
O Fogo Que Não Me Quebrou
Capítulo 3
A porta do quarto abriu-se.
Miguel entrou, seguido de perto pela sua mãe, Helena.
Ele tinha a cara suja e a roupa chamuscada. Parecia exausto. Helena, como sempre, estava impecável, o seu rosto uma máscara de desaprovação fria.
"Sofia, estás bem?" perguntou Miguel, aproximando-se da cama.
Não lhe respondi. Apenas o encarei, o meu olhar vazio.
"O médico disse que inalaste muita fumaça, mas que vais ficar bem," continuou ele, evitando os meus olhos.
"O bebé," disse eu, a minha voz sem emoção.
Miguel hesitou. Foi Helena quem falou.
"Foi uma tragédia," disse ela, com um tom que não tinha nada de trágico. "Mas estas coisas acontecem. Agora tens de ser forte."
Ser forte.
"Onde estavas, Miguel?" perguntei, a minha voz baixa mas firme.
"Eu disse-te. Estava a ajudar a Clara. O apartamento dela encheu-se de fumaça muito depressa. Ela tem asma, Sofia. Ela podia ter morrido."
"E eu?" perguntei. "E o teu filho? Nós não podíamos morrer?"
"Claro que não! Eu ia voltar para te buscar!" ele disse, levantando a voz. "Os bombeiros chegaram primeiro! O que é que eu podia fazer?"
"Podias ter vindo a mim primeiro. Eu era a tua mulher. Eu estava a carregar o teu filho."
Helena deu um passo em frente, o seu perfume caro a encher o ar estéril.
"Não sejas dramática, Sofia. O Miguel fez o que qualquer pessoa decente faria. A Clara estava em perigo imediato. Tu estavas num quarto com a porta fechada, mais protegida."
Protegida. Eu quase morri asfixiada. O meu filho morreu.
"O apartamento dela fica no andar de cima. O nosso fica no oitavo. Tiveram de evacuar o prédio de baixo para cima. Como é que ela estava em perigo mais imediato do que eu?"
A lógica fria da minha pergunta pareceu apanhá-los de surpresa.
Miguel gaguejou. "A fumaça sobe, Sofia. É óbvio."
"Não me interessa," disse eu, cortando a sua desculpa esfarrapada. "Eu liguei-te a pedir ajuda. Tu escolheste. Escolheste-a a ela."
Virei a cabeça e olhei para a parede branca.
"Quero o divórcio."
O silêncio no quarto foi pesado.
Depois, a fúria de Miguel explodiu.
"Divórcio? Estás a falar a sério? Depois de tudo o que aconteceu? Perdemos o nosso filho e a primeira coisa em que pensas é em divórcio? Que tipo de pessoa és tu?"
"Sou o tipo de pessoa que não quer estar casada com um homem que me deixou para morrer," respondi, sem olhar para ele.
"Isso é mentira!" gritou ele.
"Saiam," disse eu, a minha voz a ganhar força. "Ambos. Saiam do meu quarto. Agora."
Helena olhou para mim com puro desprezo.
"Sempre soube que não eras boa o suficiente para o meu filho. Ingrata. Ele salva uma vida e é assim que lhe agradeces."
Ela agarrou no braço de Miguel e puxou-o para a porta.
"Vamos, filho. Deixa-a ter o seu ataque de histeria. Ela vai mudar de ideias quando perceber o que está a perder."
Eles saíram, batendo a porta atrás de si.
Fiquei sozinha com o som do monitor cardíaco. Um som rítmico e constante.
A prova de que o meu coração ainda batia, mesmo que parecesse ter parado.
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