
O Jardim e o Girassol
Capítulo 3
"Eu não acredito que ele fez isso."
A voz de Clara, minha melhor amiga, estava cheia de uma indignação que eu mesma não conseguia mais sentir. Eu estava apenas... vazia.
Estávamos sentadas em um banco do campus da faculdade, alguns dias depois do confronto. Eu tinha contado a ela tudo, desde a decisão de Lucas de trancar o curso até a postagem no Instagram.
"Ele sempre foi arrogante, Manu, mas isso? Isso é outro nível de canalhice," ela continuou, gesticulando com as mãos. "Trancar a própria faculdade pra dar aulinha particular pra uma caloura? Quem em sã consciência faz isso?"
"Um gênio que acha que pode tudo," respondi, minha voz monótona.
"Ele não é um gênio, ele é um idiota. E essa Sofia... que garota é essa?"
Fechei os olhos, e a imagem dela veio à mente. Sofia entrou no nosso cursinho alguns meses atrás. Tinha vindo de outra cidade, com um sorriso fácil e uma ambição que queimava nos olhos. Ela rapidamente se tornou o centro das atenções, e Lucas, que nunca se interessou por ninguém além de seus livros e, supostamente, de mim, ficou fascinado.
No começo, era inocente.
"Manu, a Sofia não entendeu a matéria de física quântica, posso explicar pra ela rapidinho depois da aula?"
Eu, a namorada compreensiva e solidária, dizia que sim.
"Claro, amor. Conhecimento foi feito para ser compartilhado."
Depois, os pedidos ficaram mais frequentes.
"Manu, vou levar a Sofia na biblioteca, ela não sabe onde ficam os melhores livros de cálculo."
"Manu, vou ficar até mais tarde no cursinho pra ajudar a Sofia com a redação dela."
"Manu, a Sofia tá muito ansiosa com os simulados, vou comprar um lanche pra ela."
Aos poucos, "nós" virou "eu e Sofia". Nossas noites de estudo se tornaram as noites de estudo dele com ela. Nossas conversas sobre o futuro foram substituídas pelas conversas dele sobre o "potencial incrível" de Sofia.
Eu tentei falar com ele, várias vezes.
"Lucas, eu sinto sua falta. Sinto falta de estudarmos juntos."
"A gente estuda, Manu. Só estou otimizando meu tempo. Ajudar ela me ajuda a revisar."
Ele era mestre em racionalizar seu egoísmo, em transformar sua negligência em um ato de nobreza intelectual.
No dia em que ele decidiu trancar a faculdade, ele nem estava em casa quando eu cheguei. Havia apenas um bilhete amassado na mesa da cozinha: "Fui resolver a papelada da faculdade e depois encontrar a Sofia. A gente se fala."
Ele nem teve a decência de me dizer pessoalmente que estava me abandonando.
Quando ele finalmente me ligou, horas depois, eu esperava um pedido de desculpas, uma explicação, qualquer coisa.
Mas a primeira coisa que ele disse foi:
"Manu, escuta, eu tô aqui com a Sofia e ela precisa daquela sua apostila de história da arte. Você pode tirar uma foto de todas as páginas e me mandar? Pra ontem."
Eu fiquei em silêncio, o celular pressionado contra a orelha, ouvindo a risada dela ao fundo. Ele não ligou para saber como eu estava. Ele ligou porque precisava de algo. Eu era uma ferramenta. Um arquivo de consulta.
"Você ainda está aí, Manuela? É urgente."
A voz dele, impaciente, me trouxe de volta à realidade. A neblina de tristeza e choque começou a se dissipar, dando lugar a uma fúria gelada.
"Não," eu disse, a palavra saindo firme e clara.
"Não o quê? Não vai mandar?"
"Não."
Eu desliguei.
Desliguei o telefone na cara de Lucas pela primeira vez em três anos de namoro.
Meu coração batia descontrolado. Fui até a geladeira, peguei uma garrafa de água e bebi tudo de uma vez, a água gelada descendo pela minha garganta, mas não conseguindo apagar o fogo que subia pelo meu peito.
Meu celular começou a vibrar incessantemente na mesa.
Uma mensagem. Duas. Dez. Vinte.
Peguei o aparelho, os dedos tremendo.
Lucas: Manuela, qual é o seu problema?
Lucas: Eu preciso disso AGORA. A Sofia tem um simulado amanhã.
Lucas: Para de ser infantil.
Lucas: É só tirar umas fotos, não vai cair seu braço.
Lucas: Você sabe o quanto isso é importante pra mim.
Lucas: Você está fazendo isso pra me atingir? Porque não está funcionando.
Lucas: MANUELA.
Lucas: RESPONDE.
Lucas: Se você não mandar em cinco minutos, esquece. Eu dou um jeito. Mas não espere mais nada de mim.
A última mensagem foi a gota d'água. "Não espere mais nada de mim." Como se ele ainda tivesse algo para me oferecer além de migalhas de atenção e pedidos egoístas.
Abri sua página de contato. A foto dele sorrindo para mim, tirada em nosso último aniversário juntos, pareceu uma zombaria.
Meus dedos se moveram com uma determinação recém-descoberta.
Bloquear.
Apagar contato.
"Sim".
O nome dele desapareceu da minha lista. O chat sumiu. Por um momento, senti um pânico avassalador, a sensação de cortar uma corda que me prendia a algo familiar, mesmo que doloroso.
Mas logo em seguida, uma onda de alívio me inundou.
Pela primeira vez em meses, eu senti que podia respirar.
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