
O Diário Secreto da Amante Proibida
Capítulo 2
"Jodi, arruma as tuas coisas e volta para o Alentejo. A tua mãe já te arranjou uns encontros."
A voz cansada da minha mãe soou do outro lado do telefone, misturada com o som crepitante da lenha a arder. Era o som de casa.
"Mãe, eu estou bem aqui em Lisboa. Tenho um bom emprego, um bom salário. Porquê voltar de repente?"
Tentei manter a minha voz calma, mas a minha mão que segurava o telemóvel tremia ligeiramente. Pedir demissão? Voltar para o Alentejo? Como podia? Eu ainda não conseguia largar o Hugo.
"Bom emprego? Bom salário?" A voz da minha mãe subiu de tom, cheia de mágoa. "Jodi, já tens vinte e seis anos! Uma rapariga da tua idade, na nossa terra, já tem filhos a correr pela casa. E tu? Nem sequer tens namorado. Eu sei que ainda estás a pensar naquele Hugo Acosta."
O nome dele atingiu-me diretamente no peito.
Hugo Acosta. O herdeiro da Acosta Construções, o homem mais deslumbrante que eu já conheci. E o homem que eu amava secretamente há sete anos, desde a universidade.
A minha mãe suspirou. "Filha, ele é de outro mundo. A família dele é uma das mais ricas de Lisboa. Tu és só uma rapariga de uma vila pequena. Ele nunca olharia para ti. Esquece-o e volta para casa. A vida é curta, não a desperdices com alguém que não te merece."
As palavras dela eram cruéis, mas eram a verdade. Para Hugo, eu era apenas a sua assistente pessoal, a sua amante secreta. Uma substituta conveniente enquanto a sua ex-namorada, Nicole, estava no estrangeiro.
"Eu sei, mãe," murmurei, sentindo um nó na garganta. "Vou pensar nisso."
"Não penses, faz. Já chega."
Ela desligou. Olhei para o ecrã escuro do telemóvel, sentindo um vazio imenso. Talvez ela tivesse razão. Talvez estivesse na hora de desistir.
No momento em que tomei esta decisão, o meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem de Nicole Cullen, a minha "melhor amiga" e a mulher que Hugo realmente amava.
"Jodi, estou na penthouse do Hugo. Vem cá agora. Tenho uma surpresa para ti."
O meu coração gelou. Nicole tinha voltado. E estava na casa dele. O meu pior pesadelo tinha-se tornado realidade.
Corri para a penthouse do Hugo no Bairro Alto, o lugar que tinha sido o nosso ninho secreto nos últimos três anos. A porta estava entreaberta. Entrei com o coração a bater descontroladamente.
Nicole estava de pé no meio da sala, vestida com um vestido de alta-costura que realçava a sua figura perfeita. O seu cabelo loiro estava impecável, o seu rosto exibia um sorriso triunfante.
"Então, a ratazana finalmente saiu do buraco," disse ela, a sua voz doce como mel envenenado.
Antes que eu pudesse responder, a sua mão voou e atingiu a minha cara com força. O som ecoou na sala silenciosa.
"Sua cabra! Como te atreveste a dormir com o meu homem? Achas que eu não ia descobrir?"
A minha bochecha ardia. "Nicole, não é o que pensas. Ele... ele estava sozinho. Eu só..."
"Só o quê? Só o consolaste? Só abriste as pernas para ele porque eu não estava cá?" Ela riu, um som cruel. "Jodi, tu sempre foste assim. Uma seguidora patética, sempre a viver na minha sombra. Achaste mesmo que podias tomar o meu lugar?"
"Foi só um acordo temporário," gaguejei, sentindo-me pequena e humilhada. "Ele nunca me amou. Ele só sentia a tua falta."
"Claro que sentia a minha falta!" gritou ela. "Eu sou o amor da vida dele! E tu? Tu não és nada!"
Nesse momento, a porta abriu-se e Hugo entrou. O seu olhar passou por mim como se eu não existisse e pousou em Nicole, que imediatamente começou a chorar.
"Hugo, querido!" soluçou ela, correndo para os seus braços. "Esta... esta mulher agrediu-me! Ela disse coisas horríveis sobre nós!"
Hugo abraçou-a com força, o seu rosto endurecendo enquanto olhava para mim. Havia gelo nos seus olhos.
"Jodi, o que é que lhe fizeste?"
"Eu não fiz nada! Foi ela que me bateu!"
Nicole escondeu o rosto no peito dele. "Ela está a mentir, Hugo! Ela disse que tu eras dela, que eu não devia ter voltado. Ela tem inveja de nós."
"Inveja?" Hugo riu, um som frio e cortante que me partiu o coração em mil pedaços. "O que é que há para ter inveja? Jodi, nunca te passou pela cabeça que para mim tu eras apenas uma descarga? Uma forma de passar o tempo enquanto a Nicole não voltava? Eu nunca senti nada por ti."
Cada palavra era uma facada. Eu sabia que era verdade, mas ouvi-lo dizer aquilo em voz alta, na frente dela, destruiu a última centelha de esperança que eu tinha.
Nicole levantou a cabeça, os seus olhos a brilhar de malícia. "Hugo, se me amas mesmo, tens de prová-lo. Faz com que ela pague pelo que fez."
"O que queres que eu faça?" perguntou ele, a sua voz suave para ela, mas cheia de desprezo por mim.
"Quero que a humilhes," disse Nicole, um sorriso sádico a formar-se nos seus lábios. "Quero que todos saibam o lugar dela. Manda os teus seguranças rasgarem-lhe a roupa. E expulsa-a daqui."
Hugo hesitou por um segundo. Vi um lampejo de algo nos seus olhos, mas desapareceu tão rápido quanto apareceu. Ele olhou para o rosto suplicante de Nicole e a sua expressão tornou-se implacável.
"Seguranças," chamou ele, a sua voz ressoando com autoridade. "Façam o que a senhora Cullen disse."
Dois homens enormes entraram na sala. Agarraram-me pelos braços. Eu debati-me, gritei, mas era inútil. Eles eram demasiado fortes.
"Hugo, por favor, não faças isto!" implorei, as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. "Por favor!"
Ele não olhou para mim. Manteve os olhos em Nicole, como se eu já não estivesse ali.
Os seguranças rasgaram o meu vestido simples, o som do tecido a rasgar-se a ecoar nos meus ouvidos. Fiquei ali, em roupa interior, exposta e humilhada, enquanto Hugo e Nicole observavam.
"Tirem-na daqui," ordenou Hugo, a sua voz desprovida de qualquer emoção.
Eles arrastaram-me para fora do prédio e atiraram-me para a rua. Uma tempestade tinha começado, e a chuva fria começou a cair sobre o meu corpo semi-nu.
Lá dentro, através da janela, vi Hugo a abraçar Nicole, a beijar-lhe a testa, a consolá-la como se ela fosse a vítima.
Fiquei ali, a tremer de frio e de dor, enquanto a chuva se misturava com as minhas lágrimas. O meu amor de sete anos tinha acabado. Tinha sido destruído da forma mais cruel e pública possível.
Enquanto corria pela rua, a dor no meu coração era tão intensa que mal conseguia respirar. A minha mente voltou atrás, para a universidade. Eu era uma rapariga simples do Alentejo, deslumbrada pela cidade grande e pelas pessoas brilhantes que a habitavam. Nicole, com a sua beleza e confiança, tornou-se rapidamente o centro das atenções. E eu, com a minha aparência comum e origem humilde, tornei-me a sua "melhor amiga", o pano de fundo perfeito para a fazer brilhar ainda mais.
Foi através dela que conheci Hugo. Ele era o "casal de ouro" da universidade com Nicole. Eu apaixonei-me por ele à distância, um amor silencioso e sem esperança. Eu sabia que nunca poderia competir com Nicole.
Quando eles se separaram porque Nicole decidiu ir para o estrangeiro, o mundo de Hugo desabou. E eu estava lá. Fiquei ao seu lado, como sua assistente, a cuidar dele, a ouvir os seus desabafos sobre o quanto sentia a falta dela. Eu tornei-me o seu porto seguro, a sua confidente.
Uma noite, depois de ele ter bebido demais, aconteceu. A nossa relação tornou-se íntima. Mas nunca foi sobre amor. Para ele, era apenas uma "descarga", como ele disse. Ele nunca me beijou com ternura, nunca me abraçou depois. Era apenas sexo, frio e impessoal. Mas eu, tola, agarrei-me a isso, esperando que um dia ele me visse de verdade.
Durante três anos, vivi nesta ilusão. Sacrifiquei a minha carreira como designer de interiores, a minha paixão, para ser a sua assistente pessoal, sempre disponível, sempre à espera de uma migalha de afeto.
E agora, Nicole tinha voltado. E com um estalar de dedos, ele descartou-me. Como se eu nunca tivesse existido.
O meu telemóvel, que eu tinha conseguido agarrar antes de ser expulsa, vibrou no meu bolso. Era uma notificação do banco.
"Transferência recebida: 50.000€ de Hugo Acosta."
Seguiu-se uma mensagem dele.
"Isto é uma compensação. Pelo teu tempo e... pelos teus serviços. Não penses que eu não sabia que estavas apaixonada por mim. Foi divertido enquanto durou. Agora desaparece."
O choque foi tão grande que parei de correr. Ele sabia. Ele sempre soube. E usou os meus sentimentos contra mim, divertindo-se com a minha devoção cega.
As lágrimas pararam. O meu coração, que antes estava partido, agora sentia-se oco. Vazio.
Com os dedos a tremer, digitei uma resposta.
"Hugo Acosta, a partir de hoje, eu, Jodi Lawrence, juro que não te amarei mais."
Enviei a mensagem e bloqueei o seu número. A chuva continuava a cair, mas eu já não sentia o frio. Só sentia uma determinação gelada a tomar conta de mim. Estava na hora de partir. Para sempre.
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