
O destino bate à porta
Capítulo 3
Anna estava exausta. O turno duplo, que sempre fazia aos sábados na lanchonete de sua amiga Martha, era puxado, mas o dinheiro extra compensava o cansaço. E ainda tinha as gorjetas. Olhou desanimada os lances de escadas que faltavam para chegar ao terceiro andar, onde morava com seu pai e sua irmã.
O pequeno apartamento de cinco cômodos, era o único bem da família que sobrou. Seu pai, Edgar, não pensou duas vezes, antes de vender a bela casa da família Martin, quando sua esposa Lídia, foi diagnósticada com um tumor agressivo no pâncreas. Comprou o pequeno apartamento em Crown Heights , no Brooklyn, e se mudou com sua mulher e suas filhas Liz, que na época tinha 18 e Anna com 16 anos. O restante do dinheiro, usou para pagar o tratamento de sua esposa. Tentou de tudo. Desde os tratamentos convencionais, quimio e rádio terapia, até os não
convencionais, que os planos de saúde não cobrem. O dinheiro escasseava rápido e a esperança de cura diminuía. Largou o emprego de historiador no Museu Americano de história, para ficar mais tempo com a mulher. Lídia faleceu 11 meses depois do primeiro diagnóstico.
A família Martin estava desgasta. O pai caiu em depressão. Liz revoltada, abandonou o último ano do ensino médio e fazia acusações, dizendo que o pai se afundou em dívidas por uma doença que não tem cura. Anna, sempre pragmática, se esforçou. terminou o ensino médio com ótimas notas, ganhou uma bolsa de 80% na Universidade de Colúmbia. E desde então sempre trabalhando pra pagar a faculdade e ajudar em casa. O pai arrumou um emprego de professor de história, numa escola de ensino médio. E assim, cinco anos depois da morte de Lídia, Edgar Martin e as filhas seguem morando no Brooklyn.
Quando estava girando a chave na fechadura, Anna ouviu os gritos do pai. O pai sempre fora calmo, tanto que Liz sempre abusava da paciência dele.
-- Se não está bom pra você, vá. Saia e não precisa voltar. Esqueça que tem um pai. Esqueça que tem uma família. Vá viver a sua vida de luxo que tanto sonha. Saia do lixo que você tanto odeia. Vá!
Edgar estava vermelho de fúria. Anna nunca viu o pai assim. Tão exaltado.
Liz passou raivosa por ela e saiu pela porta aberta, esbarrando em uma Anna estupefata pela cena que presenciara. Ficou ali, em frente a porta ainda aberta, sem reação.
-- Anna - disse Edgar com voz fraca - chame uma ambulância.
Ela demorou uns segundos pra entender o que o pai dizia, parecia surreal que, depois da gritaria, sua voz soasse tão baixa e fraca. Até que ele caiu de lado no sofá.
Você pode gostar





