
O Dia Em Que Meu Amor Se Despedaçou
Capítulo 2
A noite era um cobertor espesso e opressivo quando finalmente cheguei ao ponto de encontro designado fora do aeroporto. As luzes da rua projetavam sombras longas e distorcidas, fazendo o ambiente familiar parecer estranho e ameaçador. Tirei o celular do bolso, a tela brilhando fracamente na escuridão. 23:47. Meu voo tinha pousado no horário. Caio deveria estar aqui.
Verifiquei novamente a mensagem de texto que enviei a ele antes do meu voo decolar de Reykjavik. 'Pousando 22:30, horário de Brasília, Terminal 3, portão 27 para embarque.' Claro. Conciso.
Tentei o número dele. Uma vez. Duas vezes. Cada chamada ia direto para a caixa postal. Sua caixa postal estava cheia. Então tentei o número de Karine, só para ter certeza. Também foi direto para a caixa postal. Minha frustração fervia, um calor baixo e ardente no meu estômago.
Minutos se transformaram em meia hora. Depois uma hora. O ar frio da noite começou a penetrar na minha jaqueta leve, e um arrepio percorreu minha espinha. O último ônibus executivo tinha partido. As multidões haviam diminuído. Eu estava sozinha.
Finalmente, chamei um táxi que passava, o farol amarelo uma visão bem-vinda na noite desolada. O motorista, um homem corpulento com um pescoço grosso e olhos que pareciam não perder nada em seu retrovisor, resmungou um cumprimento. Dei a ele o endereço de Caio.
O esgotamento do longo voo, somado ao desgaste emocional da ligação de Caio, começou a cobrar seu preço. Minha cabeça doía, uma dor surda atrás dos meus olhos. Encostei-me na janela, tentando descansar, mas o sono não vinha. Meu estômago se revirava, um nó de desconforto se apertando a cada quilômetro.
De repente, uma buzina alta e estridente do carro atrás de nós me fez pular. Meus olhos se abriram. Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro frenético preso em uma gaiola. Não estávamos mais na Marginal. O táxi havia entrado em uma rua mal iluminada e desconhecida, ladeada por galpões abandonados e terrenos baldios. O pânico arranhou minha garganta.
"Para onde estamos indo?" perguntei, minha voz mal um sussurro, um tremor percorrendo-a.
O motorista me olhou no retrovisor, seus lábios se torcendo em algo que não era bem um sorriso. Ele não disse nada.
Minha mão instintivamente procurou meu celular. Parecia pesado e frio na minha palma. Meu polegar voou para o contato de Caio, a discagem de emergência que eu havia configurado anos atrás, uma relíquia de um tempo em que eu acreditava que ele sempre estaria lá.
A chamada conectou. Ouvi vozes abafadas, risadas e o tilintar distinto de copos. Minha respiração engatou. Parecia uma festa.
"Caio?" sussurrei, minha voz rouca.
"Quem é? O Caio tá ocupado", uma mulher arrastou as palavras. Era Karine. Claro que era Karine.
"Ele tá comemorando!" outra voz interveio bêbada ao fundo, uma voz de homem. "Caio, conta pra eles sobre a residência! Dr. Alencar, pessoal, acabou de ter sua nova turma de residentes aprovada!"
"Ah, querido, não é nada", a voz de Caio, amplificada pelo telefone, era enjoativamente afetuosa. "Apenas um pequeno avanço profissional. Tudo graças ao meu amuleto da sorte aqui."
"Amuleto da sorte!" Karine riu, um som que fez minha pele arrepiar. "Caio, conta pra eles o que você me prometeu se eu passasse por essa rotação sem incidentes."
"Qualquer coisa, minha querida, qualquer coisa", ele disse arrastado, as palavras fazendo meu estômago se contrair. "Exceto uma viagem para as Maldivas. Estamos trabalhando demais para isso. Talvez um dia de spa. Ou um fim de semana fora com nossos novos residentes."
"Um fim de semana fora!" outra voz, uma residente, gritou. "Longe de todo o estresse! Parece divertido. Vamos de jatinho particular, Dr. Alencar?"
"Qualquer coisa pela minha equipe favorita", Caio riu.
"Você não quer dizer sua protegida favorita?" a mesma residente brincou.
"Ah, cala a boca, você!" Karine riu de novo. "Júlia, espero que você não esteja ouvindo toda essa bobagem. O Caio está só sendo bobo."
Meu sangue gelou. Ela sabia que eu estava na linha. Ela sempre sabia.
"Enfim", Karine continuou, sua voz doce como mel, "tenho que ir. O Dr. Alencar está prestes a me dar uma aula particular sobre..."
A linha ficou muda. Karine havia desligado.
Uma onda de náusea me invadiu. Pressionei a palma da mão contra a boca, tentando abafar o som do meu estômago subindo. Fechei os olhos com força, desejando que a sensação fosse embora.
Os olhos do motorista encontraram os meus no retrovisor. Seu rosto estava obscurecido pela luz fraca, mas vi o brilho cruel em seus olhos.
"Quase em casa, madame?" ele perguntou, sua voz áspera. "Ou talvez a gente faça uma paradinha antes?"
Meu coração batia forte. Tentei acalmar minha respiração. "Não", eu disse, minha voz tremendo um pouco. "Apenas me leve para casa. E você está indo pelo caminho errado. O endereço é..."
"Taxa extra pelo desvio, então", ele interrompeu, seus olhos ainda fixos nos meus. "E pela espera. Só dinheiro."
Um pavor frio se instalou no meu peito. Ele não estava me levando para casa. Ele estava me levando tudo o que podia.
"Quanto?" perguntei, minha voz surpreendentemente firme.
Ele disse um preço que era três vezes a tarifa padrão. Eu não discuti. Apenas peguei minha carteira, minhas mãos tremendo um pouco enquanto contava as notas.
Ele parou o carro no meio do nada, uma rua escura e deserta banhada pelo brilho anêmico de um poste de luz distante. Minha mão não hesitou. Joguei o dinheiro nele, abri a porta e saí correndo. Nem peguei minha mala de mão do banco de trás. Não importava. Nada importava a não ser fugir.
Eu corri. Meus pés batiam no asfalto rachado, o vento chicoteando meu cabelo ao redor do meu rosto. A chuva havia começado, um spray frio e cortante que encharcou minhas roupas instantaneamente. Eu não sabia para onde estava indo, mas corri. Corri até meus pulmões arderem e minhas pernas doerem, meu peito arfando a cada respiração irregular.
Olhei para trás. As luzes traseiras do táxi permaneceram por um momento, dois olhos carmesins me observando da escuridão, antes de finalmente virar uma esquina e desaparecer.
Minhas pernas cederam. Tropecei, caindo de joelhos em uma poça, a ardência aguda da água fria fazendo pouco para anestesiar a dor no meu coração. Lágrimas se misturaram com a chuva no meu rosto. Eu não conseguia mais distinguir a diferença.
Meu celular vibrou. Uma nova mensagem. De Karine.
Era uma foto. Uma selfie. Karine, com o rosto corado com um blush falso, empoleirada no colo de Caio. O braço dele estava em volta da cintura dela, a cabeça jogada para trás em uma risada. Ao fundo, uma garrafa de champanhe estava meio vazia em uma mesa cheia de comida.
A legenda dizia: "Alguém está com um pouco de ciúmes, não é? Não se preocupe, o Dr. Alencar é todo meu esta noite! PS: Ele mandou um oi!"
Outra mensagem apareceu instantaneamente. Esta de Caio. "Desculpa, meu amor. Problema no carro. Tive que deixar a Karine em casa primeiro. Chego assim que puder. Não precisa me esperar."
Eu olhei para as duas mensagens lado a lado, a contradição gritante queimando em meu cérebro. Problema no carro. Certo.
Uma risada amarga e sem humor escapou dos meus lábios. Foi uma risada silenciosa, engolida pela chuva, mas ecoou alta e clara nas câmaras ocas do meu coração. A frieza dentro de mim era mais profunda que a chuva, mais afiada que o vento. Algo tinha acabado de quebrar. E desta vez, parecia permanente.
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