
O Fantasma do Sindicato: A Rainha Esquecida do Don
Capítulo 3
Ponto de Vista: Helena
A noite toda, observei o ponto brilhante na tela do meu relógio. Pulsava, firme e inabalável, sobre o endereço de Kátia Soares. O batimento cardíaco de Elias, um pulsar rítmico contra meu pulso, era um tormento constante e íntimo. Ele estava com ela. Seu coração estava calmo. Firme. Ele estava em paz.
Meu próprio coração era um pássaro frenético preso em minhas costelas.
Um barulho alto vindo do andar de cima quebrou o silêncio e me deu um susto. Veio do quarto que havia sido preparado para Caio.
Encontrei o menino de pé em um cenário de sua própria destruição. Brinquedos quebrados espalhados pelo chão como vítimas de guerra. Gavetas escancaradas, seu conteúdo despejado pelo carpete. Uma luminária jazia estilhaçada, seu fio serpenteando em direção à parede. Ele estava sistemática e metodicamente destruindo o quarto.
"Caio, pare," eu disse, minha voz um tremor baixo, tensa com a raiva que eu lutava para conter.
Ele se virou para mim, seus olhos selvagens. Com um grito, ele se lançou contra mim, seus pequenos punhos socando minhas pernas. Agarrei seus braços.
Foi um erro.
Ele imediatamente ficou mole, desabando no chão em um monte. Um grito agudo rasgou sua garganta, um som de puro terror fabricado.
"Você me machucou!" ele lamentou, agarrando o braço como se estivesse quebrado. "Você me machucou! Vou contar para o meu pai! Vou contar para o Don!"
Recuei, minhas mãos tremendo.
Retirei-me para o andar de baixo e afundei em uma cadeira na cavernosa sala de estar, torturada por dois sons: os soluços fabricados do menino no andar de cima e a batida firme e traiçoeira do coração do meu marido do outro lado da cidade.
A pesada porta da frente se abriu com um estrondo. Não era Elias. Era sua mãe, Flora Falcão. A Matriarca. Uma mulher que parecia ter sido esculpida em gelo glacial, sua característica definidora era o desprezo aberto que ela tinha por mim, a civil que havia "enfraquecido" a linhagem Falcão.
Seus olhos, lascas de gelo, me encontraram. Ela não se deu ao trabalho de subir as escadas; veio direto para mim, seu rosto uma máscara trovejante. "Onde ele está?" ela exigiu. "O que você fez com o menino?"
Ela me arrastou pelo braço, seus dedos cravando em minha carne, e me puxou pela grande escadaria e pelo corredor até o quarto de Caio. Kátia já estava lá — claro que estava — ajoelhada ao lado da cama. Deve ter sido ela quem ligou.
"Flora, graças a Deus você está aqui," Kátia suspirou, sua voz uma imitação perfeita de pânico enquanto passava um pano frio na testa do menino. Ele estava corado, sua respiração superficial. "Ele está com febre."
Os olhos de Caio se abriram tremulamente. Ele me viu na porta, presa no aperto da Matriarca. Um dedo pequeno e trêmulo se ergueu e apontou diretamente para mim.
"Ela me bateu," ele sussurrou.
Kátia soltou um suspiro agudo e teatral. "Ele estava com tanto medo. Disse que ela estava com muita raiva."
O olhar de Flora se aguçou. Com uma calma arrepiante, ela levantou a barra do pijama dele, revelando um hematoma escuro e feio florescendo em sua canela. Um hematoma que eu nunca tinha visto antes. Uma certeza doentia se enrolou em meu estômago. Kátia o havia colocado ali.
O tapa foi tão forte que minha cabeça virou para o lado, minha bochecha explodindo em dor branca e quente.
"Sua vadia estéril," Flora sibilou, sua voz um sussurro baixo e venenoso. "Você ousa encostar um dedo no filho dele? No futuro desta família?"
E então, como se convocado pela violência, Elias estava lá. Ele parou na porta, observando a cena: sua mãe histérica, sua amante angustiada, seu filho doente, e eu — sua esposa — com a marca vermelha da mão de sua mãe florescendo em meu rosto.
Sua expressão era de decepção glacial. Ele não fez uma única pergunta. Não procurou a verdade. Ele olhou para mim, e em seus olhos, eu vi meu veredito.
"Levem-na," ele disse aos dois guardas que o seguiram.
Eles agarraram meus braços. Eu não lutei. Qual era o sentido?
Eles me arrastaram da cobertura, por um elevador de serviço, e através dos terrenos escuros da propriedade até um pequeno prédio de pedra perto da borda da propriedade. A casa de bombas da antiga represa.
Eles me jogaram lá dentro, e a pesada porta de ferro bateu com um estrondo, a fechadura se encaixando. Estava escuro, e o frio foi imediato. O ar estava pesado com o cheiro de terra úmida e ferrugem.
E então eu ouvi. O gotejar lento e constante de água.
Água gelada vazava de um cano perto do chão, formando uma poça ao redor dos meus tornozelos. Subia lentamente, implacavelmente. Até meus joelhos. Até minha cintura.
A memória de Léo, de tirar seu corpo pequeno e sem vida do lago, me consumiu. O frio, a escuridão, a água. Meus medos mais profundos, transformados em armas contra mim pelo homem que um dia amei.
Eu não gritei. Apenas me entreguei à escuridão gelada e deixei que ela me levasse.
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