
O Don e a Princesa Do Cartel
Capítulo 2
O porto cheirava a ferrugem, sal e pólvora antiga.
O sol ainda não tinha nascido por completo quando chegamos. A claridade cinzenta da manhã deixava tudo mais cru, mais feio, mais real. Os galpões pareciam esqueletos enormes espalhados pela névoa e os homens armados em volta do perímetro tornavam o ambiente ainda mais sufocante.
Eu sempre odiei aquele lugar, mas meu pai gostava dele justamente por isso.
Dizia que o porto ensinava mais sobre poder do que qualquer escritório luxuoso, porque ali tudo era concreto: carga, rota, dinheiro, medo, mercadoria, sangue.
Naquela manhã, eu só conseguia ver o lugar onde levaram o corpo dele.
Entramos no galpão principal em silêncio e lá dentro, o ar estava frio demais.
Uma mesa metálica havia sido colocada no centro do espaço, improvisada às pressas. Meu pai estava sobre ela, coberto até a altura do peito por um lençol branco que não escondia o bastante. O rosto tinha sido limpo, mas a violência continuava ali, estampada na palidez da pele, no corte perto da têmpora, na rigidez da mandíbula.
Minha mãe parou de respirar por um segundo inteiro antes de caminhar até ele.
Alejandro afundou ao meu lado e Mateo permaneceu atrás de nós.
Eu me aproximei devagar, como se cada passo fosse uma traição contra a pequena parte de mim que ainda queria acreditar que aquilo não estava acontecendo.
Quando finalmente fiquei diante da mesa, as minhas pernas falharam.
Não caí porque me agarrei à borda metálica com força. Meu pai estava imóvel. Silencioso, vazio, e eu nunca o imaginei assim.
Diego de la Vega sempre ocupava espaço demais para parecer pequeno. Até parado, ele dominava um ambiente. Até doente, irritado ou furioso, ele parecia impossível de ser vencido. Ver aquele corpo diante de mim foi como descobrir que as montanhas também desmoronam.
Minha mãe levou os dedos ao rosto dele.
- Dios mío... - O sussurro dela rasgou mais do que qualquer grito.
Alejandro começou a chorar outra vez, eu continuei quieta, não por falta de dor, mas porque havia dores grandes demais para caber em som.
Fiquei ali, olhando para o homem que me ensinou a nunca demonstrar medo diante de estranhos, a sempre perceber quando alguém mentia com os olhos e a jamais confundir gentileza com fraqueza. O mesmo homem que me proibiu de entrar em certas salas quando eu era criança, que ergueu muralhas ao redor de tudo o que julgava importante e que ainda assim, de algum jeito torto, me amava.
Por trás de mim, escutei a voz de Mateo dando ordens baixas aos homens do porto.
Nomes. Rotas. Turnos de vigilância. Contatos. Outra vez aquilo me feriu.
Nem tínhamos enterrado o nosso pai e ele já estava ocupando o lugar que sequer lhe havia sido dado.
Virei o rosto.
- Você pode esperar?
- Não. - Ele não se desculpou, nem baixou a cabeça.
Minha mãe também se virou. Os olhos dela, vermelhos e molhados, repousaram sobre ele por um instante longo.
- Seu pai ainda está aqui.
- Ele não é e nunca foi o meu pai. - Mateo deu um passo à frente. - E é justamente por isso que eu não posso esperar.
- Para de falar como se isso fosse uma reunião. - Alejandro passou a mão pelo rosto.
- Vocês querem chorar? Chorem. Rezar? Rezem. - Mateo apertou o maxilar. - Mas entendam uma coisa: no minuto em que a notícia sair inteira, metade dos aliados do Don Diego vai tentar provar lealdade, e a outra metade vai tentar comprar o que restar da casa. Não existe luto limpo para homens como ele.
Eu me afastei da mesa metálica.
- Então o que você quer? Que a gente ajoelhe e aplauda porque você é o único racional aqui?
- Eu quero que parem de agir como crianças.
- Vai se foder. - A frase fez Alejandro avançar.
Mateo virou o rosto para ele, não elevou a voz ou levantou a mão, mas havia ameaça suficiente no modo como o encarou.
- Você ainda fede a leite, mas com essa atitude, nunca será um Don.
- E você sempre foi um maldito bastardo arrogante. - Alejandro deu mais um passo.
- Chega. - Minha mãe se colocou entre os dois antes que a briga piorasse.
O peito dela subia e descia com rapidez agora, e eu vi algo mudar em seu rosto. A tristeza ainda estava ali, mas começava a dividir espaço com outro sentimento.
Medo. Não pelo que havia acontecido. Mas pelo que viria depois.
Mateo passou a mão pelo nó da gravata, como se a simples existência da emoção alheia o incomodasse.
- A partir de hoje, eu assumo os negócios.
Foi simples assim. Sem nenhum cuidado, respeito ou espera, a frase caiu dentro do galpão como gasolina.
- Não. - Minha mãe piscou devagar.
- Não é uma questão de opinião. - Mateo a encarou sem expressão.
- É uma questão de sangue - ela rebateu, agora firme o bastante para me deixar arrepiada. - Você não pode assumir.
Ele ergueu uma sobrancelha.
- Não?
- Não é o herdeiro legítimo.
Alejandro levantou o rosto na mesma hora, como se a esperança tivesse retornado por um segundo. Eu permaneci imóvel, porque sabia que aquilo não bastaria.
Mateo soltou um riso breve, sem alegria alguma.
- Herdeiro legítimo? - Ele voltou a atenção para nossa mãe. - Isabela não pode assumir. - O olhar dele veio até mim por um instante. Frio. Calculado. - É mulher. - Depois desviou para Alejandro. - E ele é novo demais. Impulsivo demais. Inútil demais para manter homens obedientes.
Alejandro partiu para cima dele antes que eu pudesse pensar.
Mateo segurou o braço dele no ar com tanta facilidade que pareceu humilhante. Alejandro tentou se soltar, mas Mateo o conteve sem esforço, empurrando-o para trás.
- Você não manda em mim! - Alejandro gritou.
- Ainda não - Mateo disse entre os dentes. - Mas vou mandar em todos vocês se continuarem agindo assim.
Minha mãe respirou fundo, mas a voz saiu afiada:
- Diego nunca quis isso.
- Diego está morto.
Eu me movi antes de pensar, o tapa no rosto dele ecoou pelo galpão, o som metálico pareceu ainda maior por causa do silêncio em volta. Mateo virou o rosto com o impacto. Por um segundo, ninguém respirou.
- Nunca mais fala dele assim na minha frente. - Meu peito subia e descia com violência a palma da minha mão ardia.
Mateo trouxe lentamente o rosto de volta para mim, os olhos dele estavam escuros agora. Perigosos.
- Cuidado, Isabela.
- Não. - Dei mais um passo. - Você que tenha cuidado.
Minha mãe levou a mão à cabeça, exausta, e Alejandro voltou para perto dela.
Os homens do porto, espalhados pelo galpão, fingiam não olhar, mas eu sentia cada atenção presa em nós.
Mateo passou a língua no corte mínimo que o anel no meu dedo havia deixado no canto de sua boca.
- Você vai se casar.
Demorei um segundo para entender que ele falava comigo.
- O quê?
- Vai se casar com quem eu decidir. - A postura dele voltou à rigidez costumeira. - É assim que a casa se mantém. É assim que as alianças sobrevivem. Você serve mais casada do que opinando sobre aquilo que não entende.
- Não ouse. - Minha mãe ficou branca.
- É exatamente por entender esse mundo melhor do que vocês que eu sou o mais indicado. - Mateo virou-se para ela.
- Você é o mais ambicioso - eu cuspi. - Não o mais indicado.
- Ambição mantém homens vivos.
- Ambição matou o nosso pai - rebati.
Aquilo o atingiu. Pouco, mas atingiu. Mateo me olhou com uma dureza que só confirmava que eu tinha tocado onde devia.
Minha mãe respirou fundo, reuniu o que ainda restava de autoridade e falou com a firmeza de uma mulher que ainda era dona daquela casa, ainda que homens como Mateo quisessem esquecê-lo.
- Ninguém decide nada hoje.
- Eu decido e já decidi!
- Não. - Ela ergueu o queixo. - Enquanto eu estiver viva, você não governa esta família sozinho.
Mateo ficou em silêncio por alguns segundos, depois respondeu quase em tom de ameaça:
- Então não me obriguem a fazer isso do jeito difícil. - O gelo percorreu minha espinha, não porque eu duvidasse dele, mas porque sabia que Mateo jamais fazia ameaças vazias. - Vou reunir todos do cartel para uma votação, é claro que serei eleito, assim... não quero nenhum questionamento de vocês.
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