
O Fim de Um Ciclo Doloroso
Capítulo 2
A memória da minha vida passada era um zumbido constante, uma dor que nunca desaparecia por completo. Eu me lembrava de tudo com uma clareza terrível.
Lembro-me do meu filho, Léo, deitado numa cama de hospital, o seu pequeno peito a subir e a descer com dificuldade.
Ele tinha apenas cinco anos e sofria de uma alergia grave a amendoins, algo que o meu marido, Marcos, sempre considerou um exagero da minha parte.
"É só um pouco de cuidado extra, Sofia. Não precisa fazer disso um drama", ele dizia, revirando os olhos.
Naquele dia fatídico, estávamos na casa da família de uma colega de trabalho dele. O nome dela era Laura, uma viúva que Marcos insistia que precisava da nossa ajuda e compaixão.
Laura ofereceu um pedaço de bolo ao Léo.
Eu perguntei imediatamente: "Tem amendoim? Ele é extremamente alérgico".
Laura sorriu, um sorriso que hoje sei que era falso. "Claro que não, Sofia. Eu nunca faria isso. Sou mãe também".
Eu acreditei. E esse foi o meu maior erro.
Minutos depois, o rosto do Léo começou a inchar. Os seus lábios ficaram azuis. Ele não conseguia respirar.
Eu entrei em pânico, gritei para o Marcos que precisávamos ir para o hospital imediatamente.
Mas Marcos estava calmo, terrivelmente calmo. "Calma, Sofia. Não vamos estragar a festa. A Laura disse que não tem amendoim. Deve ser outra coisa. Ele só está a fazer birra".
Laura concordou, colocando uma mão no ombro de Marcos. "Ele deve ter-se engasgado com um pouco de bolo. Dê-lhe um pouco de água".
Eles agiram em conluio, uma frente unida de indiferença e crueldade. Cada segundo perdido era uma facada no meu coração e uma sentença de morte para o meu filho.
Quando finalmente chegámos ao hospital, já era tarde demais. O médico disse as palavras que destruíram o meu mundo: "Choque anafilático severo. Fizemos tudo o que podíamos".
Léo, o meu anjinho, o meu único filho, morreu.
Morreu porque o seu pai preferiu acreditar na amante a acreditar na sua esposa. Morreu porque uma mulher invejosa e cruel o envenenou deliberadamente.
A dor consumiu-me. O luto transformou-se em ódio. Mas eu não podia fazer nada. Marcos e Laura usaram o seu dinheiro e influência para abafar tudo. Fui retratada como uma mãe negligente e histérica.
Eu vivi o resto dos meus dias num inferno de solidão e desespero, até que um dia, a escuridão finalmente me engoliu.
E então... eu acordei.
A luz do sol entrava pela janela do meu quarto. O cheiro de café fresco vinha da cozinha. E o som mais doce do mundo chegou aos meus ouvidos.
"Mamã, acorda! Vamos perder o autocarro para a escola!"
Era a voz do Léo.
Sentei-me na cama, o coração a bater descontroladamente. Olhei para as minhas mãos. Eram as minhas mãos, mas mais jovens, sem as rugas de tristeza que eu conhecia tão bem.
Léo entrou a correr no quarto, o seu rosto rosado e cheio de vida. Ele pulou para a cama e abraçou-me com força.
"Mamã, estás a chorar?"
Eu toquei no rosto dele, no seu cabelo, nos seus bracinhos. Ele era real. Ele estava vivo.
As lágrimas corriam pelo meu rosto, mas não eram de tristeza. Eram de alívio, de uma gratidão tão profunda que me sufocava.
Eu tinha voltado. Tinha voltado a três anos antes da sua morte.
Eu tinha recebido uma segunda oportunidade.
E desta vez, eu não ia falhar. Eu ia proteger o meu filho. E ia fazer com que aqueles que lhe fizeram mal pagassem. Cada um deles.
Abracei o Léo com toda a minha força, inalando o seu cheiro infantil.
"Não, meu amor", sussurrei. "A mamã não está a chorar. A mamã está feliz. Muito, muito feliz".
Desta vez, a história seria diferente.
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