer.
"Sabemos que está aí, senhora Silva! Leopardo mandou um recado! Ele quer o dinheiro dele!"
Ana soltou um pequeno grito e recuou. Seus olhos estavam arregalados de medo. Era o medo que ela queria que eu sentisse. O medo que me levaria a assinar os papéis e entregar a fortuna de João diretamente para ela.
Eu permaneci em silêncio, esperando. Eles bateram mais algumas vezes, gritaram mais algumas ameaças e, finalmente, desistiram. Ouvi seus passos pesados se afastando. Quando olhei pela janela, vi um pedaço de papel preso na maçaneta.
Abri a porta e peguei. Era um bilhete simples, escrito em letras maiúsculas e agressivas.
"VOCÊ TEM 24 HORAS."
Mostrei o bilhete para Ana. Ela cobriu a boca com as mãos, seus olhos se enchendo de lágrimas de crocodilo.
"Maria, pelo amor de Deus! Veja o que você fez! Eles são perigosos! Eles vão machucar você! Vão machucar o Pedrinho!"
Ela estava usando meu filho contra mim. A mesma tática. A mesma crueldade disfarçada de preocupação.
Eu olhei para Pedrinho, que agora nos observava da porta do seu quarto, seus grandes olhos castanhos cheios de confusão. A lembrança da sua dor na vida passada me atingiu com a força de um soco. Eu me lembrava de como ele chorava, de como suas mãozinhas estavam frias, de como a luz se apagou de seus olhos.
A raiva e a dor se misturaram dentro de mim, forjando uma determinação de aço. Eu não era mais a vítima indefesa. Eu era uma mãe que tinha visto o pior que o mundo poderia oferecer ao seu filho e que tinha voltado do túmulo para garantir que isso nunca mais acontecesse.
Abracei Pedrinho novamente, sentindo seu pequeno coração batendo contra o meu peito.
"Não se preocupe, meu filho", sussurrei em seu ouvido, para que só ele pudesse ouvir. "A mamãe não vai deixar ninguém te machucar. Nunca mais."
Então, levantei a cabeça e olhei para Ana, meus olhos secos e frios.
"Você tem razão, Ana. Eles são perigosos."
Fiz uma pausa, deixando o peso das minhas próximas palavras assentar no ar.
"É por isso que vou fazer exatamente o que eles querem. Eu vou pagar a dívida."
Dentro de mim, uma promessa silenciosa tomou forma, uma jura selada com o sangue das minhas memórias.
Desta vez, não haverá renúncia. Desta vez, não haverá fuga. Desta vez, a caça se tornará a caçadora. Eu vou expor cada mentira, vou desenterrar cada segredo. Eu vou tomar de volta não apenas o que é meu por direito, mas tudo o que eles me roubaram. A segurança do meu filho. A minha paz. A minha vida.
João, Ana, Leopardo... preparem-se. O jogo começou de novo. E desta vez, as regras são minhas.
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