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Capa do romance O INVERNO ME TROUXE VOCÊ

O INVERNO ME TROUXE VOCÊ

Após ser traída por Nicolas, que escolheu noivar com Laura, a vida de Ana desmorona. Em meio ao caos, ela é salva de um assalto pelo enigmático Mateo, um homem em situação de rua que se fere para protegê-la. Ao acolhê-lo em casa, Ana descobre que ele é Marco, um homem marcado por traumas profundos. Para ajudá-la a superar o ex, ele finge ser seu namorado, mas a farsa logo revela um amor real, provando que ambos podem curar suas feridas juntos neste inverno.
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Capítulo 2

Ana Meireles

Depois daquele dia em meu apartamento, as coisas ficaram um pouco mais sérias. Mesmo, Liliane insistido em me dizer que encontros apenas a noite e em meu apartamento, sem assumir publicamente, não se trata de um relacionamento.

Passamos no Café Mix, o nosso preferido, e ela está tentando de todas as formas acabar com a minha alegria, hoje Nicolas retorna da Turquia. Ele foi promovido para cobrir algumas reportagens internacionais. Fiquei muito feliz por ele, era um de seus maiores desejos. Na verdade, nosso chefe George já havia me proposto, mas não aceitei. Detesto viajar e passo muito mal em aviões, além do mais, gosto mesmo é de ficar por aqui quietinha atrás do meu notebook. Outro motivo por que Lili sempre briga comigo, disse que eu perdi a grande oportunidade da minha vida insiste que eu a dei para Nicolas de bandeja o ajudando com o trabalho.

— Para com esse sorrisinho bobo, Ana! — Ouço Lili resmungar e quanto leio pela milésima vez a mensagem de texto que Nicolas me enviou antes de viajar, na semana passada.

— Eu não estou sorrindo feito boba — falo fazendo beicinho.

Ela para, olha para o meu rosto com uma expressão brava. Seus pequenos olhos de traços orientais ficam menores que o normal.

— Você as vezes parece uma adolescente, Ana Jully! — fala se incomodando com minha alegria.

Não lhe respondo, pois, o atendente nos entrega dois cafés. Antes ele lança aquele olhar pra minha amiga. Sempre que passamos aqui o jovem rapaz a olha dessa forma.

Pegamos nossos pedidos e minha amiga ignora o sorriso do rapaz, como em todas as vezes, não sei como o pobre coitado não desiste.

— Por que ao invés de cuidar da minha vida amorosa, você não pede o contato desse rapaz? Ele é louco por você — falo me preparando para ser metralhada por ela.

Ela me olha ainda mais irritada que antes e sai a passos largos, a sigo segurando minha bebida com cuidado para não derramar.

Ouço ela resmungar:

— Eu não sou como certas pessoas, que se iludem facilmente com sexo oposto. Certamente ele faz isso para todas as garotas que passam por aqui!

Bufo. Não consigo acreditar que ela falou isso.

Já estamos do lado de fora, uma brisa fria toca meu rosto, sei que é o inverno se aproximando.

— Você sabe o quanto está enganada. Não é porque o Bruno foi um imbecil com você, significa que todos os homens da terra não prestam, sabia?

Ela para bruscamente e quase nos esbarramos, Lili se vira para mim e me enfrenta.

— E não é porque você está vivendo um romance de mentira que possa me fazer acreditar que vale a pena um relacionamento de verdade!

Agora as coisas começam a esquentar.

— Pro seu governo, meu relacionamento não é uma mentira. Nicolas é um fofo, e antes de viajar me presenteou com uma pulseira ....

Dessa vez Lili bufa me interrompendo e repetindo o que eu já havia dito mil vezes:

— Já sei... E você vai dizer que olhou no google e descobriu que a pulseira custou quase 2 mil. Afinal quem daria um presente assim pra alguém com quem não quer nada sério! E blá, blá, blá...

Odeio quando Lili usa minhas palavras contra mim. Odeio mais ainda quando fala nesse tom como se eu fosse uma idiota.

Ela nota toda minha raiva e para no mesmo instante. Vejo a expressão provocativa dela se amenizar.

— Ana... Eu sou sua amiga. Preciso te abrir os olhos. Nicolas não passa de um mulherengo e aproveitador. Ele te usou pra conseguir essa promoção. — A voz de minha amiga se amansa, e acho que eu prefiro quando ela está brava e falando pelos cotovelos.

Meus olhos se enchem de água sempre que ela diz isso.

Eu não acredito que Nicolas tenha me usado. Sei que me mandou uma única mensagem antes de viajar, certamente está muito ocupado com o trabalho.

Percebo que minha amiga continua:

— Você não entende que eu não quero te ver sofrer, Ana. — Lili se aproxima e me toca delicadamente. — Ontem, ele postou uma foto na sua despedida da viagem, ele estava na Capadócia, com a Laura.

Fico perplexa ouvindo suas palavras, buscando alguma justificativa plausível, certamente existe alguma.

— Ela... Deve ter sido encaixada para esse trabalho de última hora...

Sinto minha amiga me puxar pelo braço, desta vez com ignorância me forçando a ouvir.

— Ele estava de joelho entregando um anel pra ela, ao pôr do sol, com aqueles malditos balões no fundo, com a hashtag #DeVoltaENoivos.

Fico gélida, não consigo me mover com a cena dos dois em minha mente naquele cenário perfeito firmando um compromisso, como ele pode fazer isso comigo?

Não tenho redes sociais, detesto expor minha vida e detesto mais ainda tirar fotos. Nunca compreendi como as pessoas conseguem viver disso. Mas em alguns momentos como esse em que odeio está tão desatualizada.

Outra brisa fria nos invade, meu corpo se arrepia inteiro. Me arrependo por não ter trazido uma blusa mais grossa.

— Ana! — escuto a voz de Lili e acho que já é a milésima vez que ela me chama.

Estou em choque. Desta vez são as imagens de nós dois juntos, eu e Nicolas, que me invadem. Não é possível que eu tenha me enganado tanto.

As lágrimas descem sem que eu as segure.

— Você... Tem certeza...? — pergunto praticamente anestesiada. — Ou você só está querendo me deixar com raiva dele? — Infelizmente Lili não responde, apenas abaixa a cabeça. E isso me dói, sei que ela está falando a verdade. — Droga!

Ela se preocupa com meu estado.

— Ana, você está pálida. Acho melhor ir pra casa...

— Não! — grito me recompondo e respirando fundo. — Vou pra redação, preciso trabalhar, tenho muita coisa pra fazer, mas na sequência as lágrimas me invadem. De repente me lembro que é segunda, e toda segunda preciso passar no escritório pra entregar alguns relatórios pra George. — Droga! Droga! Hoje é dia de passar no escritório.

Levando em consideração que precisarei dirigir mais uma hora e encarar o trânsito da cidade, isso tudo é uma merda. Não sei se tenho cabeça pra ir até lá.

— Não vai. A gente dá um jeito. Liga pro Sr. George, diz que está passando mal e não tem como dirigir até lá. Fica por aqui mesmo.

— Não ... — falo fungando.

Minha amiga me toca e vê o quanto estou gelada.

— Você não está bem! Ah, mas não vou te deixar dirigir assim, neste estado.

Quando percebo, Lili já está ligando para o escritório. Não consigo reagir, acho que ela tem razão. O melhor seria ir pra casa, mas não posso, preciso pelo menos adiantar o trabalho de hoje. Seria melhor do que ficar sozinha em casa choramingando.

Observo ela desligar o aparelho.

— PRONTO! Você não vai precisar ir, pode enviar por e-mail e continuar seu trabalho daqui mesmo.

Olho para o copo em minhas mãos, o café já não tem mais graça, carrego com um péssimo ânimo. Minha amiga me ajuda a atravessar a rua, e juntas entramos no imenso prédio. Subimos no elevador praticamente mudas. Meu desejo é de desaparecer da face da terra. Entramos na recepção, não consigo se quer dar um bom dia a ninguém. Percebo que sou observada por intensos olhares por onde passo. Não entendo, isso tudo por causa de um bom dia que eu não dei? Quando viro o corredor percebo um movimento estranho, parece que todas as mulheres resolveram se reunir ali, ouço gritinhos e pulinhos de alegria. Sinto Lili me apertar forte, quando percebemos do que se trata.

Vejo a imagem de Laura vestida lindamente com um vestido social bem justo exibindo seu lindo anel de noivado. Todas as mulheres vibram enquanto ela conta com detalhes sobre o pedido perfeito que recebeu de Nicolas.

Várias bolhas explodem dentro de mim, a dor rasga meu peito e preciso ser forte para não demonstrar o quanto sinto inveja. Inveja por ela ser tão bonita e sexy quanto eu jamais fui, por ela estar noiva do homem que eu acreditava ter algum tipo de relacionamento, mas havia me enganado.

De repente vejo ele, Nicolas, o maldito está saindo do escritório de Richard, nosso editor chefe.

— Parabéns, Nicolas. Já estava passando da hora. — Escuto Richard dando felicitações a Nicolas.

No primeiro instante ele não me vê. Está sorrindo feito um imbecil que é.

Ele se aproxima de Laura e envolve sua cintura com as mãos. Todos os aplaudem e vejo ele tocar os lábios dela com os seus.

Lili me aperta.

— Vamos sair daqui. — Lili me puxa tentando me tirar dali.

Permaneço paralisada no mesmo lugar.

Quando os aplausos cessam, Nicolas passeia os olhos ao redor e de repente me vê. Acho que ele não esperava, certamente acreditou que eu estivesse no escritório, como em toda segunda. Seu sorriso se desfaz aos poucos, ele fica de todas as cores possíveis.

Richard fala algo com ele, mas ele está vidrado em mim e parece não notar.

— Meu amor, Richard está lhe perguntando. — ouço Laura lhe chamar. As mãos dela com todas as unhas pintadas de vermelho estão em seu rosto de forma carinhosa.

Ele finalmente abandona o nosso contato visual.

— Sim, meu bem — fala olhando pra ela.

Nesse momento percebo como ele sabe fingir bem, fica como se nada tivesse acontecido entre a gente.

— Richard perguntou se já temos uma data para o casamento.

Ele entrelaça seus dedos entre os dela respondendo ao carinho.

— Bom, uma coisa de cada vez...— fala rindo.

Ele me olha de canto, e é o suficiente para me deixar nervosa e o café vai das minhas mãos e se derrama todo em minha calça verde, um modelo completamente sem graça. Neste instante sou o foco de todos, vários olhares me encaram, sinto como se estivesse nua.

— Merda! — xingo baixinho. Sorte que nem está tão quente.

Lili tenta ajudar, me limpando com um guardanapo, mas só consegue me deixar mais nervosa.

— Éeee... Parabéns...ao casal — Lili diz com voz esganiçada e um sorriso falso para todos tentando amenizar o clima.

O silêncio ainda permanece no ar e acho que também preciso fazer algo para quebrá-lo.

— Pa-rabéns... Nico-las e... Laura!

Ele veste seu melhor personagens e agradece. Sua noiva me ignora como se eu fosse bastante insignificante.

O foco se volta ao casal. Aproveito para me virar de costas e sair pelo mesmo lugar que entrei.

Caminho depressa em direção ao elevador e felizmente ele se fecha antes que Lili entre. Sorrio sem graça desejando que ela entenda que eu preciso ficar sozinha. Como são 22 andares pra descer, tenho cerca de cinco minutos para descarregar toda minha raiva. Retiro meus óculos embaçados pelas lágrimas e os seco com a barra da minha camisa enquanto uma crise de ansiedade insiste em me invadir. Respiro fundo tentando me aquietar antes que eu perca o fôlego, quando a porta se abre, saio ignorando minha aparência que certamente está horrível. Sinto um vento gelado tocar minha pele, sinto falta do meu casaco, neste momento descubro que essa será uma semana tensa, em plena segunda feira, começou o inverno e descubro que fui enganada, acredito que não pode ficar pior.

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