
O Fantasma do Sindicato: A Rainha Esquecida do Don
Capítulo 2
Ponto de Vista: Helena
Minha primeira ligação foi para o advogado da família. O nome dele era Dr. Marcos, um homem cuja lealdade era comprada e paga pela família Falcão.
"Eu quero o divórcio," eu disse, minha voz plana e vazia.
Silêncio. Então, uma tosse nervosa. "Sra. Falcão... Helena. O Elias está ciente disso?"
"Ele vai ficar," respondi e desliguei.
Minha segunda ligação foi para o mordomo-chefe. "Quero todas as fotografias minhas e do meu marido levadas para o jardim. Agora."
Sob a luz fria da lua, eu estava no jardim impecável da nossa cobertura que era minha prisão. A equipe havia empilhado as molduras de ouro e prata em uma pilha alta. Uma década da minha vida: nosso casamento, férias, momentos roubados que agora eu sabia que foram construídos sobre uma base de mentiras.
Encharquei a pilha com fluido de isqueiro. As chamas subiram com um rugido ganancioso, consumindo os rostos sorridentes, derretendo a prata, transformando dez anos de memórias em uma coluna de fumaça preta que manchou o céu noturno.
Salvei apenas as fotos do meu filho, Léo.
Meu celular vibrou. Uma mensagem de Joana.
*Consegui adiantar algumas coisas. Podemos fazer isso antes do que eu pensava. Existe uma saída, Helena. É só dizer.*
Esperança. Era um sentimento estranho, uma faísca frágil na vasta e fria escuridão do meu coração.
O cheiro de fumaça ainda pairava no ar quando Elias chegou em casa. Ele entrou no jardim, seu rosto uma máscara de preocupação. Ele não perguntou o que eu tinha feito. Não precisava.
"Oh, meu amor," ele sussurrou, sua voz um murmúrio baixo e enjoativo. Ele me pegou nos braços, me erguendo como se eu fosse uma boneca quebrada, e me carregou pela cobertura até nosso quarto. Não foi um ato de amor. Foi um ato de posse.
Ele me deitou na cama e sentou-se ao meu lado, tirando uma pasta grossa de couro de sua maleta.
"Eu sei que você está sofrendo, Helena," ele disse suavemente. "Eu sei que você acha que eu não entendo. Mas eu entendo. E quero provar."
Ele espalhou os papéis sobre o edredom de seda. Um contrato. Ele estava transferindo cinquenta e um por cento das empresas de fachada da Organização Falcão para o meu nome. Hotéis, empresas de transporte, imóveis. Bilhões de reais.
Não era um presente. Era uma corrente, forjada em ouro, projetada para me prender a ele para sempre.
"Você é a rainha deste império, Helena. Você e mais ninguém," ele murmurou, seus olhos intensos.
Então ele pegou duas caixinhas pequenas e elegantes. Abriu uma, revelando um relógio delicado, cravejado de diamantes. Ele o prendeu no meu pulso. Era frio e pesado. Ele prendeu o par correspondente no seu próprio pulso.
"Eles monitoram nossos batimentos cardíacos," ele disse, seu polegar acariciando meu pulso. "Assim, sempre saberei que você está segura. Para que eu possa sentir seu coração batendo com o meu."
Meu estômago revirou. Não era segurança. Era um rastreador. Uma coleira.
"Prometa-me," ele ordenou, sua voz baixando para o tom grave e perigoso que ele reservava para ordens, não pedidos. "Prometa-me que nunca vai me deixar."
Eu não disse nada.
A gala de caridade uma semana depois foi o palco dele. Ele se apresentou diante da elite da cidade, um marido amoroso apoiando sua esposa enlutada. Ele anunciou a transferência de ações, pintando-a como um tributo à minha força. A sala aplaudiu. Senti-me como uma égua premiada sendo exibida em um leilão.
Então veio a verdadeira performance.
"E nesse espírito de família," Elias anunciou, sua voz ressoando, "tenho uma surpresa para minha linda esposa. Uma maneira de nos curarmos. De construirmos um novo futuro."
Ele gesticulou para o lado do palco. Um menino, não mais velho que quatro anos, entrou. Era o menino do sobrado. Caio Soares.
"Estou adotando oficialmente um filho," Elias declarou.
O menino correu para mim, com os braços estendidos. "Mamãe!" ele gritou, a palavra soando ensaiada, uma fala dada a ele para o benefício da multidão.
Fui forçada a pegá-lo, a segurar a prova viva e pulsante da traição do meu marido em meus braços enquanto as câmeras piscavam. Meu corpo ficou rígido. O menino cheirava ao perfume de Kátia.
Nesse momento, a própria Kátia apareceu, correndo para o palco com uma expressão frenética e apologética.
"Oh, Sr. Falcão, sinto muito pela interrupção," ela disse, interpretando seu papel lindamente. "O Caio tem uma alergia severa, ele não pode ficar perto de flores." Ela estava vestida como uma assistente social, suas roupas sem graça, o cabelo preso. A imagem perfeita de preocupação profissional.
Elias fingiu um lampejo de fúria, agarrando o braço dela e a puxando para longe. "Qual é o significado disso?" ele sibilou, alto o suficiente para que os mais próximos ouvissem. "Você está estragando tudo."
Eu os segui para um corredor de serviço logo atrás do palco. A ilusão se desfez no momento em que a porta se fechou. Ele não a soltou. Ele a puxou para um abraço quente, sua mão emaranhada no cabelo dela.
"Você é melhor atriz do que eu pensava," ele murmurou contra os lábios dela.
Kátia riu. "Você não é nada mal também, meu Don."
Minha respiração falhou. Recuei, mas não antes que o menino, Caio, me visse. Ele ainda estava parado aos meus pés.
Ele olhou para mim, seu rosto se contorcendo em um escárnio que era puro Kátia. "Você não é minha mãe," ele cuspiu, e então cravou suas unhas pequenas e afiadas no meu braço, tirando sangue.
Elias e Kátia saíram do corredor. Os olhos de Elias percorreram meu rosto, depois o arranhão no meu braço, e seu rosto endureceu.
"Leve o Caio para casa, Helena," ele ordenou, sua voz fria. Ele se virou para Kátia, sua expressão suavizando instantaneamente. "Temos que ir finalizar a papelada da adoção."
Ele estava saindo com ela. E estava me mandando para casa com seu filho bastardo.
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