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Capa do romance O DUQUE DE BLACKMOOR

O DUQUE DE BLACKMOOR

O Duque de BlackMoor vive isolado desde a trágica morte de sua esposa, escondendo-se sob frieza e boatos sombrios. Helena, após perder tudo, é acolhida pelo nobre em sua enigmática propriedade. No silêncio da mansão, surge uma atração proibida e carregada de culpa. Contudo, segredos enterrados ameaçam ressurgir, forçando-a a enfrentar verdades perigosas. Quando o passado exige seu preço, ela deve descobrir se o amor resiste ao que deveria ficar oculto.
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Capítulo 3

Helena foi avisada naquela tarde de que jantaria com o duque.

A informação não veio acompanhada de explicações, apenas da naturalidade com que uma das governantas a transmitiu, como se fosse algo esperado desde o momento em que Helena cruzara os portões de Blackmoor. Ainda assim, sentiu o peso da notícia pousar-lhe sobre os ombros. Mas provavelmente saberia melhor sobre quem era o Duque de BlackMoor.

- O duque solicitou sua presença à mesa esta noite - disse a senhora Ellison, com a voz baixa e respeitosa. - Pediu também que escolhesse o vestido que desejar no armário.

Helena ergueu os olhos, surpresa.

- Qualquer um?

A governanta assentiu com um leve sorriso contido.

- Exatamente como disse.

Enquanto Helena passa os olhos sobre os vestidos no armário, ela pergunta sobre de quem era o quarto de era da mulher do quadro na parede.

- Quem é ela? - perguntou Helena, voltando-se para a governanta. - Esta era... a esposa do duque?

A senhora Ellison assentiu, com respeito.

- Lady Montford. A duquesa de Blackmoor. Faleceu no último inverno.

Helena hesitou antes de fazer a última pergunta.

- Este era o quarto dela?

A governanta demorou um instante a responder.

- Sim. O duque pediu que fosse preparado para recebê-la. Poucas coisas foram alteradas desde então.

Helena voltou o olhar para o retrato. Compreendeu, naquele momento, que Blackmoor não guardava apenas silêncio, mas memórias. E que ocupar aquele espaço não era um gesto casual - era uma escolha carregada de significado, ainda que ninguém se dispusesse a explicá-lo.

Sozinha no quarto, Helena caminhou até o amplo armário que até então lhe parecera quase intimidante.

Vestidos de tecidos nobres, cortes impecáveis, cores profundas. Não eram roupas pensadas para impressionar, mas para representar algo maior do que vaidade: posição, sobriedade, tradição.

Escolheu um vestido simples, de tom azul escuro, discreto e elegante. Não queria parecer uma convidada deslumbrada, tampouco alguém deslocada. Havia algo naquele jantar que exigia respeito - ainda que ela não soubesse exatamente o porquê.

Quando desceu, a sala de jantar estava iluminada pela lareira e por poucas velas. Raphael já se encontrava à mesa. Levantou-se ao vê-la entrar, num gesto contido, quase cerimonial.

- Senhora Helena - disse, com a voz grave e tranquila. - Espero que a casa não a esteja tratando mal.

- A casa é silenciosa - respondeu ela, após um breve instante. - Mas não hostil.

Um leve brilho passou pelos olhos do duque. Ele indicou o lugar à sua frente, aguardando que ela se sentasse antes de fazê-lo.

O jantar transcorreu em silêncio respeitoso. Não desconfortável, mas atento. Raphael observava mais do que falava. Helena percebeu que cada gesto dele era medido, como se até o simples movimento dos talheres obedecesse a uma disciplina invisível.

Foi ela quem quebrou o silêncio.

- Posso fazer uma pergunta, duque?

Ele pousou os talheres lentamente.

- Claro.

Helena sustentou o olhar.

- Posso perguntar algo mais pessoal, duque?

Raphael ergueu o olhar, atento.

- Se desejar.

- O senhor... era amigo do meu marido?

Por um instante, o duque não respondeu. Não por hesitação, mas por respeito à pergunta. Pousou os talheres com cuidado antes de falar.

- Eu o conhecia - disse. - E o respeitava dentro dos limites que ele mesmo impunha.

Helena franziu levemente a testa.

- Então foi por isso que me trouxe para Blackmoor?

Raphael sustentou o olhar dela, firme, sem dureza.

- Não apenas por isso.

Houve uma breve pausa, e então ele continuou, com a voz mais baixa:

- O chanceler não pensou nas consequências de suas escolhas. Ao agir como agiu, deixou uma esposa sem proteção, sem recursos... sem respostas.

As palavras não carregavam julgamento, mas constatação.

- Não creio que tenha sido sua intenção - completou. - Mas a ausência também é uma decisão. E decisões têm custos.

Helena sentiu o peso daquelas palavras mais do que qualquer acusação. Raphael não falava como alguém que condenava, mas como alguém acostumado a lidar com perdas.

- Blackmoor não costuma acolher estranhos - concluiu ele. - Mas não considerei justo que arcasse sozinha com o que não causou.

Não era uma explicação. Era uma constatação.

Helena percebeu que não obteria mais do que aquilo naquela noite. Ainda assim, sentiu que havia ultrapassado um limite invisível, como se aquele jantar fosse menos um convite e mais um início.

Quando se levantaram, Raphael inclinou levemente a cabeça.

- Boa noite, senhora Helena.

- Boa noite, duque.

Ao deixar a sala, Helena teve a clara sensação de que Blackmoor não era apenas um lugar de passagem. E que Raphael Alastair Montford carregava mais perguntas do que estava disposto a revelar.

Sozinha no quarto, Helena fechou a porta com cuidado.

A conversa à mesa ecoava mais do que deveria - não pelas respostas que recebera, mas pelas que lhe foram negadas.

O duque falara como alguém que não improvisa. Como um homem acostumado a decidir antes de explicar.

Pela primeira vez desde que chegara a Blackmoor, Helena compreendeu que sua presença ali não era fruto do acaso.

E que, gostasse ou não, algo já havia sido colocado em movimento.

A ausência do marido ainda lhe parecia recente demais para ser aceita, pesada demais para ser explicada. Havia noites em que o silêncio a sufocava mais do que qualquer palavra dita à mesa. Pensou em tudo o que perdera - não apenas o homem, mas a vida que julgara segura.

Levantou-se e aproximou-se da janela. Por um instante, teve a nítida sensação de não estar completamente só. Um movimento sutil no jardim, uma sombra mal definida entre as árvores. Helena conteve a respiração, tentando distinguir formas, mas nada se revelou com clareza. Apenas a certeza incômoda de que algo - ou alguém - observava.

Afastou-se, fechando as cortinas com cuidado. Talvez fosse apenas o cansaço, talvez o luto distorcendo seus sentidos. Ainda assim, ao deitar-se, compreendeu que Blackmoor não era apenas um refúgio concedido por compaixão.

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