
O Fim de Um Ciclo Doloroso
Capítulo 3
A minha primeira decisão foi imediata e inabalável: Léo tinha de sair daquela casa. Tinha de ficar longe de Marcos e, consequentemente, de Laura.
Na mesma manhã, enquanto Marcos ainda estava no chuveiro, eu liguei para os meus pais. Eles viviam numa cidade pequena e tranquila a algumas horas de distância.
"Mãe", eu disse, a minha voz firme, escondendo o turbilhão de emoções dentro de mim. "Preciso de um favor. Preciso que o Léo passe um tempo com vocês".
A minha mãe ficou surpreendida. "Aconteceu alguma coisa, filha? Vocês brigaram?"
"Não, está tudo bem. É só... o ar da cidade não lhe está a fazer bem. Ele precisa de um ambiente mais calmo, mais saudável. Por favor, mãe".
Ela hesitou por um momento, mas a urgência na minha voz convenceu-a. "Claro, filha. A casa do avô está sempre aberta para ele".
Desliguei o telefone e comecei a fazer a mala do Léo. As suas roupas pequenas, os seus brinquedos favoritos, o seu livro de dinossauros. Cada item era uma promessa de que desta vez eu o manteria seguro.
Léo entrou no quarto, os seus olhos grandes e curiosos fixos na mala aberta.
"Mamã, vamos viajar?"
Ajoelhei-me à sua frente e segurei as suas mãos. "Meu amor, vais passar umas férias na casa da avó e do avô. Vais poder brincar no quintal grande deles e comer os bolos deliciosos da avó".
O seu rosto murchou um pouco. "Mas tu não vens?"
Aquela pergunta partiu-me o coração. Na minha vida passada, eu nunca o deixei. Agora, para o salvar, eu tinha de o afastar de mim.
"A mamã tem de resolver umas coisas aqui, meu amor. Mas eu prometo que vou visitar-te sempre que puder. E vamos falar por vídeo todos os dias".
Ele abraçou-me, o seu pequeno corpo a tremer ligeiramente. "Vou sentir a tua falta, mamã".
"Eu também vou sentir a tua falta, mais do que imaginas", sussurrei, lutando para não chorar.
Quando Marcos saiu do quarto de banho, viu a mala e franziu a testa.
"O que é isto? Vais a algum lado?"
"O Léo vai", respondi, a minha voz fria. "Ele vai passar um tempo com os meus pais".
A expressão de Marcos mudou de confusão para raiva. "Tu decidiste isso sozinha? Sem falar comigo? Que tipo de mãe és tu que manda o filho para longe?"
As suas palavras eram as mesmas acusações que ele usaria contra mim no futuro. Mas desta vez, elas não me atingiram. Eu estava blindada pela memória da dor que ele me causou.
"Uma mãe que se preocupa com o bem-estar do seu filho", respondi, olhando-o nos olhos.
"Bem-estar? Ele está perfeitamente bem aqui! Estás a ser egoísta, Sofia! Estás a privá-lo do pai dele só porque estás chateada com alguma coisa!"
Ele aproximou-se, a sua voz a subir de tom, tentando intimidar-me como sempre fazia.
"Ele precisa de ar puro. A poluição da cidade não lhe faz bem", usei a mesma desculpa que dei à minha mãe, uma desculpa plausível que escondia a verdade aterrorizante.
Marcos riu, um riso de escárnio. "Ar puro? Que besteira é essa? Estás a inventar desculpas! Se o levares, ele vai crescer ressentido contigo. Ele vai pensar que a mãe dele o abandonou. Já pensaste nisso?"
Era chantagem emocional, a sua arma preferida. Mas eu já não era a mesma Sofia.
Olhei para ele, um sorriso gelado a formar-se nos meus lábios.
"Sabes, Marcos, talvez tenhas razão. Talvez eu devesse pensar mais nas pessoas que precisam de atenção", fiz uma pausa deliberada. "Como a Laura, por exemplo. Ela parece precisar de muito apoio ultimamente, não é? Deves estar muito ocupado a dar-lhe esse apoio".
O rosto de Marcos congelou. A raiva deu lugar ao choque e a um pânico mal disfarçado.
Ele sabia.
Eu sabia.
O jogo tinha começado.
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