
O Despertar de Ana: Quando a Traição Acende a Fúria
Capítulo 2
Quando acordei, a primeira coisa que vi foi o teto branco do hospital.
Um cheiro forte de desinfetante encheu o meu nariz, e uma dor aguda no meu tornozelo lembrou-me do que tinha acontecido.
O meu marido, Pedro, estava sentado ao meu lado, a sua cabeça baixa, a olhar para o telemóvel.
A minha mãe, Clara, estava a dormir no sofá do outro lado da sala, o seu rosto pálido e cansado.
Tentei sentar-me.
"Não te mexas," disse Pedro, sem levantar a cabeça. "O médico disse que partiste o tornozelo."
A sua voz estava fria, sem qualquer emoção.
"Onde está a Sofia?" perguntei.
Sofia era a minha irmã mais nova. Ela estava no carro comigo quando o acidente aconteceu.
Pedro finalmente levantou os olhos do telemóvel, o seu olhar irritado.
"A Sofia está bem. O Bruno está com ela. Ela só se assustou um pouco."
Bruno era o namorado da Sofia.
"Estou a falar contigo sobre o teu tornozelo partido, e tu só te preocupas com a Sofia? Às vezes não te entendo."
A sua impaciência era óbvia.
Uma raiva fria começou a subir dentro de mim.
"O acidente aconteceu há seis horas, Pedro. Onde estiveste?"
Ele desviou o olhar.
"Eu estava ocupado. O Bruno ligou-me a dizer que a Sofia estava em pânico e a chorar sem parar. Ele não conseguia acalmá-la. Tive de ir lá."
"Ocupado a consolar a minha irmã?" A minha voz tremia ligeiramente. "Eu estava inconsciente, Pedro. Eu podia ter morrido."
"Não sejas dramática," ele respondeu bruscamente. "Os médicos disseram que era só uma concussão e um tornozelo partido. A Sofia estava a ter um ataque de pânico. Isso é sério."
Eu ri. Um som seco e amargo.
Ele estava a justificar ter abandonado a sua esposa inconsciente no hospital para ir confortar a sua cunhada, que estava perfeitamente segura com o namorado dela.
"Pedro," eu disse, a minha voz agora firme e fria. "Quero o divórcio."
Ele ficou chocado. A sua boca abriu-se, mas não saiu nenhum som.
"Divórcio? Estás a brincar? Por causa disto? Porque eu fui ajudar a tua irmã?"
"Não 'por causa disto'," corrigi. "É por tudo. Isto foi apenas a última gota."
"Tu estás a ser ridícula, Ana. Estás a exagerar. Estás ferida e não estás a pensar com clareza."
Ele tentou pegar na minha mão, mas eu afastei-a.
O seu telemóvel tocou nesse momento. Ele olhou para o ecrã. Era a Sofia.
Ele hesitou, olhou para mim, e depois atendeu.
"Sofia? O que se passa? Estás bem?"
A voz dela, chorosa e infantil, chegou até mim. "Pedro... não consigo dormir. Tive um pesadelo sobre o acidente. Podes vir cá?"
Olhei para o Pedro, à espera que ele dissesse não. Que ele dissesse que a sua esposa estava no hospital e precisava dele.
Em vez disso, ele suspirou e disse, "Ok, ok, não chores. Eu vou já para aí. Tenta acalmar-te."
Ele desligou e olhou para mim, evitando o meu olhar.
"A tua irmã precisa de mim."
"E eu não?" A pergunta saiu como um sussurro.
"A tua mãe está aqui. Tu não estás sozinha," ele disse, já a levantar-se. "Nós falamos sobre isto do 'divórcio' quando estiveres mais calma. Estás a ser irracional."
Ele saiu do quarto sem olhar para trás.
As lágrimas que eu estava a segurar finalmente caíram, a escorrer quentes pelo meu rosto.
Irracional. Ele chamou-me irracional.
O meu telemóvel estava na mesa de cabeceira. Peguei nele com as mãos a tremer.
Abri a galeria de fotos. Uma foto nossa, tirada no nosso casamento há dois anos. Estávamos a sorrir, felizes.
Parecia uma vida inteira atrás.
Apaguei a foto.
Depois apaguei todas as outras fotos dele.
Quando terminei, o meu telemóvel estava limpo dele. O meu coração, no entanto, sentia-se pesado e sujo.
A minha mãe mexeu-se no sofá e acordou.
"Ana? Querida, o que se passa? Onde está o Pedro?"
"Ele foi ter com a Sofia," eu disse, a minha voz vazia.
A minha mãe suspirou, um som de resignação. "Oh, querida. Tu sabes como a tua irmã é. Ela sempre foi mais... sensível."
"E eu sou o quê, mãe? De pedra?"
Ela não respondeu. Apenas veio sentar-se ao meu lado, a sua mão a afagar o meu cabelo.
O seu silêncio era uma resposta.
No mundo da minha família, a Sofia era a flor delicada que precisava de ser protegida.
E eu era a forte. A que aguentava tudo.
Mas eu já não queria ser forte.
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