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Capa do romance O INVERNO ME TROUXE VOCÊ

O INVERNO ME TROUXE VOCÊ

Após ser traída por Nicolas, que escolheu noivar com Laura, a vida de Ana desmorona. Em meio ao caos, ela é salva de um assalto pelo enigmático Mateo, um homem em situação de rua que se fere para protegê-la. Ao acolhê-lo em casa, Ana descobre que ele é Marco, um homem marcado por traumas profundos. Para ajudá-la a superar o ex, ele finge ser seu namorado, mas a farsa logo revela um amor real, provando que ambos podem curar suas feridas juntos neste inverno.
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Capítulo 3

Ana

Dirijo por duas horas, inicialmente não sei pra onde ir, e mesmo sabendo que é uma grande loucura, decido ir pra minha cidade, para casa de minha mãe. Dona Márcia, não é a melhor pessoa pra me ajudar nesse momento, mas... não tenho mais ninguém e afinal ela é minha mãe, e acredito que é isso que mães fazem, cuidam dos filhos.

São quase duas da tarde, vejo um carro velho e estranho estacionado no portão.

Dona Márcia vai ficar assustada ao me ver, não avisei que viria, eu deveria estar no trabalho, porém estava muito indisposta para ficar na redação devido as circunstâncias. Dou uma olhada no espelho do meio do carro e vejo minha imagem deplorável. Olhos inchados, rosto vermelho, perfeito para as críticas dela.

Desço e sigo em direção a porta, tudo continua da mesma forma, o jardim, cheio de flores e vários pés de frutas pelo quintal. Me recordo das vezes em que eu e Louyse corríamos por ali. Às vezes Beto, o filho da vizinha brincava com a gente, antes deles se mudarem. Beto foi meu primeiro namoradinho de infância. Sorrio ao me lembrar disso. Ele sempre fingia confundir a gente, beijava as duas, hora a mim e hora Louyse, pois éramos idênticas, noto que eu já tinha uma queda por canalhas desde pequena.

Respiro fundo tentando esquecer a dor que aperta meu coração.

Bato na porta. Há uma demora para atender, até que...

— Ana Jully!?— Me irrito por ouvir o nome que odeio, pela segunda vez no mesmo dia.

Bufo.

— Mamãe — respondo em tom desanimado.

Ela parece assustada, claro, não me esperava por aqui.

— Ana Jully, o que você está fazendo aqui?

Começo a achar minha mãe estranha, sempre a vejo de mau humor, apresada em desligar o telefone quando nos falamos, coisas desse tipo, mas neste momento, ela está... nervosa... como se temesse algo.

— Oi pra você também, mamãe, senti saudades! — digo cheia de ironia.

Vou entrando mesmo sem que ela me convide, e noto como seu nervosismo só aumenta.

Dou uma analisada de forma discreta e vejo na sala um colchão com dois travesseiros e duas taças de vinho no chão junto a uma garrafa vazia. Certamente a noite anterior foi bem divertida e nada solitária.

— Minha filha, eu não te esperava. Você não deveria estar no trabalho? — Ela respira fundo — Ana Jully não vai me dizer que foi despedida? — Começa com seu tom acusatório, agora sim é a Márcia de sempre.

Respondo:

— Não, mamãe, eu não fui demitida — bufo. — Só não estou muito bem hoje.

Ela me analisa da cabeça aos pés com cara de entojo.

— Na verdade, bem você nunca esteve! Olha essas roupas ridículas, nem parece que trabalha num jornal tão famoso.

Levando em consideração que todas as vezes que ela me vê, fala as mesmas coisas sobre minhas roupas, eu não me importo, a ignoro.

Ouço ela continuar:

— E olha esse cabelo, tá horrível. Sem falar nessas olheiras. Você estava chorando, Ana Jully?

Nesse momento, ouço uma voz que é capaz de fazer estremecer até o último fio do meu cabelo, de pânico.

— Marcinha, não achei a chave philips...— Quando me vê, o maldito se cala no mesmo instante.

Todos no recinto ficamos paralisados. Minha mãe fica completamente sem graça. Agora eu compreendo o motivo de todo seu nervosismo.

Mesmo assim minha mãe se recompõe e finge não se importar com a minha opinião.

— Está na gaveta à direita.

O pior é que o maldito ainda tenta falar comigo.

— Ooi, Jullynha.

Sinto ânsia de vômito, percebo que hoje não é o meu dia.

Imagens da minha infância invadem minha mente, porém dessa vez são imagens dolorosas, de uma criança completamente apavorada, escondida debaixo da cama ou na garagem.

Não o respondo. Na verdade, lhe ignoro. Falo diretamente com minha mãe.

— O que, ele está fazendo aqui? — pergunto sem esconder minha indignação.

Semicerro os dentes e as lágrimas descem. Lágrimas de ódio por esse homem, lágrimas de mágoa por Nicolas. Há um turbilhão de emoção dentro de mim.

O pior de tudo é que minha mãe parece não se importar. Como sempre.

— Ana, eu não te devo explicações, você não mora mais aqui.

Sua voz é tão fria quanto sempre foi.

— Você aceitou um cara que te bateu e que estava preso por estupro de uma de suas amigas? Ah, não me deve explicações ou não existem explicações?

O imbecil se manifesta e eu desejo mais do que tudo dar um soco na cara dele.

— Jullynha não foi assim...

Felizmente minha mãe lhe interrompe.

— Nos deixe a sós, Zeca.

Ela parece estar com tanta raiva quanto eu, porém nossa raiva é por motivos opostos.

— A gente é apenas amigos. O Zeca está me ajudando com o aquecedor que estragou, o inverno começa hoje.

— Mãe, eu não sou idiota! Esse imbecil estava preso, ele estuprou sua amiga e mesmo assim vai fingir que nada aconteceu?

Ela tem a resposta na ponta da língua:

— Foi consensual, Ana. Você sabe o quanto a Mônica é assanhada. Eles beberam muito naquela noite e ela se insinuou pra ele. Quando Zeca se arrependeu e disse que me contaria sobre eles, ela o ameaçou, por isso denunciou ele...

Não suporto suas explicações insanas.

— Chega! Mamãe! Essa história é nojenta sabia? — argumento aos gritos. — E você ainda acredita nele. Então ele passou esses anos preso injustamente?

Ela bufa impaciente.

— Não, Ana. Zeca tinha um mandado de prisão em aberto por causa de alguns problemas que ele teve com drogas, mas isso foi há anos atrás.

Aquela história ficava cada vez mais suja e a revolta cresce dentro de mim.

Enxugo minhas lágrimas ao ver que minha mãe vai defender ele de todas as formas.

Nunca tive coragem de contar o que esse monstro fez comigo, acho que no fundo tenho medo que ela não acredite, e que faça como sempre faz, inventa desculpas para colocá-lo como inocente e as vítimas como culpadas.

Imediatamente me arrependo de ter vindo até aqui.

Minha mãe nota que não quero continuar com esse diálogo, e certamente está contente, por isso começa a fingir que se preocupa comigo.

— Por que você dirigiu duas horas, para vir aqui, minha filha? O que está acontecendo com você?

Me viro em direção a porta em silêncio.

— Acho melhor voltar pra cidade.

Minha mãe me segue enquanto saio pra fora. Consigo ver Zeca perto da garagem.

— É algum problema amoroso, minha filha? — ela pergunta mesmo sem que eu olhe para trás.

Márcia parece revoltada com meu desprezo. E para não ficar por baixo dá o último grito como o golpe final.

— Eu só quero te ajudar, Jully, o que ele te fez? Afinal você sempre teve dedo podre para escolher homens.

Nesse momento eu paro, respiro fundo e lhe dou a última resposta.

— Pelo menos, temos algo em comum não é mesmo, mamãe? — resmungo olhando para o embuste na garagem.

Os dois me encaram feito dois paspalhos, entro no meu carro e saio dali o mais rápido possível.

Continuo dirigindo de volta para casa aos prantos.

Estou completamente sem chão com tudo o que está acontecendo. Rever aquele homem me deixou ainda pior.

Mas isso não é tudo, me sinto uma idiota por ter sido enganada por Nicolas.

Aos poucos as coisas fazem sentido pra mim, me recordo sobre o quanto ele me enrolou sobre seu término, sua viagem pra Turquia com ela, e sobre todas as vezes que me ignorou ao telefone.

Por falar nisso, ouço o meu tocar. Dou uma olhadinha e... advinha?

É o canalha!

Penso mil vezes se atendo ou não. Um lado diz que não devo, mas o outro anseia em falar poucas e boas para esse canalha. Então encosto o carro e atendo.

Ligação on

— Ana! — ele fala meu nome bastante aflito. No primeiro instante não consigo responder. Ouço ele novamente: — Ana, me responde por favor!

Respiro fundo e de repente me travo, não consigo dizer tudo o que está engasgado.

— Oi... Nicolas — é tudo que consigo dizer.

— Ana, Céus, estou tentando falar com você faz tempo. Onde você está? Te procurei na redação, fui na sua casa...

De repente sinto uma coragem me invadir e lhe interrompo:

— O que você quer? — pergunto secamente.

— Precisamos conversar, tenho que te explicar as coisas.

Não sei o que acontece comigo nesse momento, mas tenho uma ideia maluca. Não quero parecer uma mulher ingênua que foi enganada por um homem experiente e canalha. Pelo menos vai me restar um pouco de dignidade.

— Não. Você não tem que me explicar nada, Nicolas. Não tínhamos nada oficial. A propósito, eu também conheci uma pessoa.

Percebo ele engasgar do outro lado.

— Como assim, você conheceu alguém. Quem?

Parece insano, mas sinto um pouco de ciúmes em sua voz, e isso estimula ainda mais minhas provocações.

— Conheci no Tinder. Depois que você viajou resolvi conhecer ele pessoalmente e rolou uma química incrível entre nós.

Ele não responde no mesmo instante. Apenas fala meu nome:

— Ana...

— Tudo bem, Nicolas, a gente nunca levou a sério o que rolava entre nós. Mas agora acabou! Afinal você vai se casar, né?

Me esforço para continuar minha interpretação, mas na verdade estou destruída por dentro.

— Não, Ana, não é assim. Isso é mentira. Você só quer se vingar.

Tenho vontade de rir, mas me seguro. Ele é mais babaca do que eu esperava.

— Não preciso mentir pra você. Agora ao contrário de mim...

Ele me interrompe:

— E como ele se chama?

Fico muda, o desespero é tão grande que todos os nomes masculinos desaparecem da minha mente. Pego uma revista no porta luvas e procuro o primeiro nome que aparece escrito.

— Mateo! Ele se chama Mateo.

Ouço em sua voz uma mistura de riso com raiva. Ele bufa.

— Isso só pode ser brincadeira. Olha, Ana, ainda não acredito em você. Quero te ver pra gente conversar.

Grito imediatamente:

— Não! Não posso, pois, vou me encontrar com Mateo, hoje e... amanhã também.

Eu não quero ver ele, me recuso acreditar em qualquer palavra que saia de sua boca. Meu maior medo é de que ele consiga me enganar novamente.

Escuto sua risadinha sarcástica do outro lado. Acho que ele realmente não acredita em minha história.

— Hoje, às seis passo na sua casa. Desculpe por você ter descoberto tudo daquela forma, não esperava que você estivesse na redação.

E queria que eu descobrisse como? Pelas redes sociais? Ah, não, ele sabe que não tenho. Idiota!

Penso.

— Claro que fiquei surpresa, mas está tudo bem. Estava precisando te contar sobre Mateo, então estamos quites.

Acho que no fundo deixei ele na dúvida sobre a existência do tal Mateo.

— Você insiste nesse cara! — Sua voz sai num tom rude.

— Olha, Nicolas, preciso ir. Depois a gente se fala, na redação.

Me sinto contente ao me lembrar que ele agora não trabalha mais ao meu lado, foi promovido as reportagens de campo. Estou livre de ficar ao seu lado depois de tudo.

— Ana...

Desligo bruscamente em sua cara.

Ligação off

Fico por um bom tempo olhando para o nada sentindo o imenso vazio aumentar a cada instante dentro de mim. Pensei que toda minha mentira me fizesse sentir melhor ou menos idiota. Mas eu me enganei, a dor continua aqui, e as lágrimas também, por isso não as seguro.

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