
O Jardim e o Girassol
Capítulo 2
"Eu vou trancar a faculdade."
A voz de Lucas ecoou pela pequena sala do nosso apartamento, tão casualmente como se ele estivesse anunciando que ia comprar pão.
Eu parei de arrumar meus livros para o vestibular, que seria em exatamente um mês, e o encarei, tentando processar a informação.
"O quê? Você não pode estar falando sério, Lucas."
Ele deu de ombros, jogando a mochila no sofá com um baque surdo.
"Estou falando sério, Manuela. Eu preciso de um tempo."
O ar ficou pesado, denso com palavras não ditas. Lucas era o gênio da nossa turma, o cara que gabaritava todas as provas de exatas sem nem parecer se esforçar. Ele já estava no segundo ano de Engenharia na melhor universidade do estado, um caminho que eu sonhava em trilhar ao lado dele.
"Um tempo pra quê? A um mês do meu vestibular? Você prometeu que ia me ajudar na reta final."
"E eu vou," ele disse, se aproximando. Sua mão tocou meu ombro, mas o gesto não tinha o calor de antes. "Só que de um jeito diferente. A Sofia precisa de muito mais ajuda que você, ela está começando do zero."
Sofia.
O nome dela pairou entre nós como uma nuvem de fumaça. Uma caloura do cursinho, bonita, popular, e que, nos últimos meses, parecia ocupar todos os pensamentos e o tempo livre de Lucas.
"A Sofia tem os professores do cursinho, Lucas. Eu tenho você. Ou pelo menos, eu achava que tinha."
Ele suspirou, um som de pura impaciência.
"Você não entende, Manu. Isso é importante. Ajudá-la é um desafio, vai me manter afiado."
Eu engoli em seco, sentindo um nó se formar na minha garganta. Eu o amava. Amava sua inteligência, seu foco, até mesmo sua arrogância ocasional. Eu tinha apoiado cada passo dele, comemorado cada vitória como se fosse minha. E agora, ele estava jogando tudo fora por uma garota que mal conhecia.
"E a sua faculdade? Seu futuro?", eu perguntei, a voz fraca.
"Eu sou um gênio, lembra? Posso voltar quando quiser e passar em qualquer prova. Um semestre não vai fazer diferença," ele disse, com uma confiança que beirava o delírio.
Uma parte de mim queria gritar, chorar, implorar. Mas outra parte, uma parte que eu mal conhecia, estava exausta. Exausta de competir por sua atenção, de me sentir em segundo plano.
Então, com uma calma que me surpreendeu, eu respirei fundo.
"Tudo bem."
Lucas me olhou, os olhos semicerrados. A surpresa em seu rosto era evidente.
"Tudo bem? Como assim, 'tudo bem'?"
"Se é isso que você quer, Lucas, tudo bem. Tranque a faculdade. Ajude a Sofia. Faça o que você acha que é certo."
Minha própria voz soava distante aos meus ouvidos. Por dentro, eu estava desmoronando, mas por fora, eu mantinha uma fachada de serenidade. Eu não ia dar a ele o drama que ele talvez esperasse.
Ele riu, um som seco e sem humor.
"Ah, entendi. Você está sendo sarcástica. Acha que eu não consigo? Acha que eu vou falhar e voltar rastejando?"
"Eu não disse nada disso," respondi, minha voz firme.
"Mas é o que você está pensando! Sempre me podando, sempre com essa sua insegurança. Você não consegue ver a grandeza, Manuela! Você é uma âncora!"
Cada palavra era um golpe. Âncora. Obstáculo. Eu, que passei noites em claro preparando seus lanches de estudo, que organizei sua vida para que ele pudesse focar apenas em ser brilhante.
A raiva e a dor subiram pela minha garganta como bile. Eu não conseguia mais ficar ali.
Virei as costas e saí do apartamento, batendo a porta atrás de mim.
Eu não sabia para onde estava indo, apenas corria. As lágrimas finalmente vieram, quentes e furiosas, borrando minha visão. Eu corri pelas ruas do bairro, o ar frio da noite cortando meu rosto, sem rumo, apenas querendo fugir daquela dor.
Numa esquina, sem olhar, atravessei a rua correndo.
Um grito, o som de freios cantando no asfalto.
Senti um impacto no meu ombro que me jogou para o lado, e caí na calçada, ralando os joelhos.
"Você tá bem? Moça?"
Uma voz masculina, preocupada, me tirou do meu torpor. Olhei para cima e vi um rapaz saindo de uma bicicleta caída no chão. Ele mancava um pouco e segurava o braço.
"Meu Deus, eu te machuquei?", perguntei, o pânico substituindo a dor do meu coração.
"Eu? Eu que quase te atropelei," ele disse, forçando um sorriso enquanto se aproximava. "Você saiu correndo do nada. Mas e você, se machucou?"
Só então eu olhei para ele direito. Ele era alto, tinha cabelos escuros e um olhar gentil. Havia um corte em sua mão, de onde o sangue começava a escorrer. Ele deve ter se apoiado nela ao cair.
"Sua mão...", murmurei, apontando.
Ele olhou para a própria mão como se só agora notasse o ferimento.
"Ah, não foi nada. Só um arranhão."
"Não, foi minha culpa. Eu... eu não estava prestando atenção." A culpa se misturou ao turbilhão de emoções dentro de mim. "Deixa eu te ajudar. Tem uma farmácia aqui perto."
Ele hesitou por um momento, depois assentiu.
"Ok. Meu nome é Pedro, a propósito."
"Manuela."
Enquanto caminhávamos em silêncio até a farmácia, meu celular vibrou no bolso. Era uma notificação do Instagram. Meu dedo tremeu ao abrir o aplicativo.
Era um post de Lucas.
A foto era uma pilha de livros de preparação para o vestibular, caríssimos, que eu sabia que ele não tinha dinheiro para comprar. E em cima da pilha, um único girassol. A legenda dizia: "Projeto Futuro. Tudo por você, meu girassol. 🌻 @SofiaAlves".
Sofia amava girassóis.
O ar sumiu dos meus pulmões. Não era apenas sobre ajudar. Era um projeto. Um futuro. Um futuro que ele estava construindo publicamente, me apagando da equação como se eu nunca tivesse existido.
Meu girassol.
E eu, que sempre dei a ele todo o meu jardim, era apenas a âncora.
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