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Capa do romance O Despertar De Uma Nova Mulher

O Despertar De Uma Nova Mulher

Após morrer na miséria por causa da traição de Pedro, seu irmão adotivo, Maria desperta vinte anos no passado. De volta à juventude e sem as cicatrizes do sofrimento, ela se vê no dia exato em que sua ruína começou. Quando Pedro tenta manipulá-la para segui-lo rumo ao desastre, Maria impõe um limite inesperado. Agora, armada com memórias do futuro, ela desafia os Silva para proteger o pequeno João e reescrever seu destino, garantindo que a história não se repita.
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Capítulo 2

A escuridão era fria e sem fim.

Eu flutuava nela, sentindo meu corpo se desintegrar pouco a pouco. A última coisa que me lembro é do cheiro de mofo do quarto na favela, da febre queimando meu corpo e do meu irmão, João, segurando minha mão, chorando.

Vinte anos. Vinte anos de sofrimento desde aquele dia.

O dia em que Pedro me vendeu por um punhado de comida.

Meus pais adotivos, os Silva, choravam sobre meu corpo sem vida. Seu arrependimento era uma faca cravada em um coração que já não batia. Pedro, o herdeiro de uma grande empresa, estava lá, com o rosto pálido, talvez por culpa, talvez por medo de que o escândalo manchasse seu nome. Ana, sua irmã, a filha mimada que tomou meu lugar, se agarrava à mãe, chorando lágrimas de crocodilo.

Eles se arrependeram. Mas de que adiantava? Meu fim já estava escrito.

Ou assim eu pensava.

De repente, uma luz forte. Abri os olhos com um susto, o ar enchendo meus pulmões com uma urgência dolorosa.

A primeira coisa que vi foi o teto familiar da casa dos Silva. O mesmo teto de vinte anos atrás.

A segunda coisa que ouvi foi a voz de Pedro.

"Pai, mãe, eu não aguento mais! Essa casa é um inferno! Eu quero ir embora, tentar a vida na cidade grande!"

A voz dele, mais jovem, petulante, exatamente como na minha memória.

Eu me sentei na cama, o coração martelando no peito. Olhei para minhas mãos. Eram as mãos de uma jovem, sem as cicatrizes e a aspereza de anos de trabalho forçado e doença.

Eu estava no meu antigo quarto. O papel de parede com pequenas flores amarelas, o guarda-roupa de madeira, a pequena janela que dava para o quintal.

Não era um sonho. Não era o além.

Eu voltei.

Voltei para o dia em que tudo começou.

Pedro continuava seu chilique na sala. "Eu já tenho dezessete anos, não sou mais criança! E a Maria vai comigo. Ela é minha irmã, tem que cuidar de mim!"

Levantei-me, as pernas ainda um pouco bambas. Caminhei até a porta do quarto e espiei pela fresta.

Senhor Silva, meu pai adotivo, um homem de ombros largos e mãos calejadas pelo trabalho, passava a mão pelo rosto, cansado. "Pedro, que loucura é essa? Fugir de casa? E levar sua irmã junto? Você enlouqueceu?"

Dona Silva, minha mãe adotiva, estava com os olhos vermelhos. Ela olhou na direção do meu quarto, uma expressão de preocupação profunda em seu rosto. "Pedro, filho, pense direito. A vida lá fora não é fácil. E a Maria... ela é só uma menina."

Na minha vida passada, eu ouvi essa mesma conversa. Ingênua e submissa, eu acreditei nas promessas de Pedro. Acreditei que ele queria uma vida melhor para nós dois. Acreditei que ele me protegeria.

Que piada.

Pedro me viu na porta. Um sorriso manipulador se formou em seus lábios.

"Maria! Vem cá! Diz pra eles. Você quer vir comigo, não quer? A gente vai ficar rico, nunca mais vamos passar necessidade!"

Ele veio até mim, tentando pegar minha mão.

Eu dei um passo para trás, meu corpo reagindo antes que minha mente pudesse processar completamente. O toque dele me causava náuseas.

"Não."

A palavra saiu firme, mais alta do que eu esperava.

Pedro parou. O sorriso dele vacilou. "O quê?"

Senhor e Senhora Silva também olharam para mim, surpresos. Naquela época, eu raramente discordava de alguém, muito menos de Pedro.

Eu olhei diretamente nos olhos dele, os mesmos olhos que me viram ser trocada por comida sem um pingo de remorso.

"Eu disse não. Eu não vou a lugar nenhum com você, Pedro."

A confusão no rosto dele era quase cômica. Ele não esperava por isso. O roteiro dele não incluía essa parte.

"Maria, você tá doida? A gente combinou! Você não quer uma vida melhor? Longe dessa casa apertada?" ele insistiu, baixando a voz, tentando usar o tom conspiratório que sempre funcionava comigo.

"Eu gosto da minha vida aqui," eu respondi, minha voz fria como gelo. "Eu gosto desta casa. E eu não vou deixar o João."

Mencionar meu irmão mais novo, João, que dormia tranquilamente no outro quarto, pareceu fortalecer minha determinação. Eu não deixaria que o destino terrível dele se repetisse. Nunca.

Pedro ficou sem palavras. Ele olhou para os pais, esperando que eles me forçassem, como sempre faziam. "Ela não sabe o que diz! Ela sempre me obedece!"

Dona Silva se aproximou, seus olhos buscando os meus. Havia algo diferente em seu olhar hoje. Uma hesitação, uma dúvida que eu não me lembrava de ter visto na vida passada.

"Se a Maria não quer ir, ela não vai," ela disse, sua voz surpreendentemente firme.

Agora foi a vez de Pedro e do Senhor Silva ficarem chocados. Dona Silva sempre cedia aos caprichos do filho.

"Mas, querida..." começou o Senhor Silva.

"Não tem 'mas' , Carlos," ela o cortou. "Pedro, essa sua ideia maluca acaba aqui. Você não vai a lugar nenhum. E muito menos vai arrastar a sua irmã para os seus problemas."

Pedro me fuzilou com o olhar. Era um olhar de pura raiva e traição. Ele não entendia por que a marionete dele de repente cortou as próprias cordas.

Ele rosnou, frustrado. "Vocês vão se arrepender! Todos vocês! E você, Maria... você vai me pagar por isso."

Ele se virou e bateu a porta do seu quarto com força, fazendo a casa inteira tremer.

Eu soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. Meu primeiro passo. Eu tinha conseguido. Tinha desviado da primeira bala.

Mas eu conhecia Pedro. Ele não desistiria tão fácil. A ganância dele era um poço sem fundo. Ele tentaria de novo, de outra forma. E da próxima vez, ele seria mais esperto.

Eu precisava estar preparada. A guerra pela minha vida, e pela vida do meu irmão, tinha acabado de começar.

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