
O Despertar do Herdeiro: Não Mais um Tolo
Capítulo 2
João Pedro Alencar era o herdeiro único da dinastia Alencar, uma família poderosa e tradicional de cafeicultores do interior de São Paulo.
Seu pai, Afonso Alencar, um patriarca de pulso firme, estabeleceu um sistema peculiar: sete "protegidas" viviam na fazenda da família.
A ideia era que uma delas se tornasse a esposa ideal para João Pedro, consolidando o poder e o futuro dos Alencar.
Todas as jovens foram acolhidas pela família, vindas de orfanatos ou situações difíceis, e deviam sua lealdade e sustento aos Alencar.
João Pedro, no início, era conhecido por sua generosidade, um rapaz de bom coração.
Ele tinha um carinho especial por todas as protegidas, mas seus olhos se fixavam em uma: Isabella Vasconcelos.
Isabella era a mais bela, sem dúvida, mas também a mais inteligente e, para ele, a mais fria.
Ela o tratava com uma distância calculada, quase um desprezo velado, e isso, ironicamente, só aumentava o fascínio de João Pedro.
Ele se via como um "capacho" por ela, disposto a tudo para ganhar um sorriso, um olhar de aprovação.
Certa noite, a lua cheia iluminava os cafezais e a varanda da casa grande.
João Pedro não conseguia dormir, a imagem de Isabella em sua mente.
Ele caminhava pelos corredores silenciosos quando ouviu vozes vindas da biblioteca.
Era Isabella. E Leonardo Vasconcelos.
Leonardo, o "irmão de criação" de Isabella, também acolhido pelos Alencar, um rapaz charmoso e, aos olhos de muitos, irresistível.
João Pedro parou, o coração aos pulos.
"Eu te amo, Leo," Isabella sussurrou, a voz carregada de uma paixão que João Pedro nunca tinha ouvido dela. "Você é tudo para mim."
Leonardo riu, um som baixo e confiante. "Eu sei, meu amor. E você é minha."
O mundo de João Pedro desabou. A frieza dela não era um desafio, era desinteresse. Seu coração pertencia a outro.
Aquele que ele considerava quase um irmão, agora era seu rival.
Atordoado, João Pedro cambaleou para longe, a dor da traição o consumindo.
Ele decidiu ali, naquela noite escura, que não seria mais o tolo apaixonado.
Se Isabella não o queria, ele encontraria quem o quisesse.
Clara Medeiros veio à sua mente.
Herdeira de uma influente família do agronegócio, amiga de infância, Clara sempre demonstrou um afeto genuíno por ele.
Sim, ele se casaria com Clara.
No dia seguinte, com a decisão tomada, João Pedro procurou seu pai.
"Pai," ele começou, a voz firme, surpreendendo a si mesmo. "Decidi com quem vou me casar."
Seu Afonso ergueu uma sobrancelha. "Finalmente. E quem é a escolhida? Isabella, imagino?"
"Não, pai. Vou me casar com Clara Medeiros."
Seu Afonso franziu a testa. "Clara? Mas e as protegidas? Elas foram criadas para isso. Todas são leais a você, meu filho."
Leais? João Pedro sentiu um gosto amargo na boca. Ele se lembrou de como acreditava nisso, de como via a dedicação delas como prova de afeto. Que idiota ele tinha sido.
Mais tarde naquela noite, a insônia o atacou novamente.
Ele passou perto do quarto das outras protegidas e ouviu risadinhas e cochichos.
"Ele realmente acha que alguma de nós quer aquele bobo?" Era a voz de Gabriela Lima, conhecida por seu temperamento forte.
Sofia Moreira, a "cobra criada", astuta e dissimulada, respondeu: "Claro que não. O alvo sempre foi o Leonardo. João Pedro é só o provedor."
Outra voz, mais suave, acrescentou: "O plano é simples: uma de nós se casa com o herdeiro, e Leonardo continua vivendo no luxo que merece."
Elas zombavam dele, revelando que todas fingiam desinteresse ou criavam estratégias para afastá-lo.
A verdade era que todas estavam apaixonadas por Leonardo e competiam por sua atenção.
Isabella era a única que não "atuou" dessa forma, e por isso, ironicamente, atraiu João Pedro.
Ele era apenas um meio para um fim.
A raiva subiu pela espinha de João Pedro, silenciosa e devastadora.
Ele cerrou os punhos, o corpo tremendo de fúria contida.
Aquele sistema de "protegidas", a gratidão que ele esperava, tudo era uma farsa.
As protegidas, incluindo Isabella e Leonardo, eram órfãs.
Seu pai as acolheu para que uma delas se tornasse sua esposa, para servir aos interesses da família Alencar.
Isabella, ele se lembrou, impôs uma condição para vir: que Leonardo, seu "irmão de criação", fosse acolhido também.
E ele, João Pedro, cego de amor por Isabella, convenceu o pai a aceitar.
Leonardo desfrutou dos mesmos privilégios que ele, talvez até mais.
As protegidas o favoreciam, Isabella o idolatrava.
Quantas vezes Seu Afonso o repreendeu por sentir ciúmes de Leonardo?
"É seu irmão de criação, João Pedro! Tenha modos!"
Essas palavras ecoavam em sua mente, fazendo-o duvidar de si mesmo, de seus próprios instintos.
Agora, a clareza era dolorosa. A manipulação, a falsidade. Tudo estava exposto.
Ele se afastou, mas não antes de ouvir Isabella e Leonardo novamente, desta vez no jardim.
Eles discutiam abertamente o plano: Isabella se casaria com João Pedro, um casamento de fachada, para que pudessem continuar seu romance secretamente.
A confirmação final, o golpe de misericórdia. A ingenuidade de João Pedro morreu naquela noite.
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