
O Despertar da Rainha Abandonada
Capítulo 2
O ar pesado do cativeiro ainda pairava nas memórias de Sofia Mendes, mesmo semanas depois. Ela e Bianca Lima, a amiga de infância de seu marido Ricardo Oliveira, tinham sido levadas durante um evento beneficente. No escuro e no medo, Bianca insinuara coisas terríveis, sussurros sobre os sequestradores, sobre violência. Sofia tentara não ouvir, focada apenas em sobreviver.
Agora, a realidade era outra, igualmente chocante. Um enjoo persistente, uma suspeita que se confirmou com dois testes de farmácia. Grávida. Bianca também. Duas gravidezes, nascidas do mesmo trauma, ou assim parecia.
Sofia olhou para Ricardo, o homem que amava, o herdeiro do Grupo Oliveira, seu marido. Esperava conforto, apoio.
Ele parecia pálido, os olhos fixos em Bianca, que chorava baixinho no sofá da sala de estar suntuosa.
"Eu preciso proteger a honra da Bianca," Ricardo disse, a voz embargada. "Vou assumir o filho dela. Foi um... um consolo depois de tudo."
Sofia sentiu o chão sumir. "E o nosso filho, Ricardo? Concebido antes de tudo isso?"
Ele desviou o olhar. "As pessoas vão entender, Sofia. Vão pensar que... que foi consequência do sequestro. Pela reputação da Bianca, por favor, aguente."
A traição queimou em seu peito, mais dolorosa que qualquer ferida física. O filho deles, o fruto do amor que ela acreditava ser sólido, renegado, manchado por uma mentira conveniente.
Ela se sentia exausta, uma fadiga que ia além do corpo, alcançava a alma. Não havia mais lágrimas, apenas um vazio gelado.
"Eu não posso," ela sussurrou, mais para si mesma do que para ele. "Estou cansada demais para amar assim."
A decisão brotou, firme e dolorosa. O divórcio.
Procurou um advogado no dia seguinte. Tiago, seu irmão mais velho, influente e protetor, teria movido mundos por ela, mas Sofia quis lidar com aquilo com a frieza que a situação exigia.
Quando os papéis ficaram prontos, Ricardo mal olhou. Estava ocupado demais com os preparativos para o anúncio da gravidez de Bianca, com os cuidados que a "frágil" amiga exigia.
"Assine por mim, Sofia. Qualquer coisa. Confio em você."
As palavras dele, antes um bálsamo, agora eram navalhas. Ela assinou, sentindo um gosto amargo de ironia. Ele confiava nela para acabar com o próprio casamento, sem sequer imaginar.
Com a decisão tomada, outro passo se impunha, o mais terrível. O filho que Ricardo renegara. Como poderia trazê-lo a um mundo onde o próprio pai o via como uma vergonha a ser escondida?
O médico confirmou: uma gravidez saudável, um feto perfeito.
Mas o coração de Sofia estava em pedaços. Na fria sala de cirurgia, ela interrompeu a gravidez. Um sacrifício silencioso, uma dor que a consumiria por dentro. Era o fim definitivo daquele capítulo de sua vida.
Lembranças do início do romance com Ricardo a assaltavam. Jantares à luz de velas, viagens surpresa, promessas de amor eterno sussurradas ao pé do ouvido. Ele a cobrira de presentes caros, de gestos grandiosos.
"Você é o meu mundo, Sofia," ele dissera uma vez, ajoelhado, com um anel de diamante brilhando na caixa de veludo.
Onde estava aquele homem agora? Perdido na teia de manipulação de Bianca.
Bianca. Sempre Bianca. Uma sombra constante no casamento deles. Amiga de infância de Ricardo, vinda de uma família em declínio, sempre precisando de algo. Uma dívida antiga de gratidão da família Oliveira para com os Lima era o pretexto perfeito.
Ricardo sempre a priorizava. Jantares cancelados, viagens adiadas, tudo em nome da "ajuda" a Bianca. Sofia engolia o ressentimento, tentava compreender. Mas a desconsideração pelo próprio filho era a gota d'água.
Enquanto Sofia saía da clínica, pálida e trêmula, o celular vibrou com notificações. Abriu uma rede social. Lá estava Ricardo, sorridente, a mão protetoramente sobre a barriga de Bianca. A legenda da foto, postada por uma coluna social, falava do "milagre da vida" e da "força do amor" do casal Oliveira para superar o trauma.
A dor física do procedimento se misturou à dor da traição. Era um golpe brutal, uma aniquilação de tudo o que ela acreditara. O mundo girou, e Sofia se apoiou na parede, lutando para respirar.
Você pode gostar





