
O Despertar de Ana: Quando a Traição Acende a Fúria
Capítulo 3
No dia seguinte, o Pedro não apareceu.
Ele enviou uma mensagem de texto.
"Desculpa, a Sofia teve uma noite difícil. Não dormi nada. Vou tentar passar aí mais tarde. Como está o teu tornozelo?"
Não respondi.
A minha mãe ficou comigo, a sua presença um conforto silencioso, mas também um lembrete constante da dinâmica da nossa família.
Ela trouxe-me sopa, ajudou-me a ir à casa de banho, falou com as enfermeiras.
"O Pedro ligou?" ela perguntou à tarde.
"Não."
"Ele deve estar mesmo preocupado com a Sofia," disse ela, quase como uma desculpa para ele.
"Ele devia estar preocupado comigo," respondi, a minha voz mais áspera do que eu pretendia.
A minha mãe suspirou. "Ana, tu sabes que o Pedro sempre teve um fraquinho pela Sofia. Ele vê-a como uma irmã mais nova."
"Ela é a minha irmã, não a dele."
A conversa morreu ali. Sabíamos ambas que continuar seria inútil.
Mais tarde, o meu telemóvel tocou. Era um número desconhecido. Atendi.
"Senhora Ana Costa?"
"Sim."
"Aqui é o agente Silva, da polícia de trânsito. Tenho algumas perguntas sobre o seu acidente de ontem."
"Claro."
"O seu relatório inicial diz que o outro carro passou o sinal vermelho. Mas o condutor do outro veículo, um senhor chamado Mário, afirma que foi a senhora que se distraiu e avançou. Ele tem uma testemunha."
Fiquei gelada. "Isso é mentira. Eu vi o sinal. Estava verde para mim."
"A testemunha é a sua irmã, a senhora Sofia Costa."
O telemóvel quase me caiu da mão.
"O quê? A Sofia... a Sofia disse isso?"
"Sim, senhora. O depoimento dela corresponde ao do senhor Mário. Ela disse que a senhora estava a discutir com ela e não prestou atenção ao sinal."
A minha cabeça começou a andar à roda.
"Isso... isso não pode ser verdade. Ela não faria isso."
"Bem, senhora, é o que temos no relatório. Como os depoimentos se contradizem, teremos de investigar mais a fundo. Se a versão do senhor Mário for confirmada, a senhora poderá ser considerada culpada pelo acidente."
"Eu entendo," consegui dizer.
Desliguei a chamada.
A minha respiração estava ofegante. O quarto do hospital parecia estar a encolher à minha volta.
A Sofia mentiu.
Ela mentiu à polícia. Ela culpou-me pelo acidente.
Porquê? Para se proteger? Para evitar problemas?
A porta do quarto abriu-se. Era a Sofia.
Ela entrou, os seus olhos grandes e cheios de lágrimas. O Bruno seguia-a, o seu braço à volta dela como se ela fosse feita de vidro.
"Ana!" ela choramingou, correndo para a minha cama. "Estava tão preocupada!"
Afastei-me instintivamente quando ela tentou abraçar-me.
Ela parou, a sua expressão magoada. "O que se passa?"
O Bruno olhou para mim com reprovação. "Ela passou por muito, Ana. Sê mais simpática."
"A polícia ligou-me," eu disse, a minha voz um fio.
O rosto da Sofia ficou pálido. Ela trocou um olhar rápido com o Bruno.
"Eles... eles disseram que tu lhes disseste que eu passei o sinal vermelho."
A Sofia começou a soluçar. "Eu não tive escolha, Ana! O homem estava a gritar connosco! Ele disse que ia processar-nos! O Bruno disse que era a única maneira de nos livrarmos de problemas. Eu estava com tanto medo!"
Olhei para o Bruno. Ele tinha a cara de quem não se desculpava.
"Foi para o bem de todos," disse ele com firmeza. "O seguro dele cobre tudo. Tu tens bom seguro, certo? Ninguém sai a perder. A Sofia estava traumatizada. Eu tinha de a proteger."
"Proteger de quê? Da verdade?" gritei. "Vocês fizeram de mim a culpada! Eu podia ter morrido, e vocês mentem para se safarem de um possível processo?"
"Ninguém morreu!" A Sofia gritou de volta, as suas lágrimas a pararem de repente. "Tu estás bem! Só partiste um tornozelo! Eu é que vou ter pesadelos com isto para o resto da minha vida!"
A sua transformação de vítima assustada para acusadora zangada foi tão rápida que me deixou sem fôlego.
"O Pedro concordou que era a melhor solução," acrescentou o Bruno, como se isso fosse o selo final de aprovação.
O meu coração parou por um segundo.
"O Pedro... sabe disto?"
"Claro que sabe," disse o Bruno, impaciente. "Falei com ele ontem à noite. Ele disse para fazer o que fosse preciso para acalmar a Sofia. Ele disse que tu ias entender."
Eu ia entender.
Todos eles decidiram o meu destino, a minha culpa, a minha história, sem mim.
E todos esperavam que eu entendesse.
"Saiam," eu disse, a minha voz perigosamente calma.
"Ana..." começou a Sofia.
"EU DISSE PARA SAÍREM!"
A minha mãe, que tinha estado em silêncio no canto, finalmente interveio. "Sofia, Bruno, talvez seja melhor irem. A Ana precisa de descansar."
Eles saíram, a Sofia a lançar-me um olhar de traição, como se eu fosse a vilã.
Fiquei a olhar para a porta fechada, o som dos meus próprios batimentos cardíacos a ecoar nos meus ouvidos.
O meu marido. A minha irmã.
Eles tinham conspirado contra mim.
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